Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Sergio Rodrigues, a OCA e Brasília

A relação entre Sergio Rodrigues, a OCA e Brasília foi profícua e longa. Iniciou-se à época da construção da cidade, quando o mobiliário para o Catetinho foi escolhido, passando por inúmeros prédios e interiores, nos quais “exigia-se” a utilização exclusiva de mobiliário de autoria do Sergio, até os anos 90. A equipe de arquitetos da nova capital identificava-se com os projetos e com os produtos de Sergio e não viam uma alternativa na hora de mobiliar os novos ambientes criados. Podemos, inclusive, dizer que os pedidos de Brasília, nos anos 60, incentivaram o processo de crescimento da OCA, empresa emblemática fundada por Sergio. 

É o caso da UnB com Darcy Ribeiro, o reitor à época, como descrito nesse magnífico trabalho de José Airton Costa Junior. A poltrona Dois Candangos, sem dúvida, inspirou a poltrona de auditório PA-1, de grande sucesso posterior. Não podemos esquecer o caso dos Palácios da Alvorada e do Planalto, por exemplo, que até hoje possuem inúmeros exemplares de mobiliário da OCA em uso e em perfeito estado. Na época de sua fundação e nos anos seguintes, a OCA mobiliou muitos Ministérios e Autarquias, virando uma autêntica tradição o uso de seu mobiliário nesses espaços. Sergio era convidado a criar peças próprias e muitas vezes inéditas, para atender a este ou aquele projeto. Foi assim no Itamaraty, onde suas peças mobiliaram os principais gabinetes e salas do Palácio dos Arcos, que então passou a ser a verdadeira sala de visitas e recepções da República. 

Todo o mobiliário dos anos 60 era caracterizado pelo uso de madeiras nobres, como o Jacarandá, e por revestimentos de alto padrão, como o couro natural. Infelizmente, isso contribuiu para esgotar as reservas brasileiras daquela madeira, mas, por outro lado, equipou esses ambientes com peças quase indestrutíveis. A qualidade era representada não só pelo material, mas principalmente pelo design característico da época, com dimensões generosas e com largo uso de madeiras nobres. Nos dias de hoje, essas peças têm sido redescobertas e muitas, ao passar por restauro, foram revalorizadas.

 Mesmo depois do Sergio ter saído da OCA, essa tradição se manteve. Podemos afirmar isso com certeza, pois tive o privilégio de colaborar com a empresa após sua saída. Fui contratado pelos novos donos, em meados dos anos 70, para ser o designer, sucedendo a esse grande mestre. Era um momento em que a empresa não mais mantinha relações com Sergio. Ser o sucessor de Sergio era uma tarefa assustadora já que eu conhecia sua obra pregressa. Felizmente conseguimos contornar as adversidades ao reafirmar a importância de seu legado, ainda que ele não estivesse mais presente na OCA. Após algum tempo, pudemos reestabelecer o contato com Sergio, o que facilitou minha atividade na empresa, mas antes de tudo, criou-se uma amizade, da qual me orgulho em ter estabelecido. 

 Desde as modificações que fiz na KILIN, para exportação, passando pela coordenação na Linha TUPAN, até o projeto do estofado BINGEN, todos tiveram sua aprovação e consultoria. Esse último, por minha insistência, foi um projeto contratado diretamente com ele e que tive o prazer fazer o protótipo. 

Outro momento importante foi a parceria para a concorrência de criação das poltronas do Teatro Nacional. O projeto ganhador foi o do Sergio. Eu fui o responsável pela prototipagem, e a inspeção de montagem foi feita juntamente com ele. Foram anos de colaboração e de crescente amizade. 

O mercado de Brasília era importante para qualquer empresa e a OCA tinha a prerrogativa de já ter fornecido móveis largamente o que fez com que ela continuasse a prover mobiliário para lá, mesmo na época pós-Sergio. Muitos modelos da coleção OCAClássica, como a chamávamos à época, complementavam instalações e necessitaram de adaptações para atender a situações específicas. Era minha tarefa, em paralelo aos meus modelos, fazer e coordenar essas modificações. Lembro de uma cadeira CANTU especial com encosto altíssimo, que produzimos para uma sala de reuniões do Ministério do Planejamento. Mostrei as fotos, com a cadeira modificada, à Sergio e ele me declarou gentilmente que eu tinha feito melhor do que ele. 

Acho que um resultado de nosso bom relacionamento foi ele ter executado produtos, que batizou com os nomes dos novos donos da “sua” Oca e que estão mencionados em seu livro, as poltronas Osmar e Giulite. Mais uma pequena demonstração de que ele conseguia se sentir ainda fazendo parte de seu legado na OCA. Para mim, essas atitudes são uma mostra do grande coração que habitava no peito do nosso maior designer brasileiro. 

O presente estudo, mais uma vez valoriza seu trabalho e sua história, 

Viva Sergio Rodrigues!!! 

O presente texto faz parte do livro "Sergo Rodrigues e o mobiliário modrno de Brasília" de Jose Airton Costa Junior  Brasilia, DF Ed.Tiagore, 2021 - Pesquisa que resultou em publicação e exposição no MAB Museu de Art de Brasília, de 12/2021 a 01/2022. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Manuel Leite Magalhães, sua trajetória e o Design - Uma Homenagem.


Tendo chegado ao Brasil em 1946, vindo de Portugal, Manuel Leite Magalhães logo se estabeleceu no Rio de Janeiro, e se dedicou a atividade de construir móveis, produtos e instalações em madeira. A partir de 1948 se tornou empresário do ramo tendo fundado, ao longo dos anos, as empresas FLAMA, Móveis Açolandia, Estofados ML Magalhães e Móbile Móveis de Escritório, todas, dedicadas a fabricação de móveis residenciais, de escritório e instalações de interiores, sempre de alto gabarito. Todas estas empresas foram iniciativa, de propriedade, ou constituídas com a participação de Magalhães e que se dedicavam a manufatura e a comercialização por meio de lojas próprias. Este processo se consolidou com a constituição em 1956, da ML Magalhães Indústria e Comércio de Móveis S/A que com esta razão social foi sucessora das empresas fundadas em anos anteriores.

 Um Histórico da ML Magalhães Ind. Com. de Móveis S/A

A nova razão social cristalizou um processo de procura por uma identidade própria, de uma nova organização e pela produção em série, com métodos altamente industriais. Foi adotada na mudança para novas instalações em 1965, e coincidiu com uma reorganização e expansão de seu parque fabril.  Mais tarde em 1974, com importação de novos equipamentos e sua especialização em móveis de escritório, a empresa adquiriu sua face mais conhecida, ou seja, a de ser líder no seu segmento no mercado do Rio de Janeiro e uma das dez maiores empresa no pais neste segmento, em sua época.

