Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.
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quarta-feira, 10 de abril de 2024

Para não levantar!!!


Um dos mestres do design no Brasil , ao ser confrontado com um projeto de produto bastante elaborado, mas um pouco confuso, na critita nos disse uma frase lapidar, ao avaliá-lo: “A sua avó tem que entender”.

 Lembrei-me desta frase ao constatar nos Show Rooms e nas publicações especializadas mais recentes, da profusão de lançamentos de estofados contemporâneos em bloco, tanto sofás como poltronas. São modelos constituídos por blocos compactos de formas cubistas ou orgânicas, onde a área de sentar,é um bloco até o chão. Parece ser uma tendência atual de se fazer formas mais simplificadas e compactas, como se fossem pedras monolíticas, com encosto e sem braços, onde o usuário senta a trinta centímetros do chão, ou menos.

 Parafraseando meu mestre eu diria “Sua avó tem que sentar!” O que temos são verdadeiras maquinas de não se levantar. Já tentaram se levantar de um destes? Ainda mais quando não tem braços? Ou se é feito inteiramente de espuma, sem uma estrutura interna? Um verdadeiro suplício, ou um vexame, como presenciei em inúmeros casos.

 O design moderno parece que esqueceu um dos preceitos de sua existência. Dar conforto aos assentos que produz. Muitos acham que os ditames da Ergonomia sobre alturas de conforto e outras dimensões sugeridas na literatura não tem validade. Grande parte dos nossos profissionais não sabe o que significa “percentil”, termo muito freqüente em qualquer texto sobre Ergonomia.

 Como todos sabem, a população brasileira esta envelhecendo de forma rápida. Temos tido sérios problemas de saúde e sofremos com o etarismo de nossa população. Será que quando um idoso for comprar um estofado terá que ouvir “Você não tem mais idade para isso?”

 Muitos acreditam que a espuma, ou outro material de estofamento, quanto maior o volume melhor o conforto.Isso já foi desmentido por todos os especialistas. O designer Michel Arnoult já pontificava que há o “conforto duro” mas ergonomicamente correto. Quem já sentou em um sofá de alvenaria, muito comum nos anos 60, sabe que espuma não salva a dureza ou uma ergonomia ruim.

 Entretanto espuma em estofamento é sinal de conforto. Um dos problemas da espuma é sua origem: se modelada, a partir de blocos, ela deforma rápido, se injetada tem maior durabilidade, mas maior custo. Esse é outro problema: o custo!, os componentes da espuma têm origem no petróleo, que varia com o dólar. Quanto mais espuma, mais caro é o resultado. Reduzir a altura pode significar economia, mas e a funcionalidade, onde fica?

 As lojas de decoração e os “estofados da TV” fazem a cabeça dos usuários. As “formas de sentar, à paulista” ou “ à carioca” podem também ser definidoras. As formas fluidas que tem se popularizado mais como uma expressão do designer, do que um produto para o usuário, tem uma tendência à última. Pior, a maioria não tem braços, nem um recesso obrigatório na parte inferior do assento, junto ao chão, o que torna o levantar menos fácil ainda. Muitas vezes o encosto é muito baixo e tambem não ajuda.

Le Bambole com Mario Bellini - Anos 70 - B&B


No inicio dos anos 70, fomos visitar o designer italiano Mario Belllini em Milão.Tivemos o privilégio de ver o protótipo de seu famoso estofado, criado para a empresa B&B Itália, “Le Bambole”. Um modelo orgânico, todo feito em espuma injetada, sobre uma estrutura metálica invisível, que está a 50 anos no mercado, com grande sucesso. È desses que você é convidado a se jogar, ao sentar. Lembro-me de ele ter mencionado que era um produto para te envolver, mas que tinha incluído braços, estruturados para ajudar ao se levantar, além da altura do assento ser mais alta.Um autêntico estofado contemporâneo mas com todos os bons princípios de design e ergonomia.

