Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.

segunda-feira, 5 de março de 2018

O retrocesso do móvel popular



Mesmo com o progresso nos processos de manufatura, com a divulgação pelas redes sociais, com a existência de bons exemplos mundiais, neste início de século XXI continuamos a regredir em áreas onde isso não seria concebível. O setor de mobiliário popular é um deles. Nos dias de hoje o mobiliário popular, que é oferecido ao consumidor brasileiro é pior do que em meados do século passado, tanto em design como em qualidade. 

Este raciocínio nos ocorreu logo após a notícia do falecimento de Ingvar Kamprad, há poucas semanas, o fundador e presidente da rede de lojas IKEA, espalhadas pelo mundo. A IKEA foi uma das precursoras da difusão do móvel popular  qualidade pelo mundo, iniciado no final dos anos 60, junto com a Habitat, esta de origem britânica, e que hoje faz parte da rede IKEA. Estes dois exemplos mudaram o paradigma do que é um móvel popular, de preço justo, mas com funcionalidade, design e qualidade, para atender a um publico diferenciado, nascido no pós-guerra. A IKEA nasceu em uma pequena cidade do interior da Suécia e se tornou a maior rede de venda de móveis e acessórios para a casa do mundo, com 400 lojas e presença em todos os continentes, menos na América do Sul. Kamprad foi o milionário europeu que frequentou o primeiro lugar do ranking por longos anos. Sua filosofia de vida foi que norteou a fundação da empresa e a feição de seus produtos, que tiveram sucesso quase que instantâneo. Ele percebeu a emergência de uma classe popular de consumidores com necessidade de mobiliário de qualidade, mas com preços populares.

O interessante é que nos anos 70 houve um interesse da IKEA e da Habitat (então ainda independente) em vir para o Brasil, como um inicio de uma possível operação em nosso continente. Estiveram aqui em missão exploratória mas desistiram após alguns estudos. Já operava em algumas cidades brasileiras uma cópia delas, a rede Tok&Stok, com produtos muito semelhantes mas a preços muito mais caros, comparativamente, aos praticados por eles em suas redes. A proibição de importar peças de mobiliário praticada na época foi um dos fatores que os impediram de ir a frente. Isso significaria produzir todo o seu catalogo aqui, e com nossos custos inflacionados, o que impediu a viabilidade do negócio. Isso também impediu que nos tornássemos fornecedores deles, mesmo havendo algumas iniciativas de empresas nacionais, o que detalharemos em outro post. Este é um dos exemplos internacionais a que nos referimos no início. Se estas tentativas tivessem se concretizado, poderíamos ter outro patamar de qualidade de mobiliário e acessório, atendendo ao nosso consumidor popular. Certamente estabeleceria um novo paradigma para o setor.

O que temos hoje é abaixo da critica. Um mobiliário popular construído com péssimo design, acabamento pífio, detalhamento abaixo de qualquer critério, que não suporta o uso diário, nem uma mudança sequer, sem possibilidade de manutenção, com materiais e acabamentos que não suportam um copo molhado, sobre um tampo de mesa. O resultado é que há uma invasão de produtos chineses de baixo custo competindo com o produto nacional, com sérios problemas para a indústria local. Uma indústria que sempre teimou em privilegiar custo sobre qualidade, nivelando assim seu mercado pelo menor nível possível, hoje sofre as consequências. Não criamos uma cultura da qualidade, o que dirá do design.

O design de nosso mobiliário peca por uso de placas de MDF com revestimento de péssima qualidade. Itens desmontáveis, mas com ferragens de baixa resistência e com acabamentos de parafusos aparentes, com capinhas que se desprendem e se perdem facilmente. Excesso de cromados e parafusos aparentes, no mobiliário metálico, com tubos de espessuras inadequadas, facilmente deformáveis ao se arrastar uma mesa. Cadeiras com acabamentos em chapa metálica sem o necessário desbaste, ocasionando bordas cortantes, além de estofamentos de baixa qualidade e conforto.

Quando os móveis são de madeira há exemplares de cadeiras pesadas demais, para um reles mortal, ou leve demais para se confiar em sentar nelas. Mesas de diversas alturas, com travessas que não permitem ao usuário sequer cruzar as pernas.  Quanto aos armários fazem o maior efeito enquanto vazios. Ao serem carregados temos logo o efeito das prateleiras vergando e das portas empenadas e sem fechar se faz sentir, fruto do mau dimensionamento das placas utilizadas e de sua resistência. No caso dos estofados as dimensões são tão estapafúrdias que dificilmente caberão numa sala de Minha Casa Minha Vida! 

Basta fazer uma turnê por uma rua de lojas de mobiliário popular, em qualquer cidade brasileira para se constatar estes fatos. A pergunta que fazemos é será que o consumidor popular tem que pagar este preço e ter um produto que já sai da loja com prazo de validade? Não há a possibilidade dos órgãos de normalização ou de defesa do consumidor fiscalizar estes produtos e dar-lhes uma classificação, que sirva para o consumidor saber o que está comprando? Como é realidade em outros países?