 Alguns dados sobre a empresa

A empresa teve sede em Olaria com 6.000 m2 de área fabril, e possuía um terreno de 17.000 m2 na Rodovia Washington Luiz ande construiu uma primeira etapa da nova unidade fabril com 2.000 m2, para um projeto total de 12.000 m2. Empregou em média um total de 230 funcionários e técnicos. A fábrica possuía os setores de marcenaria, estofaria, metalurgia, injeção de poliuretano,esta pioneira no Rio de Janeiro, e produziu móveis de escritório e sistemas de móveis, destinados a todos os níveis de hierarquia, assentos de todos os tipos, cadeiras, poltronas e estofados institucionais, além de divisórias piso teto. A comercialização era por meio de Show Room próprio, com equipe de vendas externas no Rio de Janeiro e por meio de representante em São Paulo, Minas Gerais e outros estados.

Magalhães teve sempre uma preocupação social e ambiental reconhecida por todos. No relacionamento com seus funcionários a empresa ofereceu assistência médica, cesta básica, vale transporte e outros benefícios, além de premiações por desempenho. Sua preocupação ambiental lhe rendeu reconhecimento e premiações de organismos internacionais.

Ao longo de sua existência a ML Magalhães foi distinguida como fornecedora de mobiliário institucional, para as maiores empresas brasileiras, sejam nacionais ou multinacionais, além de diversas instituições importantes. Dentre elas podemos citar: Petrobrás, IBM do Brasil, Gillete do Brasil, Banco Nacional, KLM Linhas Aéreas, United Airlines, Rede Globo, GloboSat,  Radio Globo, FIRJAN, FIOCRUZ, UERJ/NUSEG, CEFET/RJ, Papeis Pirahy, Consulado Americano do Rio de Janeiro, TELERJ/TELEMAR, Banco Icatú, Aeroflot Linhas Aéreas, João Fortes Engenharia, BANERJ, Casa da Ciência/ UFRJ, Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ, Revendedoras Autorizadas Volkswagen e Honda, GAFISA, Ministério do Exercito, Ministério da Justiça, Centro Cultural da Paraíba, etc. Em termos de divulgação de seus produtos a ML Magalhães teve ativa participação em feiras e exposições como a Brasil Export, Parceiros para o Progresso, Fenavem, Mostra do Móvel de Escritório, Office Solution, Rio Office, dentre outras.

O Design na ML

O empresário Manuel Leite Magalhães sempre se relacionou com arquitetos, designers, artistas e o meio artístico, sendo inclusive um grande colecionador de arte. Na fabricação de móveis, teve uma preocupação com Design, sempre manifestada em declarações públicas ou em entrevistas à imprensa. Tendo ele próprio, no início, se aventurado nesta área, procurou sempre que possível contratar para a empresa, profissionais com formação e competência adequadas às necessidades do seu desenvolvimento.

Desde 1974 a ML passou a investir sistematicamente em Design e obtendo com isto uma sensível elevação de seu percentual de participação no mercado, além de ter se perfilado entre as empresas de melhor padrão do país.  Fato bastante raro em empresas de capital nacional, na época. Aplicou uma política de valorização estratégica do Design, não só nos seus produtos e imagem, mas como fator efetivo de diferenciação, que incluía a prestação de serviços. No ano de 1996 houve expressivo reconhecimento do investimento dessa política de Design. A ML Magalhães foi contemplada com dois prêmios em um só ano! O primeiro, para a linha GAMA de cadeiras que poltronas recebeu o primeiro lugar em sua categoria no Salão DESIGN Móvelsul 96, Bento Gonçalves - RS, considerada a mais importante feira de mobiliário brasileira. O segundo, quando foi premiada com o Selo RioComDesign, conferido pela Prefeitura do Rio de Janeiro e CentroESDI às empresas que mais investiram em Design na cidade. Recebeu ainda o Prêmio CNI Gestão do Design 1970 de reconhecimento nacional.  Design era parte integrante do sucesso da empresa e se refletia desde a manufatura até a comercialização, dentro de um processo de qualidade total a ser perseguido e mantido, de forma coerente e constante. A ML foi a primeira e única empresa brasileira a ser admitida no ICSID, International Council of Societies of Industrial Design, (hoje WDO) como produtora reconhecida de design de qualidade..

Alguns fatos sobre Manuel Leite Magalhães

Como empresário Manuel Leite Magalhães tinha o melhor conceito, tanto entre os seus concorrentes, clientes ou funcionários. Nos 50 anos de atividade empresarial, não foram poucos os funcionários que iniciaram suas carreiras e se aposentaram exercendo suas atividades na empresa. Houve inúmeras situações de cooperação entre a empresa ML Magalhães e seus concorrentes em situações de força maior ou de dificuldades, o que consolidou o nome de Magalhães entre seus pares.

Além disso, sempre procurou manter contato com outras realidades, tendo participado constantemente de caravanas empresariais e visitas a feiras internacionais, se utilizando disto para atualizar a empresa tecnologicamente e em termos de informação. Manuel Magalhães teve também ativa participação no meio empresarial, onde foi fundador e presidente da AFAM  Associação dos Fabricantes de Mobiliário, órgão de abrangência nacional onde defendeu ideias bem definidas e de representatividade do setor e que deu origem a ABIMÓVEL.

Ao longo dos seus anos de atuação Magalhães participou de projetos importantes como, por exemplo, a fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro além de ter patrocinado diversos eventos culturais e profissionais. Em conjunto com a FIRJAN e a General Motors do Brasil patrocinou a exposição “ESDI 30 - Conseqüências de uma Ideia”, patrocinou diversas peças teatrais e o mobiliário para a Casa da Gávea, promoveu concurso de Design para estudantes do Rio de Janeiro, além de ter doado móveis para programas culturais na TV Educativa. Magalhães se afastou das atividades de sua empresa em 2000, e ela encerrou suas atividades por volta de 2015.

Um empresário de visão, atuação e competência, como Manuel Leite Magalhães fará muita falta ao cenário econômico do Rio de Janeiro!

 Manuel Leite Magalhães faleceu em 21.10.2020. 

Nossas homenagens a ele!

 

 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Retomando o Blog


Aos seguidores deste Blog devo desculpas pela sua interrupção, por um longo tempo. Estamos retomando as publicações com os temas que nos propusemos no seu inicio e em especial ressaltando os últimos desenvolvimentos de nossa área, de forma critica, provocando alguma discussão, sempre que possível.