Le Bambole com Mario Bellini - 2022 - B&B

Concordo que com os hábitos da sociedade moderna que o “se jogar no sofá”, passou a ser quase uma obrigatoriedade, para aliviar as tensões que vivemos no dia a dia, ao retornar a casa. Mas com os modelos que temos visto, na verdade...É para não se levantar mais!!!

terça-feira, 13 de junho de 2023

Coincidência, inspiração, cópia descarada, falta de pesquisa ou IA???

Nos dias de hoje, há uma proliferação de produção de elementos na nossa cultura material . Há coisas demais, produtos demais, consumo demais, vivemos numa sociedade de afluência exacerbada. Ainda assim criamos novos produtos ou itens alem da nossa necessidade ou por causa dela.

O ”mercado” é o grande incentivador desta tendência. Ele inventou o “Benchmarking” que nada mais é que, a análise do que já se faz para poder fazer de novo e melhor. No caso de produtos novos há a Engenharia Reversa, que é a analise de todo um processo, para se refazer o mesmo, da forma original. São duas ferramentas, para uso no mundo competitivo e estratégico e de alta relevância.

Queremos aqui analisar as cópias no mundo do Design, que continuam a ocorrer, mesmo com toda informação disponível. Produtos de sucesso tendem a estimular a criação de concorrentes. Muitas vezes “forçam” a criar concorrentes. Produtos similares são muitas vezes forçados a existir para garantir a sobrevivência de empresas ou produtores. Os consumidores quase sempre ditam a necessidade de existir concorrentes, para assim evitar domínio e monopólio de mercado. Entretanto nem sempre há sucesso na transferência de competências, na busca do novo ou na formulação de uma nova opção. O “mercado” não gosta de coisas novas, especialmente as não “testadas”, por insegurança. Surgem então as cópias. Especialmente das já aprovadas.

No ramo de mobiliário temos o exemplo da famosa Poltrona Mole do Sergio Rodrigues. Quando lançada, nos anos 50, teve nenhuma repercussão. Bastou ganhar um prêmio no exterior para que proliferassem cópias, ou modelos “inspirados” nela. Sergio contabilizou e documentou 30 copias, algumas feitas por grandes designers brasileiros, seus colegas. O designer italiano Vico Magistretti declarou abertamente que seu Maralunga foi inspirado na poltrona Mole. O sucesso inspira a copia!

Cópia ou inspiração???Sergio e sua Mole.
Um modelo diretamente inspirado.
O Maralunga  de Vico Magistretti   
        
Muitas vezes a copia reduz o investimento e economiza no desenvolvimento pela indústria. É como “seguir o caminho das pedras”, velha expressão que significa pisar no caminho conhecido. Em outros casos a cópia é imposta pela “moda”, pela “tendência” que ditam o sucesso, ou o fracasso, da cultura material de uma época, balizando a criatividade.

Lembro de Alexandre Wollner mencionando a “Nikezação” dos logotipos brasileiros, em uma certa época, onde todos tinham uma curva à moda da Nike. Felizmente esta “tendência” passou.

O que constatamos é que a copia sempre tem vida curta. Como ela é imposta pelas circunstâncias não tem, para o produtor a autenticidade de um original. Daí o pouco comprometimento do copiador com seu produto. Como podemos ver no caso citado da poltrona Mole. Ela sobreviveu, e com louvor, a suas copias antigas.

Em alguns casos temos a transposição de velhas ideias como sendo novas.. Continuando no mobiliário, vemos as versões da cadeira Thonet, no original em madeira vergada, agora produzida em tubo curvado e frequentando muitas copas e cozinhas da atualidade. Um bom projeto revisitado ou revisto em outro material.

Há uma crença de que um sucesso merece ser revisto, o famoso “remake”, tão ao gosto da indústria cinematográfica, com suas continuações eternas de sucessos. Há ainda o fenômeno do “vintage”, onde obras que caíram em domínio público são redescobertas. Um bom exemplo é o do Fusca e do New Beatle, uma tentativa de revalorizar um sucesso anterior.