O suado dinheiro do consumidor popular deve ser protegido deste tsunami de baixa qualidade que lhe é oferecido. O nosso consumidor popular, merece ter um retorno de qualidade e o design tem um papel fundamental na geração de produtos que durem alguns anos a mais, além da duração das suadas prestações que ele paga.

A indústria e o comércio de mobiliário popular tem que tomar consciência urgente disso, para sobreviver e atingir patamares de maior valor agregado, fornecendo produtos melhores a população brasileira.

Texto não publicado

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Retomando o Blog


Aos seguidores deste Blog devo desculpas pela sua interrupção, por um longo tempo. Estamos retomando as publicações com os temas que nos propusemos no seu inicio e em especial ressaltando os últimos desenvolvimentos de nossa área, de forma critica, provocando alguma discussão, sempre que possível.

O texto a seguir relata muito bem o que tem acontecido em nossa indústria, por um de seus protagonistas. O designer Newton Gama esteve a frente do setor de Design da Whirlpool, por longos anos e foi junto com sua equipe, responsável pelo sucesso dos produtos deste conglomerado. Este texto demonstra bem que o desmonte da capacidade criativa em nosso país tem diversos atores. As multinacionais, que sempre se utilizaram em larga escala do design brasileiro, e com sucesso, estão nos tempos atuais colaborando de forma negativa neste processo. O texto de 2016 é muito atual, merecendo a republicação que estamos fazendo.






O triste fim do Design

Recebi a triste notícia de que a Whirlpool, que é detentora das tradicionais marcas brasileiras Consul e Brastemp, decidiu fechar a área de Design no Brasil. Alguns designers ainda permanecem na empresa, mas ligados a gerentes de outras regiões do mundo que não conhecem nossa cultura.

Encerra-se neste momento um ciclo virtuoso do Design brasileiro, iniciado na década de 60, quando a Consul contratou o designer, formado pela Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ESDI), Freddy Van Camp. Esta foi a primeira semente plantada na indústria brasileira de eletrodomésticos. Durante quase 50 anos as áreas de Design, através de estudos e pesquisas, mapearam as reais necessidades e anseios da consumidora brasileira, desenvolvendo produtos que consideravam aspectos sociais e culturais, de uso e de costumes, de preferências estéticas e de identidade. Até então todos os produtos oferecidos no mercado brasileiro eram projetados observando hábitos de uso e costumes norte-americanos ou europeus, que tem identidades e peculiaridades diversas da brasileira.

Ao longo dos anos 70, 80 e 90, a partir da iniciativa da Consul e Brastemp, todas as demais marcas, de diferentes segmentos, passaram a se preocupar em entender profundamente o nosso consumidor, o que além contribuir para o desenvolvimento de linhas de produtos de alto valor agregado, muito adequadas e sintonizadas ao mercado brasileiro, colocou o Design como fator estratégico para a vantagem competitiva das marcas. Isto porque o Design traduz em linhas e formas os desejos mais sutis do consumidor.

Nos anos 90 o Design da Consul e Brastemp passou a ser exportador de design na medida em que a empresa multinacional que adquiriu estas tradicionais marcas reconheceu a competência e expertise da área. A Whirlpool então passou a utilizar a equipe de design do Brasil para executar projetos para a Europa, China, Índia, México e até para os USA, sede da empresa. Como parte de um processo integrado, as equipes de tecnologia também tiveram o mesmo reconhecimento.

Foi evidente e flagrante o avanço que o Design Brasileiro obteve em todos os setores, nas décadas de 1990 e 2000. Empresas competidoras passaram a contratar estúdios ou criar grandes áreas de Design para o desenvolvimento dos produtos e, conseqüentemente, do próprio Design brasileiro. Dezenas ou mesmo centenas de designers participaram deste processo, em todo o Brasil.

O Design brasileiro ganhou o mundo. Em todos os segmentos da indústria passou a ser adotado e respeitado pela sua forma de pensamento e devido à sua facilidade de relacionamento com as áreas pares de Marketing e de Engenharia. Esta é uma característica que nos diferencia e que não é efetiva em outras culturas do design, como na Europa e nos Estados Unidos. Durante as recessões e nos períodos de inflação altíssima, o Design serviu como estratégia de apoio em conjunto com o Marketing e Engenharia para recuperação de mercado.

Portanto não se justificaria o corte do design em função de contenção de despesas ou quedas nas vendas, quando na realidade o design sempre foi um elemento chave para recuperação do mercado. Durante o período do fracassado plano Collor, quando as fronteiras e o mercado brasileiro foram abertos e produtos do mundo inteiro desembarcaram no Brasil, várias empresas fecharam suas áreas de design. A Bosch foi um exemplo, com a idéia de que a globalização havia finalmente se estabelecida. Produtos asiáticos inundaram nossas lojas, mas foi impressionante a reação dos consumidores em rejeitá-los, considerando-os estranhos, exóticos, inadequados e ineficientes a nossa cultura de uso. Várias empresas, inclusive a Bosch, foram obrigadas a reestruturar as áreas de design porque o consumidor não quis comprar produtos com a identidade germânica. E muito menos a total falta de personalidade e identidade, para os padrões brasileiros, dos produtos asiáticos.