O texto a seguir relata muito bem o que tem acontecido em nossa indústria, por um de seus protagonistas. O designer Newton Gama esteve a frente do setor de Design da Whirlpool, por longos anos e foi junto com sua equipe, responsável pelo sucesso dos produtos deste conglomerado. Este texto demonstra bem que o desmonte da capacidade criativa em nosso país tem diversos atores. As multinacionais, que sempre se utilizaram em larga escala do design brasileiro, e com sucesso, estão nos tempos atuais colaborando de forma negativa neste processo. O texto de 2016 é muito atual, merecendo a republicação que estamos fazendo.






O triste fim do Design

Recebi a triste notícia de que a Whirlpool, que é detentora das tradicionais marcas brasileiras Consul e Brastemp, decidiu fechar a área de Design no Brasil. Alguns designers ainda permanecem na empresa, mas ligados a gerentes de outras regiões do mundo que não conhecem nossa cultura.

Encerra-se neste momento um ciclo virtuoso do Design brasileiro, iniciado na década de 60, quando a Consul contratou o designer, formado pela Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ESDI), Freddy Van Camp. Esta foi a primeira semente plantada na indústria brasileira de eletrodomésticos. Durante quase 50 anos as áreas de Design, através de estudos e pesquisas, mapearam as reais necessidades e anseios da consumidora brasileira, desenvolvendo produtos que consideravam aspectos sociais e culturais, de uso e de costumes, de preferências estéticas e de identidade. Até então todos os produtos oferecidos no mercado brasileiro eram projetados observando hábitos de uso e costumes norte-americanos ou europeus, que tem identidades e peculiaridades diversas da brasileira.

Ao longo dos anos 70, 80 e 90, a partir da iniciativa da Consul e Brastemp, todas as demais marcas, de diferentes segmentos, passaram a se preocupar em entender profundamente o nosso consumidor, o que além contribuir para o desenvolvimento de linhas de produtos de alto valor agregado, muito adequadas e sintonizadas ao mercado brasileiro, colocou o Design como fator estratégico para a vantagem competitiva das marcas. Isto porque o Design traduz em linhas e formas os desejos mais sutis do consumidor.

Nos anos 90 o Design da Consul e Brastemp passou a ser exportador de design na medida em que a empresa multinacional que adquiriu estas tradicionais marcas reconheceu a competência e expertise da área. A Whirlpool então passou a utilizar a equipe de design do Brasil para executar projetos para a Europa, China, Índia, México e até para os USA, sede da empresa. Como parte de um processo integrado, as equipes de tecnologia também tiveram o mesmo reconhecimento.

Foi evidente e flagrante o avanço que o Design Brasileiro obteve em todos os setores, nas décadas de 1990 e 2000. Empresas competidoras passaram a contratar estúdios ou criar grandes áreas de Design para o desenvolvimento dos produtos e, conseqüentemente, do próprio Design brasileiro. Dezenas ou mesmo centenas de designers participaram deste processo, em todo o Brasil.

O Design brasileiro ganhou o mundo. Em todos os segmentos da indústria passou a ser adotado e respeitado pela sua forma de pensamento e devido à sua facilidade de relacionamento com as áreas pares de Marketing e de Engenharia. Esta é uma característica que nos diferencia e que não é efetiva em outras culturas do design, como na Europa e nos Estados Unidos. Durante as recessões e nos períodos de inflação altíssima, o Design serviu como estratégia de apoio em conjunto com o Marketing e Engenharia para recuperação de mercado.

Portanto não se justificaria o corte do design em função de contenção de despesas ou quedas nas vendas, quando na realidade o design sempre foi um elemento chave para recuperação do mercado. Durante o período do fracassado plano Collor, quando as fronteiras e o mercado brasileiro foram abertos e produtos do mundo inteiro desembarcaram no Brasil, várias empresas fecharam suas áreas de design. A Bosch foi um exemplo, com a idéia de que a globalização havia finalmente se estabelecida. Produtos asiáticos inundaram nossas lojas, mas foi impressionante a reação dos consumidores em rejeitá-los, considerando-os estranhos, exóticos, inadequados e ineficientes a nossa cultura de uso. Várias empresas, inclusive a Bosch, foram obrigadas a reestruturar as áreas de design porque o consumidor não quis comprar produtos com a identidade germânica. E muito menos a total falta de personalidade e identidade, para os padrões brasileiros, dos produtos asiáticos.

Hoje vemos um cenário onde os novos executivos “hight potencial” limitam-se a replicar produtos, preocupando-se apenas em executar as ordens da matriz, não defendendo com determinação, responsabilidade e conhecimento as tradições, costumes e valores do consumidor brasileiro. E aos poucos vão destruindo uma história de sucesso, reconhecida e admirada pelos brasileiros. As marcas Consul e Brastemp construíram com competência, durante décadas, uma relação de confiança com o seu consumidor, graças ao respeito que profissionais de alto valor dedicaram a

Não apenas as áreas de design estão sendo desativadas. Áreas de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento estão sendo eliminadas. Centenas de profissionais de alto nível, que na impossibilidade de colocar toda sua originalidade, criatividade e ousadia em benefício do País, buscam hoje colocações além mar. Sorte de países, como a China, entre outros, que terão estes talentos ao seu dispor.

E o consumidor brasileiro vai ter novamente à sua disposição produtos que foram desenvolvidos para outros mercados, recebendo apenas uma “maquiagem” para ficar com cara de um produto brasileiro.

Fica um “gap” e oportunidade para as pequenas e médias empresas brasileiras que a partir daí poderão crescer utilizando exatamente a mesma estratégia que Consul e Brastemp utilizaram no passado. Estudar, conhecer e aplicar nos produtos a perfeita identidade do consumidor e ganhar o market-share dessas grandes empresas míopes.

Outro grande problema é que as pequenas e médias empresas Brasileiras ficam embaçando e relutam muito em assumir o DESIGN, como ferramenta estratégica. Preferem copiar, deixar um designer ofuscado no meio de engenharia "quebrando um galho" e relutam em fazer este investimento, que é mínimo perto de todas as perdas que tem com os outros erros que cometem e pela falta de investimento no DESIGN.

Essa MIOPIA existe na indústria Brasileira, e mesmo com muitos exemplos já comprovados, os administradores e engenheiros acham que podem sempre, ir "quebrando o galho". E perdem a grande oportunidade se tornarem líderes de seus segmentos. E Isso vale para tudo que pode ser feito com o auxilio do DESIGN.