Mas nos dias de hoje temos um fator que contribui muito para a “uniformidade” das soluções oferecidas ao mercado. Os softwares de modelagem que produzem resultados muito semelhantes, já que os atalhos para projeto são comuns a todos os seus usuários. Isso pode ser constatado nas nossas ruas, com os veículos de última geração. Como exemplo todos os SUVs se parecem, só muda o logotipo, sem o qual deixaríamos de identificar esta ou aquela marca. Essa imagem recentemente divulgada demonstra isso!

Na indústria automobilística os faróis atuais e as formas das carrocerias orgânicas não seriam possíveis sem a colaboração dos modernos softwares de modelagem, que todos utilizam, o que ocorre também  em outros ramos industriais, com resultados muito parecidos. Será que é de proposito???


Ás vezes a indústria provoca a cópia, mesmo sem nenhuma culpa aparente. Numa das ultimas feiras de mobiliário e maquinas, vimos um fabricante de madeira moldada oferecendo peças prontas para a execução da cadeira Costela, do Jorge Zalszupin, recentemente falecido. Qualquer marceneiro ou estofador poderá executar copias deste modelo, muito valorizado pelos modernáriatos, sem dificuldade daqui para diante. Como conhecemos de uma famosa emissora de TV: ”Vale a pena ver de novo”!

Cadeira Costela de Jorge Zalszupin

  Para complicar o cenário temos agora a já polemica IA, a     inteligência artificial, que pode oferecer soluções perfeitas e idênticas a realidade pré-existente. Isso até sem a presença de um designer ou criador, que nominalmente se responsabilize pelo resultado. Ainda mais que temos o recurso do “algorítmo” que determina o que o “mercado” quer, nos escravizando ao senso comum. Podemos esperar por um enxame de produtos e ideias com “inspiração” conhecida e evidente em nosso entorno.

Embalagens parecidas de limpador universal.
Na Alemanha existe, desde 1977 uma ação, que se resume em um concurso anual intitulado PLAGUARIUS, que “”premia” as melhores contra facções encontradas, tanto em produtos como em marcas. Eles tem um museu na cidade de Solingen, com os resultados de cada edição. Há diversos produtos brasileiros exibidos. E chineses também! Pelo jeito eles terão muitos novos candidatos, futuramente. (https://www.plagiarius.com)

 No país temos um sistema de proteção da propriedade intelectual e industrial muito deficiente e falho, que não defende a produção brasileira. Há setores que não registram seus produtos, como mobiliário, por exemplo. Há outros que não tem legislação adequada a sua produção, com as fontes tipográficas e as novas mídias. Há setores que só registram as criações de suas matrizes, como o automobilístico, dificultando o registro de soluções nacionais semelhantes ou melhores. Há casos de aceitação de registro de idéias que já são de domínio publico, prejudicando quem propõe soluções nacionais já aperfeiçoadas.

Na medida em que se privilegia o conceito da “inovação” como única solução para o nosso desenvolvimento, temos que acordar para estabelecer um mecanismo moderno e eficiente de proteção contra a cópia e a pirataria. Afinal a propriedade intelectual é um dos ativos principais de um país.

A economia, a sociedade e a criatividade brasileira merecem isso!        

 

   

terça-feira, 23 de março de 2021

Falando de Design

Entrevista dada a jornalista Cláudia Ferraz em 2017, para uma matéria que resultou em um livro, publicado pela FIRJAN em 2019, que pretende dar um panorama da indústria de mobiliário no Rio de Janeiro. 

Quatro anos depois, verificamos que o “retrato” continua o mesmo, ou com a pandemia piorou muito. Uma pena!   Como você avalia o mercado do design brasileiro hoje? É um mercado que cresce, mas sempre acredito que poderia crescer mais, especialmente porque temos um mercado interno forte. Com a nova classe média, o poder de compra gera novas demandas e faz girar a economia. O Brasil inova muito em produtos. No entanto, o designer brasileiro ainda é pouco utilizado pela nossa indústria. 