Hoje vemos um cenário onde os novos executivos “hight potencial” limitam-se a replicar produtos, preocupando-se apenas em executar as ordens da matriz, não defendendo com determinação, responsabilidade e conhecimento as tradições, costumes e valores do consumidor brasileiro. E aos poucos vão destruindo uma história de sucesso, reconhecida e admirada pelos brasileiros. As marcas Consul e Brastemp construíram com competência, durante décadas, uma relação de confiança com o seu consumidor, graças ao respeito que profissionais de alto valor dedicaram a

Não apenas as áreas de design estão sendo desativadas. Áreas de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento estão sendo eliminadas. Centenas de profissionais de alto nível, que na impossibilidade de colocar toda sua originalidade, criatividade e ousadia em benefício do País, buscam hoje colocações além mar. Sorte de países, como a China, entre outros, que terão estes talentos ao seu dispor.

E o consumidor brasileiro vai ter novamente à sua disposição produtos que foram desenvolvidos para outros mercados, recebendo apenas uma “maquiagem” para ficar com cara de um produto brasileiro.

Fica um “gap” e oportunidade para as pequenas e médias empresas brasileiras que a partir daí poderão crescer utilizando exatamente a mesma estratégia que Consul e Brastemp utilizaram no passado. Estudar, conhecer e aplicar nos produtos a perfeita identidade do consumidor e ganhar o market-share dessas grandes empresas míopes.

Outro grande problema é que as pequenas e médias empresas Brasileiras ficam embaçando e relutam muito em assumir o DESIGN, como ferramenta estratégica. Preferem copiar, deixar um designer ofuscado no meio de engenharia "quebrando um galho" e relutam em fazer este investimento, que é mínimo perto de todas as perdas que tem com os outros erros que cometem e pela falta de investimento no DESIGN.

Essa MIOPIA existe na indústria Brasileira, e mesmo com muitos exemplos já comprovados, os administradores e engenheiros acham que podem sempre, ir "quebrando o galho". E perdem a grande oportunidade se tornarem líderes de seus segmentos. E Isso vale para tudo que pode ser feito com o auxilio do DESIGN.

AS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS BRASILEIRAS, TAMBÉM SÃO MUITO MÍOPES, INFELIZMENTE A CAPACIDADE E O POTENCIAL DOS DESIGNERS BRASILEIROS VÃO MUITO ALÉM DO QUE ESSES EMPRESÁRIOS PODEM IMAGINAR. QUEM ESTÁ EM CRISE, PRECISA DE DESIGN PARA SAIR DELA.

DIFÍCIL CONVENCER AS EMPRESAS COM POUCO ARROJO E INICIATIVA.

Newton Gama – Designer brasileiro

Texto publicado no Facebook em 12/03/2016


Um comentário adicional:
Desde a publicação acima o panorama da indústria brasileira de eletrodomésticos foi muito alterada, não só pela recessão econômica, mas pela alteração dos “players” que dominavam este setor, na sua maioria marcas globalizadas que adquiriram facilidades fabris de empresas nacionais. Nestes últimos anos diversas marcas deixaram o mercado, criando assim impasses para o nosso consumidor e usuário. A falência do grupo MABE, por volta de 2016 retirou do mercado as marcas DAKO, GE, Continental, e Bosch, deixando milhares de consumidores sem nenhum recurso de assistência técnica, milhares de trabalhadores sem emprego e um acervo tecnológico e de design perdido. Outras marcas surgiram, produtos importados foram ocupando os nichos de mercado e o panorama geral permaneceu instável até o momento. Recentemente foram leiloadas, pela massa falida da Mabe, as marcas Dako e Continental, que foram adquirias pela Electrolux, mas ainda sem previsão de serem relançadas no mercado.

Freddy Van Camp

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Design interno ou externo?


Uma pergunta que é feita com frequência é se devemos ter o design dentro da empresa ou se podemos ter apenas o design contratado, quando necessário. É claro que cada caso é um caso, mas tendo em vista as experiências que observamos em empresas de diversos portes podemos elaborar algumas considerações úteis que tentem formular uma resposta essa pergunta, especialmente nesta época de terceirização desbragada..

Há empresas que se utilizam intensamente de design e há aquelas que se utilizam do design de forma intermitente. Há empresas que mesmo que se utilizem do design de forma intermitente necessitam de um acompanhamento de sua aplicação no dia a dia. Há empresas que, por razão de custos, necessitam racionalizar a aplicação do design em suas operações, como as micro empresas, por exemplo. Na medida em que o design é um fator de qualidade que a empresa oferece em sua operação, ele necessita ser acompanhado da mesma forma que qualquer outra característica de seu funcionamento. Isso somente será possível, com o design como facilidade ‘in house”. Isto é: um profissional, ou uma equipe, que pertença ao "staff" de empresa de forma permanente, o que pode ou não ser possível dependendo de seu porte.