AS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS BRASILEIRAS, TAMBÉM SÃO MUITO MÍOPES, INFELIZMENTE A CAPACIDADE E O POTENCIAL DOS DESIGNERS BRASILEIROS VÃO MUITO ALÉM DO QUE ESSES EMPRESÁRIOS PODEM IMAGINAR. QUEM ESTÁ EM CRISE, PRECISA DE DESIGN PARA SAIR DELA.

DIFÍCIL CONVENCER AS EMPRESAS COM POUCO ARROJO E INICIATIVA.

Newton Gama – Designer brasileiro

Texto publicado no Facebook em 12/03/2016


Um comentário adicional:
Desde a publicação acima o panorama da indústria brasileira de eletrodomésticos foi muito alterado, não só pela recessão econômica, mas pela alteração dos “players” que dominavam este setor, na sua maioria marcas globalizadas que adquiriram facilidades fabris de empresas nacionais. Nestes últimos anos diversas marcas deixaram o mercado, criando assim impasses para o nosso consumidor e usuário. A falência do grupo MABE, por volta de 2016, retirou do mercado as marcas DAKO, GE, Continental, e Bosch, deixando milhares de consumidores sem nenhum recurso de assistência técnica, milhares de trabalhadores sem emprego e um acervo tecnológico e de design perdido. Outras marcas surgiram, produtos importados foram ocupando os nichos de mercado e o panorama geral permaneceu instável até o momento. Recentemente foram leiloadas, pela massa falida da Mabe, as marcas Dako e Continental, que foram adquirias pela Electrolux, mas ainda sem previsão de serem relançadas no mercado.

Freddy Van Camp

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Um brinde a Sergio Rodrigues!


"Ainda não criei nada hoje" foi a resposta que Sergio Rodrigues deu a uma jornalista que insistia em saber dele "quais eram as tendências atuais em Design de mobiliário". Essa resposta irônica era rara por parte de uma pessoa tão afável e receptiva a qualquer solicitação. Na ocasião ele me argumentou que estava farto desta mania de "tendências", como se fossemos sempre seguidores de alguma coisa. Sergio exercitava o poder da criação e da invenção, sem restrições, sempre!

Conhecia a obra de Sergio mesmo antes de minha formação. Via seus produtos serem publicados e conhecia sua loja na Rua Jangadeiros, onde a OCA promovia lançamentos e exposições. Anos após minha graduação fui convidado pelos novos proprietários da OCA a trabalhar na empresa e criar novos produtos, já que Sergio não cooperava mais com eles. A responsabilidade era grande e um pouco assustadora. Ainda assim mergulhei em conhecer e analisar toda a produção deles e estabeleci um linha politica que tentei seguir para que a OCA não perdesse sua identidade. Revalorizamos os produtos do Sergio batizando-os de OCA Clássica, convenci os executivos da empresa a recontratar o Sergio, para criação de novos produtos. Depois de um período de certa desconfiança, onde um "menino", como ele me sempre chamava, estaria mexendo na "sua" OCA, finalmente o conheci pessoalmente e acabamos ficando amigos. O design nos uniu e colaboramos de forma integral em diversos produtos para a empresa.

Tive que ajustar alguns detalhes na sua famosa Kilin, para torna-la um produto de exportação, que incluiu o sucesso de exporta-la para a IKEA na Suécia. Fui apresentar as minha sugestões ao Sergio , morrendo de medo de sua reação. Depois de muito olhar aprovou todas elas, elogiando inclusive a embalagem e instrução de montagem que tinha desenvolvido. Ele me fez uma especial  referencia no seu livro, o que se tornou uma verdadeira honra para mim.

Em outra ocasião tivemos a oportunidade de compartilhar nossa convivência durante um curso para empresários moveleiros em São Bento do Sul, eu e Sergio, junto com Michel Arnoult e José Chaves. Foram alguns dias de intensa tentativa de fazer descer o Design pela goela a baixo desse pessoal. Saímos todos de lá frustrados, e achando que não havia esperança para o setor, em nosso pais.  Porém nos divertimos muito com as histórias inventadas de Sergio que tinha enormes afinidades com Michel, onde ambos se provocavam mutuamente, sempre com o melhor humor possível. Nesta ocasião descobrimos um outro ponto de identificação: saborear sorvete de creme com café expresso por cima, para espanto dos garçons dos restaurantes catarinenses.

A criatividade de Sergio e sua bondade sempre se fizeram presentes em todas suas iniciativas. A mania de dar nomes a seus produtos, me surpreendeu quando a pouco tempo identifiquei um sofá com meu nome, em seu livro, desenhado muito antes de nos conhecermos, fato do qual não tinha conhecimento. Sergio é sempre surpreendente!

Sentiremos falta de sua presença simpática em todos os eventos sobre Design que ele prestigiava, mesmo que insistisse que ele não era designer. Sua obra estará sempre presente em nosso futuro, por meio de sua produção, de seu Instituto, de suas publicações. Mas vai ser difícil não tê-lo, ao alcance de um convite, de um celular, de uma visita em seu estúdio, para um momento de convívio, onde sempre tinha um sorriso, presença agradável e carinhosa. 

Foi um verdadeiro privilégio conhecer e conviver com Sergio Rodrigues, especialmente neste dia em que faria faz 87 anos! 
O Brasil deve muito a ele!

Um brinde a isso!

Texto publicado no Informativo "Sinal 494"

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Uma pequena história de uma Guerra de 50 anos


Finalmente foi travada a batalha final e a ESDI venceu!  Conseguimos, em definitivo a posse de nosso terreno ao final de 2013. Para quem não sabe foi uma batalha derradeira de uma guerra de 50 anos, isto é desde que a ESDI,  a Escola Superior de Desenho Industrial existe!

Ao ser criada, a ESDI passou a ocupar, de forma provisória, um conjunto de terrenos onde está até hoje. Os terrenos em questão eram próprios da antiga Prefeitura do Distrito Federal repassados ao Estado da Guanabara como resultado da Lei Santiago Dantas de 18/04/1960.
Predio da ESDI -1963
A ESDI, fundada em 1962, se instalou neste local em 1963 na qualidade de primeira escola de design do Brasil, como uma unidade isolada da então Secretaria de Educação do Estado da Guanabara. Após a fusão a ESDI foi incorporada no ano de 1974 à UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro da qual é uma de suas principais unidades. Apesar da prerrogativa que o estado possuía, por força da lei citada acima, a regularização da situação destes terrenos nunca foi efetivada. 
Mesmo com a insistência de sua diretora da época, Dra. Carmen Portinho a Secretaria de Educação e mais tarde a própria UERJ, pouco fizeram para a regularização da posse destes terrenos. E a primeira batalha ainda estava por vir: os terrenos foram cedidos a uma outra instituição, a Academia Brasileira de Ciências.