Qual é, no contexto dessa indústria, o papel do designer? Ele é o profissional que vai olhar a empresa, fazer o que seja adequado a ela, mas que principalmente vai colocar uma nova possibilidade no mercado. É dessa forma, aos poucos, que o empresário vai entendendo que o design tem que fazer do dia a dia dele. 

E o lugar da indústria carioca nesse panorama? Pois é, a história da indústria no Rio de Janeiro é muito peculiar. É uma indústria que já foi a terceira do Brasil, e hoje está numa posição muito abaixo, em 17 ou 18º lugar. E em design ela já foi pioneira. Na época da Oca, por exemplo, os móveis de classe saíam do Rio de Janeiro. Brasília, quando foi construída, se abasteceu com móveis do Rio de Janeiro. Sergio Rodrigues, alias, ampliou sua empresa devido a essa demanda. E a Oca tinha showroom em São Paulo, em Belo Horizonte e em Brasília. É uma questão de valorização do design em todas as etapas, inclusive na comercialização, e não só vinculado ao desenho propriamente dito. Eu mesmo tive uma experiência muito rica na Oca, trabalhei quatro anos como empregado e mais quatro como consultor. O legal é que eu podia fazer tudo. Fiz mobiliário, embalagens, adesivos de exportação, cartazes de exposição dos artistas. Havia uma receptividade grande ao que se poderia criar. Mas, de forma geral, penso que a indústria do Rio vem perdendo força desde os anos 1960. 

A que você atribui esse declínio? Veja, é uma indústria que nasceu sendo também comercializadora dos seus produtos. Cada empresa tinha suas próprias lojas e vendia só através dessas lojas. Por muito tempo foi assim. Hoje o perfil mudou e a indústria não acompanhou. Porque a indústria evoluiu para a produção em alta escala e o Rio de Janeiro sempre se limitou a produzir para o mercado regional. E permaneceu dessa forma, me parece. 

A questão da mão de obra, considerada difícil atualmente, é um fator que impede o desenvolvimento da indústria? O problema da mão de obra é que se confunde indústria do mobiliário com marcenaria. E ela não é mais. Ela é de alta escala. Você não pode trabalhar apenas com um material, com a madeira e seus subprodutos. Trabalha-se hoje com metalúrgica, plástico, materiais alternativos, estofaria, papelão etc. Então a marcenaria já não é mais tão importante. Apesar de nos últimos anos ela ter retomado sua importância por meio de jovens designers, que estão produzindo com madeira certificada, reflorestada. Depois dos anos 1980, com o declínio do uso das madeiras nobres por questões ambientais, muita coisa mudou no cotidiano das empresas, aliás muitas empresas, as de médio porte principalmente, não acompanharam as mudanças. Por outro lado, algumas empresas estão utilizando também a madeira de reflorestamento. E nesse panorama todo, a formação da mão de obra praticamente não acompanhou a tendência do uso de materiais diferenciados e de tecnologias próprias. Eletrônica, produção digital etc. essas coisas ainda precisam ser exploradas, integradas na formação profissional, o que acaba refletindo na produção e na qualidade do produto. 

Em que medida a Esdi contribui para alterar esse quadro? Como a primeira escola de nível superior na área de desenho industrial no país, a ESDI influenciou todas as outras. Mas foi muito limitada sua influência sobre a indústria do mobiliário. E no Rio poucas empresas utilizaram os profissionais de design, até pelo encolhimento do setor, que eu chamo de uma desindustrialização progressiva. O Rio de Janeiro, entretanto, continua a ser um grande formador de opinião e de designers de nome. Bernardo Senna, Guto Indio da Costa, Sérgio Rodrigues, Zanine e o filho Zanini de Zanine, entre outros. O que ocorre é que a indústria recente ainda não mordeu a isca do design. Eles poderiam se diferenciar. Mas ainda vêem o design como custo e não como investimento. Talvez a crise econômica venha contribuir para alterar esse quadro: o design sendo utilizado para melhorar a produtividade, o uso de recursos, o uso da mão de obra. 

Porque o preço não é mais o diferencial. Com a indústria utilizando os mesmos materiais dos mesmos fornecedores, o que sobra é o design. 