Empresas de uso intensivo de design optam, por razões funcionais e econômicas, em ter um “satff” interno, na forma de um departamento que desenvolva todas as suas necessidades referentes ao design. A eficiência de ter esta equipe à mão, sempre que precisar, é notória e obvia. Mas é patente que isso somente é factível se ela tiver algum porte. Empresas de grande porte, como no caso das montadoras automobilísticas ou nas multinacionais de eletrodomésticos, por exemplo, possuem grandes departamentos de design com dezenas de profissionais e boas facilidades de uso, como estúdios bem equipados e oficinas de suporte. As automobilísticas tem até Vice Presidências para o setor.

Isso nem sempre é possível em empresas médias ou pequenas. A estas resta contratar um profissional autônomo ou um escritório de design para atender as suas necessidades de projeto. Podem existir situações onde profissionais ou escritórios sejam também contratados por empresas que possuem design interno, mas para atender a demandas especificas ou pontuais, que não possam ser atendidas por seu pessoal interno, por não possuírem uma especialidade especifica ou mesmo em momentos de grande solicitação.

Um exemplo histórico nos foi dado por Aloísio Magalhães, um dos pioneiros do design brasileiro. Criador de imagens empresariais emblemáticas e famosas como da Souza Cruz, de Furnas, do Banco Nacional ou do Jornal do Brasil, em seu escritório. Ao implementá-las conseguia que um ex-funcionário seu fosse contratado pela empresa em questão. Isso fez surgir, em cada empresa, um pequeno departamento que zelava pela correta preservação e manutenção da imagem criada, quanto ao projeto original bem como resolvia problemas “had oc” que pudessem aparecer durante a implantação ou em situações subseqüentes. Na sua maioria estes departamentos cresceram e se tornaram permanentes e atuaram de forma muito eficiente ao longo dos anos.

Infelizmente estes bons exemplos nem sempre são seguidos. Como exemplo, tomemos o Metro do Rio de Janeiro. A empresa possuía uma imagem empresarial da época de sua inauguração, que foi atualizada quando de sua privatização. Desde então a empresa contratou designers de notório saber para reestudar essa imagem como os escritórios Design Redig, Ana Couto Design e mais recentemente Crama Design. Esta última implantou recentemente uma novíssima sinalização nas principais estações de suas linhas.

No que pese a qualidade dos projetos implementados, o que se observou até aqui é a falta de um staff interno de design na empresa, que não zelou pela integridade da implantação destes projetos, alguns deles abandonados precocemente. As estações, os guichês e carros dos trens ostentam inúmeros itens de projetos anteriores, que são visivelmente incompatíveis com o projeto atual. Há placas da primeiríssima versão da imagem do Metro, convivendo com itens de sinalização de todos os projetos subseqüentes causando um verdadeiro caos visual que muitas vezes confunde os usuários deste meio de transporte, tão essencial à uma metrópole como Rio de Janeiro.

Observamos incoerência cromática em várias situações, uma falta de iluminação adequada sobre a sinalização, há divergências nas alturas de aplicação de determinados sinais, há estações que não podem ser identificadas pelos usuários de dentro dos trens, há situações de luz diurna e outras de luz artificial nem sempre constante, enfim uma situação muito complexa de design. Esta situação dificilmente será resgatada pelo projeto novo, devido justamente a falta do design interno na empresa, que não só zele pelo projeto da vez mas que, antes de mais nada, levante as situações diversas do problema, testando soluções ou adaptando-as caso a caso.

Por melhor que seja o projeto deste porte não há como um designer externo implementá-lo corretamente sem suporte interno efetivo, permanente e incondicional. Daí a falta que faz um departamento, ou uma equipe interna para suprir esta função.

Algumas considerações sobre tipos de aplicação e de empresa.
Empresas com grande uso de design, multinacionais ou proprietários de marcas famosas freqüentemente tem suas próprias equipes de design. O pensamento por traz disso varia: algumas empresas mantém, ou mantiveram, equipes por muitos anos. Hoje em dia abandonam este conceito e agora utilizam serviços terceirizados. Não há duvida, porém que a vantagem de se ter uma equipe “in house” se deve a sua familiaridade com o produto e na expertise adquirida.
Muitas dessa equipes estão envolvidas principalmente com problemas de desenvolvimento técnico e engenharia, mas ainda são adeptas do design. Seus conceitos de design serão certamente discutidos com os departamentos de produção e com fornecedores, promovendo-se a partir daí soluções de design perfeitamente factíveis.

Designers gráficos e de produto podem ser parte da equipe “in house”, dependendo das atividades da empresa. Como recurso interno da empresa seu tempo deve ser plenamente utilizado. Talvez por isto, raramente tenham o tempo para fazer pesquisas ou se envolver na avaliação de mercados. Isso pode ser uma generalização injusta, mas parece que há freqüentemente um talento domestico não descoberto por pressões das tarefas do dia a dia.

Os designers fora da empresa têm a vantagem de uma visão fresca além do entusiasmo por um novo desafio. Trabalhar dentro freqüentemente parece produzir soluções mais seguras do que conceitos de maior desafio. Onde isso ocorre há um problema gerencial. Se equipes de design “in house” receberem o mesmo estimulo e recursos que as consultorias externas, elas certamente contribuirão de forma mais efetiva para as empresas que as empregam.