O processo de cessão se originou de uma informação equivocada dada ao então Presidente João Figueiredo, ao apagar das luzes de seu mandato, pelo Governador Leonel Brizola. A informação dizia erroneamente que nos terrenos pretendidos por aquela Instituição, situavam-se “duas repartições públicas” e, com base neste equívoco, uma vez que neste espaço situava-se a ESDI com uma área construída de 2.500 m2, o Presidente Figueiredo formalizou em 1984 a cessão sob regime de aforamento, sem que na ESDI e a UERJ, tivessem qualquer conhecimento prévio desta intenção.

O projeto da Academia era construir dois prédios de doze e quatorze andares, o que não foi possível pelo fato dos dois terrenos, remembrados em um só, fazerem divisa com os prédios do Automóvel Clube do Brasil e da Escola de Música da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, ambos com gabarito menor e tombados pelo IPHAN, O projeto posterior apresentado à Prefeitura era de um Shopping Center de cinco andares além de garagens subterrâneas ocupando 100% do terreno.  

Academia Brasileira de Ciências nunca tomou posse do terreno, nem tinha meios de começar a obra e chegou a mover uma ação de despejo sem nenhuma justificativa plausível. A Academia que já possuía sede no Rio e em Brasília solicitou por várias vezes a prorrogação da cessão sob regime de aforamento, a última em 1999. Neste período, de 1984 a 1999, travamos várias batalhas para defender nossa localização, com movimentação de alunos, professores, membros da reitoria, personalidades da política e da sociedade civil.

Cartunistas famosos, senadores da república, candidatos a governador e a prefeito, bem como vereadores atuantes nos prestavam solidariedade e apoio. Os ministros e governadores da época receberam uma enxurrada de cartas e telegramas, das mais diversas personalidades, do Brasil e do exterior, protestando e conclamando-os a devolver a propriedade do terreno para a ESDI e sem resultado. Neste meio tempo foram tentadas novas localizações para a ESDI, com o suporte de vários de nossos reitores, e por esforço de sucessivos diretores, todas sem sucesso. O terreno foi declarado tombado e de utilidade pública, mas isso também não deu em nada.
A ESDI foi condenada a se manter dentro de seus limites, sem possibilidade de crescimento ou expansão, por mais de 20 longos anos!

O processo começou a se reverter com uma carta enviada pela reitoria ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, ao final de seu mandato e reenviada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, logo que tomou posse, este em seu primeiro mandato. Foram dadas instruções ao então Ministro do Planejamento Guido Mantega que a partir destes argumentos efetuou a rescisão do contrato de cessão. Achamos então que finalmente tínhamos vencido a guerra, pois as instruções do ministro ao Patrimônio da União era que expressamente se fizesse a cessão à UERJ.

Ledo engano, nestes últimos anos, inúmeros adiamentos e prorrogações nos levaram a quase achar que tínhamos na verdade perdido nossa última batalha. A especulação imobiliária estava de olho neste pedaço valioso de chão! As cobranças aos nossos reitores não cessaram por parte da direção da ESDI. As reuniões com o Patrimônio e outras entidades foram se repetindo “ad nauseum” e nada andava. Eis que finalmente uma luz surgiu no túnel com as discussões, dos últimos meses de 2013 e que muitos já conhecem.

Finalmente, recebemos a boa notícia pela qual, muitos de nós, ficamos de cabelos brancos. A ESDI venceu! Esperamos agora que ela possa crescer e se desenvolver como merece a primeira instituição ensino de nível superior de design da America Latina!

E como certamente diria Aloísio Magalhães, um dos seus fundadores, se vivo fosse: 

VIVA! VIVA a ESDI!
Texto não publicado.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Goebel Weyne na visão de um amigo.

Foto: Noni Geiger 2001

Na cremação do Goebel, seu amigo, o arquiteto Jacó, colocou a mão no meu ombro e comentou inconsolável: “não vai haver outro igual”; constatação parecida à do Rodolfo, ao escrever que, apesar de toda pessoa ser insubstituível, Goebel é mais do que a maioria. E assim é pela combinação de características que conformavam uma personalidade absolutamente singular. Era generoso, desde a gorjeta extra para o garçom, até a disponibilidade para seus interlocutores. Era orgulhoso da amizade com o “Tom” (Jobim), o “Oscar” (Niemeyer), o “Rubem” (Braga) e muitos outros. Era também impulsivo, capaz de reações muitas vezes desproporcionais, mas nunca de todo infundadas. Era valentão. Cansou de xingar a mãe dos motoqueiros mais afoitos (e de peitá-los quando voltavam tirando satisfações). Alguns o achavam parecido com Walther Matthau. Talvez mais do que semelhança física, era o jeito gaiato de Goebel que sustentava essa comparação. Ele exercia a gaiatice com maestria. Se estivesse caminhando e conversando com alguém, e um grupo falastrão viesse logo atrás, era habitual relaxar o passo, deixando o grupo passar; praguejava então alguma coisa, e só depois retomava a conversa. Às vezes fazia isso, apontando para o céu, para “justificar” a parada repentina, fazendo com que os passantes olhassem todos para cima (desconfio que fazia essas coisas mesmo andando sozinho.). Desde quando o conheci, era rabugento e comicamente azarado (ou, o mais provável, fazia do azar algo cômico). Seu humor ia da fina ironia às histórias mais absurdamente escatológicas. Manifestava-se em causos, piadas, bordões (muitos!), caricaturas e apelidos, os mais hilários. Esses últimos, dava aos próximos, e não tão próximos, (muita gente até hoje não deve saber que teve um). 

Se em algumas situações me pareceu autoritário, intransigente, repetitivo, pernóstico, e até ingênuo; no mais das vezes, eu o considerava sábio, condição que hoje teria dificuldade em enxergar em outra pessoa. Não era só pelo conhecimento enciclopédico, pela memória privilegiada ou pela rapidez nas piadas, nas ideias e nas soluções; mas também pela presença de espírito gigantesca, pela capacidade de apreensão fora do comum e por um sagaz entendimento da natureza humana. Além disso, Goebel também era íntegro, reto e direto, como seus trabalhos. Normalmente, essas características se revelam em pessoas diferentes e em situações diferentes. No Goebel, se manifestavam em abundância e com autenticidade desde a primeira conversa mais demorada. 