Publicado em “Retrato de um História Social – A indústria moveleira do Rio de Janeiro” (pag.134 a 137) SENAI/FIRJAN 2019 - CDD749-298153

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Manuel Leite Magalhães, sua trajetória e o Design - Uma Homenagem.


Tendo chegado ao Brasil em 1946, vindo de Portugal, Manuel Leite Magalhães logo se estabeleceu no Rio de Janeiro, e se dedicou a atividade de construir móveis, produtos e instalações em madeira. A partir de 1948 se tornou empresário do ramo tendo fundado, ao longo dos anos, as empresas FLAMA, Móveis Açolandia, Estofados ML Magalhães e Móbile Móveis de Escritório, todas, dedicadas a fabricação de móveis residenciais, de escritório e instalações de interiores, sempre de alto gabarito. Todas estas empresas foram iniciativa, de propriedade, ou constituídas com a participação de Magalhães e que se dedicavam a manufatura e a comercialização por meio de lojas próprias. Este processo se consolidou com a constituição em 1956, da ML Magalhães Indústria e Comércio de Móveis S/A que com esta razão social foi sucessora das empresas fundadas em anos anteriores.

 Um Histórico da ML Magalhães Ind. Com. de Móveis S/A

A nova razão social cristalizou um processo de procura por uma identidade própria, de uma nova organização e pela produção em série, com métodos altamente industriais. Foi adotada na mudança para novas instalações em 1965, e coincidiu com uma reorganização e expansão de seu parque fabril.  Mais tarde em 1974, com importação de novos equipamentos e sua especialização em móveis de escritório, a empresa adquiriu sua face mais conhecida, ou seja, a de ser líder no seu segmento no mercado do Rio de Janeiro e uma das dez maiores empresa no pais neste segmento, em sua época.

 Alguns dados sobre a empresa

A empresa teve sede em Olaria com 6.000 m2 de área fabril, e possuía um terreno de 17.000 m2 na Rodovia Washington Luiz ande construiu uma primeira etapa da nova unidade fabril com 2.000 m2, para um projeto total de 12.000 m2. Empregou em média um total de 230 funcionários e técnicos. A fábrica possuía os setores de marcenaria, estofaria, metalurgia, injeção de poliuretano,esta pioneira no Rio de Janeiro, e produziu móveis de escritório e sistemas de móveis, destinados a todos os níveis de hierarquia, assentos de todos os tipos, cadeiras, poltronas e estofados institucionais, além de divisórias piso teto. A comercialização era por meio de Show Room próprio, com equipe de vendas externas no Rio de Janeiro e por meio de representante em São Paulo, Minas Gerais e outros estados.

Magalhães teve sempre uma preocupação social e ambiental reconhecida por todos. No relacionamento com seus funcionários a empresa ofereceu assistência médica, cesta básica, vale transporte e outros benefícios, além de premiações por desempenho. Sua preocupação ambiental lhe rendeu reconhecimento e premiações de organismos internacionais.

Ao longo de sua existência a ML Magalhães foi distinguida como fornecedora de mobiliário institucional, para as maiores empresas brasileiras, sejam nacionais ou multinacionais, além de diversas instituições importantes. Dentre elas podemos citar: Petrobrás, IBM do Brasil, Gillete do Brasil, Banco Nacional, KLM Linhas Aéreas, United Airlines, Rede Globo, GloboSat,  Radio Globo, FIRJAN, FIOCRUZ, UERJ/NUSEG, CEFET/RJ, Papeis Pirahy, Consulado Americano do Rio de Janeiro, TELERJ/TELEMAR, Banco Icatú, Aeroflot Linhas Aéreas, João Fortes Engenharia, BANERJ, Casa da Ciência/ UFRJ, Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ, Revendedoras Autorizadas Volkswagen e Honda, GAFISA, Ministério do Exercito, Ministério da Justiça, Centro Cultural da Paraíba, etc. Em termos de divulgação de seus produtos a ML Magalhães teve ativa participação em feiras e exposições como a Brasil Export, Parceiros para o Progresso, Fenavem, Mostra do Móvel de Escritório, Office Solution, Rio Office, dentre outras.