O uso de um designer consultor pode ser um reforço ao departamento interno da empresa. Há uma complementaridade entre os dois. Como o designer interno fica muito atarefado com as atividades do dia-a-dia, um consultor externo pode servir de provocador de novos projetos, um reforço para o “in house” especializado, valorizando-o inclusive.

Nas microempresas não há a possibilidade de se empregar um designer interno de forma permanente. Elas são sempre candidatas ao uso de consultores ou designers externos ou a comprar os serviços de design no momento de sua necessidade. É mais econômico e eficiente, pois ele pode ser utilizado somente quando necessário, economizando-se um custo permanente. O uso de um designer consultor pode ser útil nesta necessidade localizada, na procura temporária de outras especialidades ou ainda como um reforço em tempos de muitos projetos.
E então? Design interno ou externo?  Depende, de cada empresa ou caso!

Os dois sempre estarão presentes, quando conveniente!


Texto não publicado. Junho 2015

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Um brinde a Sergio Rodrigues!


"Ainda não criei nada hoje" foi a resposta que Sergio Rodrigues deu a uma jornalista que insistia em saber dele "quais eram as tendências atuais em Design de mobiliário". Essa resposta irônica era rara por parte de uma pessoa tão afável e receptiva a qualquer solicitação. Na ocasião ele me argumentou que estava farto desta mania de "tendências", como se fossemos sempre seguidores de alguma coisa. Sergio exercitava o poder da criação e da invenção, sem restrições, sempre!

Conhecia a obra de Sergio mesmo antes de minha formação. Via seus produtos serem publicados e conhecia sua loja na Rua Jangadeiros, onde a OCA promovia lançamentos e exposições. Anos após minha graduação fui convidado pelos novos proprietários da OCA a trabalhar na empresa e criar novos produtos, já que Sergio não cooperava mais com eles. A responsabilidade era grande e um pouco assustadora. Ainda assim mergulhei em conhecer e analisar toda a produção deles e estabeleci um linha politica que tentei seguir para que a OCA não perdesse sua identidade. Revalorizamos os produtos do Sergio batizando-os de OCA Clássica, convenci os executivos da empresa a recontratar o Sergio, para criação de novos produtos. Depois de um período de certa desconfiança, onde um "menino", como ele me sempre chamava, estaria mexendo na "sua" OCA, finalmente o conheci pessoalmente e acabamos ficando amigos. O design nos uniu e colaboramos de forma integral em diversos produtos para a empresa.

Tive que ajustar alguns detalhes na sua famosa Kilin, para torna-la um produto de exportação, que incluiu o sucesso de exporta-la para a IKEA na Suécia. Fui apresentar as minha sugestões ao Sergio , morrendo de medo de sua reação. Depois de muito olhar aprovou todas elas, elogiando inclusive a embalagem e instrução de montagem que tinha desenvolvido. Ele me fez uma especial  referencia no seu livro, o que se tornou uma verdadeira honra para mim.

Em outra ocasião tivemos a oportunidade de compartilhar nossa convivência durante um curso para empresários moveleiros em São Bento do Sul, eu e Sergio, junto com Michel Arnoult e José Chaves. Foram alguns dias de intensa tentativa de fazer descer o Design pela goela a baixo desse pessoal. Saímos todos de lá frustrados, e achando que não havia esperança para o setor, em nosso pais.  Porém nos divertimos muito com as histórias inventadas de Sergio que tinha enormes afinidades com Michel, onde ambos se provocavam mutuamente, sempre com o melhor humor possível. Nesta ocasião descobrimos um outro ponto de identificação: saborear sorvete de creme com café expresso por cima, para espanto dos garçons dos restaurantes catarinenses.

A criatividade de Sergio e sua bondade sempre se fizeram presentes em todas suas iniciativas. A mania de dar nomes a seus produtos, me surpreendeu quando a pouco tempo identifiquei um sofá com meu nome, em seu livro, desenhado muito antes de nos conhecermos, fato do qual não tinha conhecimento. Sergio é sempre surpreendente!

Sentiremos falta de sua presença simpática em todos os eventos sobre Design que ele prestigiava, mesmo que insistisse que ele não era designer. Sua obra estará sempre presente em nosso futuro, por meio de sua produção, de seu Instituto, de suas publicações. Mas vai ser difícil não tê-lo, ao alcance de um convite, de um celular, de uma visita em seu estúdio, para um momento de convívio, onde sempre tinha um sorriso, presença agradável e carinhosa. 

Foi um verdadeiro privilégio conhecer e conviver com Sergio Rodrigues, especialmente neste dia em que faria faz 87 anos! 
O Brasil deve muito a ele!

Um brinde a isso!

Texto publicado no Informativo "Sinal 494"

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Uma pequena história de uma Guerra de 50 anos


Finalmente foi travada a batalha final e a ESDI venceu!  Conseguimos, em definitivo a posse de nosso terreno ao final de 2013. Para quem não sabe foi uma batalha derradeira de uma guerra de 50 anos, isto é desde que a ESDI,  a Escola Superior de Desenho Industrial existe!