Para os alunos que o aceitaram, foi um dedicado mestre. Certa vez ouvi (não sei de quem) que aprender com Goebel é como ter aula de guitarra com Jimi Hendrix. Também não sei o contexto exato desta afirmação, mas assim como seria difícil atinar Hendrix lecionando em uma situação formal de sala de aula, assim era com Goebel. Foi autodidata e se orgulhava de, por isso, ter escolhido seus próprios professores. Talvez por esta razão, seu didatismo fosse de natureza diferente da habitual. Não era um transmissor de matérias prontas ou um ‘ajeitador’ de layouts dos alunos, na base do “mais para cá, mais para lá”, como dizia. Com ele, não funcionava pedir comentários sobre um trabalho pronto ou resposta para uma pergunta pontual. Nada era pontual. Não estava interessado na pragmática imediatista e sim nas relações entre as coisas. Assim, o que funcionava, era ouvi-lo sem pressa. E para quem tivesse essa disponibilidade, além da aula de “guitarra”, aprendia sobre filmes, livros, músicas, por meio de uma sempre atordoante quantidade de referências. Aos seus alunos, interessava transmitir não a objetividade da resposta rápida (aprendida mais cedo ou mais tarde), mas aquela objetividade apoiada nas relações, nos paralelismos e nas conexões entre conceitos e coisas, base de qualquer conhecimento em design. Considerava que, no entendimento dessas relações, está a justificativa para um design menos camuflado na grandiloquência de estilos pessoais ou modismos e mais sustentado pelo conceito forte e pela inovação, ainda que sutil. Nesse sentido, suas “aulas” eram uma demonstração de como as coisas, sendo mais simples, seriam mais elegantes. Era-lhe importante atravessar a camada barulhenta das ideias prontas e clichês para revelar as estruturas subjacentes. Nesta escala elementar, na escala das coisas simples, estaria a verdadeira novidade do design. Não se tratava de mero conceito teórico, e sim de um princípio exercido com maestria na sua própria prática, ou melhor, proveniente dela. 

Com todas as contradições que isso acarreta, foi um designer moderno por excelência. Simples, objetivo, metódico, preciso, alemão, suíço, ulmiano, mas brasileiro e cearense. Aqueles que enxergam no design dito racional, uma relação necessária com o clima frio e uma suposta sisudez e introspecção europeias, reivindicando um contraponto “quente” para um design genuinamente brasileiro, o trabalho e a pessoa de Goebel podem confundir. Quem o conheceu sabe que estava longe de qualquer sisudez ou introspecção. Nascido no nordeste, era também grande conhecedor de sua rica cultura; mesmo assim, não baseou seu trabalho nas raízes nordestinas. Escolheu suas referências por convicções projetuais e não pela sua personalidade ou por ideais nacionalistas. Aprovado em Ulm, não conseguiu bolsa para a família e não cursou a escola alemã, mas, ainda assim, tornou-se mais ulmiano que seus egressos. Acreditava que, se houvesse algo como design nacional, não seria por uma derivação direta de simbolismos e trejeitos estereotipados e sim, mais provavelmente, pelo modo particular como alguns grupos interpretam certos princípios universais de projeto, daí sua admiração e identificação com a HfG Ulm. Além disso, para quem vê o design racional como mera replicação de modelos pré-existentes, novamente a produção de Goebel é um contraponto. Todo bom design se revela pela capacidade de invenção, e nisso Goebel foi excepcional. Não lhe interessava a auto-expressão, e sim revelar um aspecto crucial que comunicasse o espírito do problema com que estava lidando (um cartaz, uma revista, uma exposição...). Isso acontecia não só pelo reconhecido rigor no uso dos recursos formais, mas também pela cuidadosa escolha dos signos (como gostava de chamar os elementos com que trabalhava) e pela engenhosidade e simplicidade com que programava os critérios para a sua articulação. Resultando em algo visivelmente derivado de uma programação, mas de grande interesse estético, reservado sobretudo ao observador atento, a quem surpreendia pelas pequenas, mas eloquentes, partículas de invenção. Nisto, nunca foi modesto, “Sou um homem de ideias” repetia com frequência. De fato, ideias e ideais. Comunista, moderno, modernista. Acreditava no design, e na ideia da escola que ajudou a criar. Talvez por isso tenha sido seu crítico ferrenho. Suas convicções de certo o prejudicaram em várias ocasiões, mas não era do seu feitio fazer concessões. Foi sobretudo um homem corajoso. Talvez sua maior grandeza foi ter tido coragem para viver a vida de acordo com suas convicções. 

Apesar de cioso da correção nas informações sobre sua biografia (espumava com as frequentes referencias erradas) não se interessou em preservar seu passado, de modo que muitos dos trabalhos que o colocariam no lugar que lhe corresponde no Design, desapareceram em parte ou no todo. O que seria visto como displicência, na verdade, pode revelar uma profunda identificação com a ideia de projeto como antecipação do futuro (“pro.jeto”), distante assim de qualquer ideia de retorno ao passado. Infelizmente, o futuro lhe surpreendeu. A vitalidade de Goebel aos 79 anos nos fazia crer, que o inevitável destino de todo homem, mais do que “poderia”, “deveria” ter esperado mais um pouco. É duro quando uma personalidade assim, simplesmente, deixa de existir.

Texto de Luiz Arbex, ex-aluno e amigo, publicado no Facedbook em 20/12/2012 e no SINAL 466, por ocasião do falecimento de Goebel Weyne.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

50 anos de Design no Brasil





E
m dezembro de 2012 se comemoram os 50 anos de estabelecimento da primeira Escola Superior de Desenho Industrial da América Latina. No dia 5 daquele mês foi assinado o Decreto de criação da ESDI, hoje é filiada a UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e que viria a funcionar no inicio de 1963. Por volta desta mesma época era criada a sequência de disciplinas de design na FAU/USP, consolidando assim a formação sistemática de profissionais de Design neste país. Um longo percurso, para uma ideia que se mostrou adequada desde sua primeira hora, quando se planejava o desenvolvimento e a autonomia da realidade industrial da nação.

Mais do que contar a historia desta saga queremos apenas comentar e refletir sobre alguns fatos que marcaram esta trajetória e especialmente abordar o papel de alguns dos pioneiros deste processo, que em muitos casos foram pouco lembrados ou pouco estudados em sua atuação.

Há uma relação direta da ESDI com quatro participantes deste processo, que são Karl Heinz Bergmiller, Aloísio Magalhães, Alexandre Wollner e Goebel Weyne. Todos participantes, desde a primeira hora do grupo de trabalho que formatou a ESDI. Dois deles, Aloísio e Wollner tem extensa bibliografia publicada. São estudados e reestudados em diversos contextos, além de possuírem textos de próprio punho publicados, bem como uma extensa produção profissional reconhecida e registrada.