O Design na ML

O empresário Manuel Leite Magalhães sempre se relacionou com arquitetos, designers, artistas e o meio artístico, sendo inclusive um grande colecionador de arte. Na fabricação de móveis, teve uma preocupação com Design, sempre manifestada em declarações públicas ou em entrevistas à imprensa. Tendo ele próprio, no início, se aventurado nesta área, procurou sempre que possível contratar para a empresa, profissionais com formação e competência adequadas às necessidades do seu desenvolvimento.

Desde 1974 a ML passou a investir sistematicamente em Design e obtendo com isto uma sensível elevação de seu percentual de participação no mercado, além de ter se perfilado entre as empresas de melhor padrão do país.  Fato bastante raro em empresas de capital nacional, na época. Aplicou uma política de valorização estratégica do Design, não só nos seus produtos e imagem, mas como fator efetivo de diferenciação, que incluía a prestação de serviços. No ano de 1996 houve expressivo reconhecimento do investimento dessa política de Design. A ML Magalhães foi contemplada com dois prêmios em um só ano! O primeiro, para a linha GAMA de cadeiras que poltronas recebeu o primeiro lugar em sua categoria no Salão DESIGN Móvelsul 96, Bento Gonçalves - RS, considerada a mais importante feira de mobiliário brasileira. O segundo, quando foi premiada com o Selo RioComDesign, conferido pela Prefeitura do Rio de Janeiro e CentroESDI às empresas que mais investiram em Design na cidade. Recebeu ainda o Prêmio CNI Gestão do Design 1970 de reconhecimento nacional.  Design era parte integrante do sucesso da empresa e se refletia desde a manufatura até a comercialização, dentro de um processo de qualidade total a ser perseguido e mantido, de forma coerente e constante. A ML foi a primeira e única empresa brasileira a ser admitida no ICSID, International Council of Societies of Industrial Design, (hoje WDO) como produtora reconhecida de design de qualidade..

Alguns fatos sobre Manuel Leite Magalhães

Como empresário Manuel Leite Magalhães tinha o melhor conceito, tanto entre os seus concorrentes, clientes ou funcionários. Nos 50 anos de atividade empresarial, não foram poucos os funcionários que iniciaram suas carreiras e se aposentaram exercendo suas atividades na empresa. Houve inúmeras situações de cooperação entre a empresa ML Magalhães e seus concorrentes em situações de força maior ou de dificuldades, o que consolidou o nome de Magalhães entre seus pares.

Além disso, sempre procurou manter contato com outras realidades, tendo participado constantemente de caravanas empresariais e visitas a feiras internacionais, se utilizando disto para atualizar a empresa tecnologicamente e em termos de informação. Manuel Magalhães teve também ativa participação no meio empresarial, onde foi fundador e presidente da AFAM  Associação dos Fabricantes de Mobiliário, órgão de abrangência nacional onde defendeu ideias bem definidas e de representatividade do setor e que deu origem a ABIMÓVEL.

Ao longo dos seus anos de atuação Magalhães participou de projetos importantes como, por exemplo, a fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro além de ter patrocinado diversos eventos culturais e profissionais. Em conjunto com a FIRJAN e a General Motors do Brasil patrocinou a exposição “ESDI 30 - Conseqüências de uma Ideia”, patrocinou diversas peças teatrais e o mobiliário para a Casa da Gávea, promoveu concurso de Design para estudantes do Rio de Janeiro, além de ter doado móveis para programas culturais na TV Educativa. Magalhães se afastou das atividades de sua empresa em 2000, e ela encerrou suas atividades por volta de 2015.

Um empresário de visão, atuação e competência, como Manuel Leite Magalhães fará muita falta ao cenário econômico do Rio de Janeiro!

 Manuel Leite Magalhães faleceu em 21.10.2020. 

Nossas homenagens a ele!