Ao ser criada, a ESDI passou a ocupar, de forma provisória, um conjunto de terrenos onde está até hoje. Os terrenos em questão eram próprios da antiga Prefeitura do Distrito Federal repassados ao Estado da Guanabara como resultado da Lei Santiago Dantas de 18/04/1960.
Predio da ESDI -1963
A ESDI, fundada em 1962, se instalou neste local em 1963 na qualidade de primeira escola de design do Brasil, como uma unidade isolada da então Secretaria de Educação do Estado da Guanabara. Após a fusão a ESDI foi incorporada no ano de 1974 à UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro da qual é uma de suas principais unidades. Apesar da prerrogativa que o estado possuía, por força da lei citada acima, a regularização da situação destes terrenos nunca foi efetivada. 
Mesmo com a insistência de sua diretora da época, Dra. Carmen Portinho a Secretaria de Educação e mais tarde a própria UERJ, pouco fizeram para a regularização da posse destes terrenos. E a primeira batalha ainda estava por vir: os terrenos foram cedidos a uma outra instituição, a Academia Brasileira de Ciências.

O processo de cessão se originou de uma informação equivocada dada ao então Presidente João Figueiredo, ao apagar das luzes de seu mandato, pelo Governador Leonel Brizola. A informação dizia erroneamente que nos terrenos pretendidos por aquela Instituição, situavam-se “duas repartições públicas” e, com base neste equívoco, uma vez que neste espaço situava-se a ESDI com uma área construída de 2.500 m2, o Presidente Figueiredo formalizou em 1984 a cessão sob regime de aforamento, sem que na ESDI e a UERJ, tivessem qualquer conhecimento prévio desta intenção.

O projeto da Academia era construir dois prédios de doze e quatorze andares, o que não foi possível pelo fato dos dois terrenos, remembrados em um só, fazerem divisa com os prédios do Automóvel Clube do Brasil e da Escola de Música da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, ambos com gabarito menor e tombados pelo IPHAN, O projeto posterior apresentado à Prefeitura era de um Shopping Center de cinco andares além de garagens subterrâneas ocupando 100% do terreno.  

Academia Brasileira de Ciências nunca tomou posse do terreno, nem tinha meios de começar a obra e chegou a mover uma ação de despejo sem nenhuma justificativa plausível. A Academia que já possuía sede no Rio e em Brasília solicitou por várias vezes a prorrogação da cessão sob regime de aforamento, a última em 1999. Neste período, de 1984 a 1999, travamos várias batalhas para defender nossa localização, com movimentação de alunos, professores, membros da reitoria, personalidades da política e da sociedade civil.

Cartunistas famosos, senadores da república, candidatos a governador e a prefeito, bem como vereadores atuantes nos prestavam solidariedade e apoio. Os ministros e governadores da época receberam uma enxurrada de cartas e telegramas, das mais diversas personalidades, do Brasil e do exterior, protestando e conclamando-os a devolver a propriedade do terreno para a ESDI e sem resultado. Neste meio tempo foram tentadas novas localizações para a ESDI, com o suporte de vários de nossos reitores, e por esforço de sucessivos diretores, todas sem sucesso. O terreno foi declarado tombado e de utilidade pública, mas isso também não deu em nada.
A ESDI foi condenada a se manter dentro de seus limites, sem possibilidade de crescimento ou expansão, por mais de 20 longos anos!

O processo começou a se reverter com uma carta enviada pela reitoria ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, ao final de seu mandato e reenviada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, logo que tomou posse, este em seu primeiro mandato. Foram dadas instruções ao então Ministro do Planejamento Guido Mantega que a partir destes argumentos efetuou a rescisão do contrato de cessão. Achamos então que finalmente tínhamos vencido a guerra, pois as instruções do ministro ao Patrimônio da União era que expressamente se fizesse a cessão à UERJ.

Ledo engano, nestes últimos anos, inúmeros adiamentos e prorrogações nos levaram a quase achar que tínhamos na verdade perdido nossa última batalha. A especulação imobiliária estava de olho neste pedaço valioso de chão! As cobranças aos nossos reitores não cessaram por parte da direção da ESDI. As reuniões com o Patrimônio e outras entidades foram se repetindo “ad nauseum” e nada andava. Eis que finalmente uma luz surgiu no túnel com as discussões, dos últimos meses de 2013 e que muitos já conhecem.

Finalmente, recebemos a boa notícia pela qual, muitos de nós, ficamos de cabelos brancos. A ESDI venceu! Esperamos agora que ela possa crescer e se desenvolver como merece a primeira instituição ensino de nível superior de design da America Latina!

E como certamente diria Aloísio Magalhães, um dos seus fundadores, se vivo fosse: 

VIVA! VIVA a ESDI!
Texto não publicado.


quarta-feira, 26 de março de 2014

Por que mais um banquinho?

Recentemente, ao apresentar a um amigo um projeto que tivemos a oportunidade de fazer, uma série de banquinhos /mesinhas de uso residencial, tive que responder a pergunta: Porque mais um banquinho? Não acha que temos banquinhos demais?