  No caso de Bergmiller e Goebel há em verdade uma escassez tanto de estudos como de publicações que tornem clara a sua participação neste processo, bem como do registro de sua produção profissional. Nunca entendi esta diferença e ainda me surpreendo com a falta de interesse de nossos acadêmicos por esses dois protagonistas desta história. Sem desmerecer a contribuição de Aloísio e Wollner considero que há uma injustiça histórica neste processo de reconhecimento quanto a Bergmiller e Goebel.

Como participante das primeiras turmas da ESDI, posso afirmar que a presença mais assídua dos dois e sua influencia no dia a dia da instituição foi marcante. Os dois sempre tiveram uma vida profissional em paralelo a sua atuação acadêmica, mas não com tanto envolvimento como no caso de Aloísio e Wollner, que comandavam, já na época, escritórios de algum porte, no Rio e em São Paulo. O acompanhamento das atividades didáticas na ESDI era prevalecente em Bergmiller e Goebel, especialmente quando o primeiro se instalou do modo definitivo no Rio de Janeiro em 1966, vindo de São Paulo. Pouco depois com a criação do IDI/MAM em 1968, um braço de pesquisa da ESDI por assim dizer, houve total integração da atividade didática com a profissional, o que se refletiu no envolvimento cada vez maior dos alunos da ESDI nas atividades deste instituto e em especial com Bergmiller e Goebel, seus fundadores.

Nas Bienais de 68, 70 e 72 a participação da ESDI e de seus alunos foi marcante bem como em outras atividades do IDI, como as exposições temáticas, os projetos do Manual de Embalagens e seus desdobramentos, o projeto do Mobiliário Escolar, somente para mencionar os principais. Estes projetos forneciam uma quantidade de estágios aos egressos da ESDI, coisa rara naqueles tempos especialmente em nossa cidade.

Talvez, pelo fato de não terem produção textual efetiva, a trajetória de Bergmiller e Goebel não tenha merecido estudo mais aprofundado. Sua obra é mais objetiva e pragmática, sob a forma de orientações, produtos, pesquisas, eventos e mensagens gráficas, o que resultou em registros, na publicação e numa repercussão mais fragmentada, mas nem por isso menos importante.

O trabalho de Bergmiller e Goebel urge ser melhor estudado, esmiuçado e registrado como uma parte fundamental da formação do design neste país. Seja em sua participação nos mais de 30 anos da ESDI, seja em sua contribuição para formação de centenas de profissionais que com eles conviveram, dentro ou fora dela, seja nos produtos e mensagens que criaram e que marcaram o design brasileiro de forma tão indelével.

São 50 anos de continua participação na formação do Design neste país, o que não é pouca coisa!!!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

15 Historinhas de Regulamentação do Designer



Os argumentos em favor da Regulamentação da Profissão de Designer são inúmeros e já explicitados em outros textos. Reproduzimos aqui algumas das historinhas reais que conhecemos e que exemplificam algumas das agruras que os profissionais de Design tem sofrido ao exercer a sua opção profissional com qualidade.
Vol.1 - Um designer formado na primeira turma da ESDI se tornou funcionário concursado de uma empresa estatal, estadual de gerenciamento de terminais rodoviários, exercendo a função de programador visual, por toda a sua carreira. Ao se aposentar foi surpreendido por ter sido classificado como “técnico especializado” ao invés de “desenhista industrial”. Explicaram que a carreira por não ser regulamentada não permitia a classificação correta.
Vol.2- Empresa estatal realizou concorrência de compra de cadeiras de escritório. Exigiu do fabricante vencedor, empresa tradicional do Rio, que fornecesse o certificado, a ART, Anotação de Responsabilidade Técnica, assinada pelo responsável. Os produtos, todos desenvolvidos por designer premiado tiveram que ter a ART assinada por engenheiro mecânico de fora da empresa e que não teve nenhuma participação no projeto, apenas se responsabilizando por ele.
Vol.3 - Uma profissional de design gráfico, de um estado do sul do país, especialista em bulas de medicamentos, tem que submeter seus projetos a ANVISA do Ministério da Saúde assinados por outro profissional regulamentado, já que está impedida devido à falta da Regulamentação.

Vol.4  - Um conhecido designer especialista em Ergonomia presta serviços de layout e de arranjos de salas de controle, de grandes siderúrgicas, de refinarias ou de complexos petrolíferos, tornando-se assim um especialista no assunto, no qual trabalha a mais de 30 anos. Nunca pode assinar um projeto tendo se valido de engenheiros ou arquitetos amigos que assinam a ART de seus projetos.

Vol.5 - Profissional nordestino, especializado em design de interiores, tendo sido preterido seguidamente de fazer projetos para entidades públicas, entrou com recurso junto ao STJ e que ganhou direito de se registrar como membro do CREA por meio de mandato judicial. Caso único não se conhecendo jurisprudência a respeito!

Vol.6 - Um designer formado no Rio de Janeiro, em uma das mais tradicionais escolas de design trabalha para empresa de produtos aeronáuticos e não pode assinar os projetos que realiza. Designers estrangeiros, pertencentes a empresas terceirizadas multinacionais fornecedoras dessa empresa assinam seus projetos aeronáuticos, sem nenhuma restrição ou necessidade de registro.

Vol.7 - Em disputa judicial entre empresas por Registro de Desenho Industrial junto ao INPI, solicitou-se impugnação de designer reconhecido, como perito judicial, por falta de registro profissional. A impugnação é baseada no Código do Processo Civil pela exigência de registro profissional ao exercer a função de perito. Foi preciso estabelecer excepcionalidade para designer ser perito do juízo em casos de disputa relativa exatamente a desenho industrial!

Vol.8 - Laboratório de teste de mobiliário, pertencente à reconhecida universidade pública, homologado pelo INMETRO, foi concebido e constituído por designers. Tem que ter os seus laudos assinados por profissional de fora de seus quadros, engenheiros que não contribuíram para o projeto ou os testes, já que os designers estão proibidos de fazê-lo por falta de registro.

Vol.9 - Tradicional empresa estatal do setor elétrico tem a necessidade de contratar designers por meio de concurso público, dentre outros profissionais. Nos editais exige que todos apresentem seu Registro Profissional, o que no caso dos designers não é possível, por falta de Regulamentação. Os designers entram com recurso, suportado por declaração fornecida pela sua instituição de ensino, de que a profissão não regulamentada prescinde de registro.

Vol.10 - Uma grande estatal, apesar de possuir designers no seu corpo profissional, necessita contratar serviços extras de design de profissionais de fora. Este departamento os seleciona por meio de concorrência pública para tarefas especificas. Todas as concorrências têm como objetivo serviços gerais de design e engenharia. Exige-se que haja um engenheiro na equipe de design que assinará os projetos, tenha participado deles ou não.

Vol.11 - Candidata classificada em concurso público para Designer Gráfico foi preterida ao assumir o cargo por ser graduada em universidade federal em Programação Visual, por falta de legislação que esclareça estas designações. Iniciou procedimento de reivindicar a posse por meio judicial, baseada em declarações de docentes da área com notório saber!

Vol.12 - Designer ao registrar sua empresa de Design Gráfico na Receita Federal no interior do país, para obter seu CNPJ, foi aconselhado por funcionário a se caracterizar como agência de publicidade, a fim de facilitar o enquadramento no registro da atividade básica, de acordo com classificação existente na época, por falta de Regulamentação.  

Vol.13 - Entidade representativa de profissão próxima ao design instituiu concurso de design de luminárias e contratou conhecido designer para organizá-lo. Na comissão julgadora não admitiu designers, mas somente profissionais da entidade, alegando regulamentação e proibição no estatuto de convidar outros profissionais de fora da entidade.

Vol.14 - Numa entrevista de emprego, a entrevistadora do RH disse que o profissional não servia para o cargo, porque tinha mestrado em Design e formação em Desenho Industrial, segundo o seu currículo. Ele deveria ter formação em “Design” também para poder concorrer à vaga. "Só o Mestrado não serve".

Vol.15 - Uma prefeitura de uma das capitais do país instituiu licitação pública para projetos de mobiliário e equipamento urbano para bairros da cidade. Na concorrência exigiu a presença de arquitetos e designers nas equipes. Somente os primeiros assinaram os projetos e comandaram as equipes.

Textos publicados na pagina do Facebook “Regulamentem o Designer Já”, em 08/2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

A nova Regulamentação do Designer – Um relato resumido

Com a veiculação recente, da apresentação no Congresso Nacional de um novo projeto de Lei de Regulamentação Profissional do Designer, foram publicadas inúmeras manifestações na internet versando sobre o processo de elaboração deste projeto. Grande parte delas é fruto de desinformação, sobre os fatos, sobre a articulação, a motivação e o processo que levaram a esta elaboração. Com o intuito de esclarecer alguns destes itens e na qualidade de um dos participantes deste último, elaboramos o texto que se segue, com o intuito de esclarecer este processo, uma grande dúvida entre nossos colegas:


Em 2007 por iniciativa de alguns profissionais de design renomados, foi constituído um Comitê com o intuito de propor um novo projeto de lei que regulamentasse a profissão de Designer. O projeto anterior de 2003, que propunha a regulamentação do Desenhista Industrial, tinha sido arquivado pelo Congresso Nacional naquele ano, sem possibilidade de prosseguimento de tramitação. Este Comitê foi constituído de representantes das principais organizações profissionais atuantes no país como a ADG Brasil/SP, ADP/SP, Adegraf/DF, APDesign/RS, APD/PE, AEnd/BR além de representantes da PUC/PR, do IED/SP e da ESDI/UERJ.

Reuniu-se pela primeira vez nos dias 18 e 19 de maio de 2007 em São Paulo na sede da Escola Panamericana de Arte e Design, onde iniciou os trabalhos de elaboração do projeto de lei a ser encaminhado ao Congresso. Partimos de uma revisão de proposta, já realizada, pela ADG Brasil, do projeto do PL nº 03515/89 – apresentado pelo então Dep. Maurílio Ferreira Lima - PMDB/PE. O PL de 1989, regulamentava a profissão de Designer, era por todos considerado o melhor já apresentado ao Congresso, e foi arquivado por ocasião do impeachment do Pres. Collor. O comitê reuniu-se novamente, no mesmo local, em 15 e 16 de junho, e após intensas discussões foi fechada uma proposta definitiva de projeto de lei, que foi apresentado a cada uma das associações e aprovado por unanimidade. Pela primeira vez temos um projeto de consenso de regulamentação de nossa profissão.


Este projeto foi encaminhado ao Dep. Jorge Bittar – PT/RJ que se comprometeu a dar-lhe andamento. Foi feita por ele uma consulta à assessoria parlamentar do Congresso que reiterou a sumula existente, rejeitando a regulamentação de novas profissões, segundo instruções do Ministério do Trabalho. O projeto não teve andamento, pois o Dep. Bittar foi nomeado Secretário de Habitação da Prefeitura do Rio de Janeiro, não o reencaminhando a outro parlamentar. Desde as eleições de 2010, membros deste comitê procuraram outros parlamentares que se dispusessem a reapresentar nosso projeto. Tivemos a concordância do Dep. Alessandro Molon – PT/RJ e do Dep. Jose Luiz de França Penna – PV/SP que foram abordados independentemente, por membros diferentes do nosso Comitê. No dia 18/05/2011 foi apresentado pelo Dep. Penna o PL nº 1391/2011 à Câmara dos Deputados e que nada mais é que o nosso projeto original, mencionado acima. É a primeira vez que temos um projeto em tramitação de consenso da classe, e que se devidamente trabalhado pode ser aprovado, finalmente.


Esta matéria é apenas encaminhada às Comissões de Constituição e Justiça, de Educação e do Trabalho, onde tendo pareceres favoráveis é aprovada e encaminhada a sanção presidencial, passando ainda pelo Ministério do Trabalho, mas sem passar pelo plenário. Temos que acompanhar este andamento e pressionar nossos parlamentares a aprovar o projeto, bem como envidar esforços junto ao executivo afim de que ele não seja vetado, ao final, quando encaminhado a sanção.


Temos um caminho longo e difícil pela frente, já que há uma sumula contrária a novas regulamentações, há interpretações de que regulamentar é inconstitucional, há resistências do executivo a estes processos, mas por outro lado, nestes dois últimos governos diversas profissões conseguiram sua regulamentação com pressões e “Lobby” bem feitos. Estamos elaborando uma estratégia a ser seguida e necessitamos da colaboração e contribuição de todos neste processo.


Nossas associações, por exemplo, precisam ser reforçadas e prestigiadas com a entrada de novos sócios, engrossando-se assim o numero de representados, fator crucial de pressão sobre a nossa classe política. Números sempre falam alto em termos políticos, como todos sabemos! Esperamos que cada designer atuante deste pais possa contribuir para o êxito deste processo!

Nós designers o merecemos!!!


Leiam mais e cadastre-se para seguir a tramitação em:
http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=502823

Leia mais em:
http://www.deputadopenna.com.br/site2011/?p=376

e em:
http://www.designbrasil.org.br/designnapratica/regulamentacao-do-designer-quem-interessa









Texto publicado no “Sinal" No. 402 de 30/05/2011

Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009