A pergunta faz sentido, especialmente em uma época onde temos uma super oferta de produtos em nossa sociedade. Outro amigo e colega, designer e professor de design renomado tem colocado estas questões em discussão. Devemos criar mais produtos?  Deveríamos, ao invés, eliminar produtos de nossa realidade, tão carregada de elementos supérfluos e com isso reduzir o desperdiço que sobrecarrega nosso meio ambiente?

Este projeto nasceu de uma solicitação da entidade patronal local, que visava estimular a indústria de mobiliário a adotar o design como ferramenta competitiva. Uma empresa tradicional, bem equipada, mas com o mercado de atuação voltado para mobiliário especial ou sob medida, foi nos designada para atendimento. Em uma primeira visita constatamos que a empresa possuía algumas características marcantes e que poderiam ser exploradas no projeto que iríamos fazer. Com sua produção voltada para peças sob medida, produz muitos retalhos de matéria prima, que são zelosamente guardados e identificados. Sua linha de equipamentos incluí uma maquina CNC, de ultima geração, um centro de usinagem para chapas, com poucas horas de uso efetivo na produção. Além disso, a empresa possuí um setor de pintura e laqueamento de alto nível de acabamento, também com uso moderado na produção.

A empresa atua especialmente no setor de moveis de estar, com peças próprias e de outros fabricantes que comercializa em suas lojas.  Refletindo sobre este setor contatamos que nestes últimos tempos houve uma verdadeira revolução nos ambientes de estar com o advento das TVs planas e de grandes dimensões, que se popularizaram com a constante queda de preços. Com isso as televisões voltaram para as salas, já que antes freqüentavam os quartos individuais e passaram a reunir mais pessoas para apreciar filmes, DVDs, ou programas esportivos da TV a cabo, por exemplo. Um maior numero de pessoas reunidas exige mobiliário adequado, como assentos adicionais eventuais ou mesmo mesinhas de apoio para drinks, petiscos, pipoca, etc. durante as seções de TV. Sem falar na violência urbana que tem feito as pessoas ficarem mais em casa.

A partir destas considerações é que surgiu o conceito de UNI, DUNI, TÊ. Um conjunto de peças, que utiliza, sempre que possível, retalhos de uma produção, uma maquina sofisticada e flexível que praticamente executa todas as operações de produção e um processo de acabamento de alto valor agregado, que permite inúmeras opções de acabamentos. As peças possuem detalhes de acabamento, de montagem de detalhamento que lhes dão uma personalidade marcante: alturas diferentes, três pés, furos de identificação na superfície, grande flexibilidade de uso. Eles geram a pergunta óbvia: serão mesas ou banquinhos? Ou os dois??? Há uma questão ai colocada, que inclui um certo humor no tratamento e no uso das cores, tornando os únicos e divertidos.

 Claro que há outros banquinhos bons e divertidos no mercado. Mas a empresa precisava de produtos que fossem fáceis de produzir e comercializar e que os convencessem que design valia à pena. Porque então não explorar este nicho, com as facilidades já instaladas, concorrendo para tender a uma necessidade nova e de forte potencial de mercado e que, diga-se de passagem, não era bem atendida pelos produtos existentes.

 Produtos devem ser adequados a sua época, atender as necessidades do usuário e ter características de flexibilidade no uso e na aplicação. Todos têm um prazo de validade, que nos dias atuais se torna cada vez mais curto. Justamente por causa do surgimento de novos produtos e novas necessidades, é que há uma verdadeira “evolução das espécies”, que suplanta produtos existentes que por sua vez deixam de ser produzidos. Essa é a realidade deste nosso tempo.


Enquanto houver necessidades novas, novos banquinhos/mesinhas serão produzidos. mais adequados ao seu tempo. Somente sua difusão e seu uso constante, dirá se são adequados ou não!

UNI, DUNI, TÊ estão ai para isso! 

Exibidos na expo RIO+Design em Milão, Itália por ocasião do Salone del Mobile 2014. 
Fabricados por Elon Móveis de Design - Petrópolis, RJ.


Texto não publicado

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um país sem Projeto???


Fatos recentes divulgados pela imprensa demonstram que caminhamos celeremente para ser um país sem projeto. Casas populares que se desintegram antes dos seus moradores as ocuparem, de forma injustificada; estádios que são interditados por falhas de projeto e de execução; carros de metrô que são encomendados com especificações inadequadas ás estações que devem servir; prédios para desabrigados que desmoronam fruto de chuvas fortes; sistemas de transporte que tem que ser refeitos logo depois de inaugurados; instalações esportivas que são inadequadas a padrões internacionais ou tem seu custo multiplicado durante a construção, além de uma perplexidade diante dos caminhos do planejamento da economia e da vocação da nação.

Somos o país do “jeitinho”, do “improviso”, da “gambiarra”, da informalidade, da criatividade! Depois da fase de desenvolvimento, iniciada com a siderurgia nos anos 50, da indústria automobilística, nos anos 60, do milagre econômico dos anos 70/80, da abertura nos anos 90, da globalização do inicio deste século já era tempo, de termos uma nova visão de como planejar e projetar nosso futuro. Já deveríamos ter modificado nossos hábitos, no sentido de tomarmos na mão nosso desenvolvimento de forma independente. Sempre fomos o país do futuro, como definiu Stefan Zweig nos anos 40, mas parece que este futuro chegou e não nos demos conta ainda. Nestes períodos mais recentes tivemos que acelerar certos passos e tomar atalhos para fazermos frente ao cenário mundial, especialmente nesta crise mundial que atravessamos, onde a tecnologia se tornou a referencia do momento.

Ultimamente temos ouvido a menção quase que constante ao termo inovação. Temos que inovar para podermos nos desenvolver, para sobreviver. Ora o que entendemos por inovação??? Há uma crença de que está aliada a tecnologia, ou a pesquisa ou ao conhecimento. Não é, porém compreendida como ligada a projeto! Temos muito pouca pratica de projeto e por isso não somos inovadores, essa é que é a realidade. 

Como ainda somos um país pobre, com poucos recursos financeiros, este passou a ser a nossa referencia de eficiência, inclusive no slogan oficial do governo. Tudo deve custar barato, tudo deve ser definido pelo preço mínimo. A Lei das Licitações, que rege as compras públicas, por exemplo, é clara neste ponto, preço mínimo acima de tudo. Só que preço mínimo significa custo mínimo, que redunda em economia de recursos para atingir sua meta, que é vencer a concorrência!

Nas compras públicas já se aboliu o projeto completo como exigência para a licitação da obra. Devido aos prazos curtos das concorrências nos utilizamos de anteprojetos para cálculos e licitações, admitindo-se que o projeto executivo seja feito pelo construtor, ou vencedor da concorrência, concomitante com a obra ou o serviço a ser executado. Acreditam que sem projeto se ganha tempo! Resultado: adiamentos, renegociações, revisões de orçamento, suspeições de superfaturamento e em muitos casos paralisações ou mesmo abandono de obras antes de sua conclusão. Os tribunais de contas não tem como comparar as especificações propostas para as obras com sua realização devido a essa promiscuidade sem solução. Podemos então imaginar o que vai acontecer com todas as obras atrasadas para os grandes eventos que se avizinham!

No setor privado se vê é um descompasso com a época em que vivemos. A rapidez necessária para responder às demandas do mercado não tem a eficiência desejada. É comum empresários nacionais serem alijados do mercado por produtos mais avançados ou mais baratos que são lançados pelos concorrentes estrangeiros. O ritmo e ciclo de vida de um produto no mercado hoje em dia é vertiginoso. Nossos industriais, pelo fato de não terem o habito de projetar seu próprio futuro são pegos de calças curtas! Para sobreviver resolvem copiar os lideres de mercado ou mesmo se transformarem em distribuidores de produtos asiáticos, deixando de lado sua produção, por ser mais custosa e sem eficiência ou rentabilidade. Um exemplo: na indústria automobilística, considerada a mais avançada do país e toda ela de capital multinacional, é comum serem produzidos modelos defasados da realidade mundial, já que não há projeto que faça frente vindo dos concorrentes. E a nossa competitividade como fica??? Temos perdido nossa capacidade em diversos ramos e lentamente retornamos a ser dependentes em nosso desenvolvimento.

Nestes novos tempos temos o fator ambiental a ser considerado, além da sustentabilidade.
O fazer mais com menos, com o mais adequado, com o menos danoso, com o mais natural. A nossa sociedade exige a adoção destes princípios, pois ela percebe as conseqüências na própria pele. A nossa elite empresarial, no entanto só o fará se forçada, já que considera que ainda há muito que poluir ou degradar, antes de tomar medidas conservacionistas em seu projeto de desenvolvimento. Se é que essa elite tem projeto de desenvolvimento!?!?

E o design como fica neste contexto? Neste cenário de descaso, tanto por parte das autoridades como de nossa elite industrial quanto ao projeto, aonde vamos empurrando com a barriga nosso desenvolvimento, é cada vez menor a chance de termos bons resultados em curto prazo. Antevemos um cenário cada vez mais defasado e prejudicial ao nosso futuro. Sem um programa de indução, de incentivo, de valorização do design e do projeto pouco poderá ser acrescentado de criativo a essa realidade, de forma mais ampla e eficaz. Não nos adianta ter uma profissão que lida eminentemente com inovação se não houver um terreno fértil para que ela seja aplicada. O valor agregado que o design pode adicionar a nossa economia, por um custo irrisório, deixará de existir em curto espaço de tempo, devido a ignorância sobre significado do projeto de design, bem como sua importância em nossa época.

Caso venhamos a perder a nossa capacidade de projeto, com a perda do “know how”, a sua retomada e restauração será dolorosa, custosa e demorada. Não se prepara mão de obra de projeto em curto espaço de tempo e essa mão de obra se perde sem a prática, bem como sem a experiência. Se perdermos nossa capacidade de projeto sofreremos um revés que poderá se tornar um assunto de verdadeira “Segurança Nacional”, termo comum na época da Ditadura.

Nossa experiência acumulada, que já é pouca, ficará perdida e será nenhuma em breve, se não adotarmos como principio que temos que formular e implantar um projeto para este país onde o design será parte fundamental.

É isso o que projetamos!!!!

Texto não publicado

Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009