 

 

segunda-feira, 5 de março de 2018

O retrocesso do móvel popular



Mesmo com o progresso nos processos de manufatura, com a divulgação pelas redes sociais, com a existência de bons exemplos mundiais, neste início de século XXI continuamos a regredir em áreas onde isso não seria concebível. O setor de mobiliário popular é um deles. Nos dias de hoje o mobiliário popular, que é oferecido ao consumidor brasileiro é pior do que em meados do século passado, tanto em design como em qualidade. 

Este raciocínio nos ocorreu logo após a notícia do falecimento de Ingvar Kamprad, há poucas semanas, o fundador e presidente da rede de lojas IKEA, espalhadas pelo mundo. A IKEA foi uma das precursoras da difusão do móvel popular  qualidade pelo mundo, iniciado no final dos anos 60, junto com a Habitat, esta de origem britânica, e que hoje faz parte da rede IKEA. Estes dois exemplos mudaram o paradigma do que é um móvel popular, de preço justo, mas com funcionalidade, design e qualidade, para atender a um publico diferenciado, nascido no pós-guerra. A IKEA nasceu em uma pequena cidade do interior da Suécia e se tornou a maior rede de venda de móveis e acessórios para a casa do mundo, com 400 lojas e presença em todos os continentes, menos na América do Sul. Kamprad foi o milionário europeu que frequentou o primeiro lugar do ranking por longos anos. Sua filosofia de vida foi que norteou a fundação da empresa e a feição de seus produtos, que tiveram sucesso quase que instantâneo. Ele percebeu a emergência de uma classe popular de consumidores com necessidade de mobiliário de qualidade, mas com preços populares.

O interessante é que nos anos 70 houve um interesse da IKEA e da Habitat (então ainda independente) em vir para o Brasil, como um inicio de uma possível operação em nosso continente. Estiveram aqui em missão exploratória mas desistiram após alguns estudos. Já operava em algumas cidades brasileiras uma cópia delas, a rede Tok&Stok, com produtos muito semelhantes mas a preços muito mais caros, comparativamente, aos praticados por eles em suas redes. A proibição de importar peças de mobiliário praticada na época foi um dos fatores que os impediram de ir a frente. Isso significaria produzir todo o seu catalogo aqui, e com nossos custos inflacionados, o que impediu a viabilidade do negócio. Isso também impediu que nos tornássemos fornecedores deles, mesmo havendo algumas iniciativas de empresas nacionais, o que detalharemos em outro post. Este é um dos exemplos internacionais a que nos referimos no início. Se estas tentativas tivessem se concretizado, poderíamos ter outro patamar de qualidade de mobiliário e acessório, atendendo ao nosso consumidor popular. Certamente estabeleceria um novo paradigma para o setor.

O que temos hoje é abaixo da critica. Um mobiliário popular construído com péssimo design, acabamento pífio, detalhamento abaixo de qualquer critério, que não suporta o uso diário, nem uma mudança sequer, sem possibilidade de manutenção, com materiais e acabamentos que não suportam um copo molhado, sobre um tampo de mesa. O resultado é que há uma invasão de produtos chineses de baixo custo competindo com o produto nacional, com sérios problemas para a indústria local. Uma indústria que sempre teimou em privilegiar custo sobre qualidade, nivelando assim seu mercado pelo menor nível possível, hoje sofre as consequências. Não criamos uma cultura da qualidade, o que dirá do design.

O design de nosso mobiliário peca por uso de placas de MDF com revestimento de péssima qualidade. Itens desmontáveis, mas com ferragens de baixa resistência e com acabamentos de parafusos aparentes, com capinhas que se desprendem e se perdem facilmente. Excesso de cromados e parafusos aparentes, no mobiliário metálico, com tubos de espessuras inadequadas, facilmente deformáveis ao se arrastar uma mesa. Cadeiras com acabamentos em chapa metálica sem o necessário desbaste, ocasionando bordas cortantes, além de estofamentos de baixa qualidade e conforto.

Quando os móveis são de madeira há exemplares de cadeiras pesadas demais, para um reles mortal, ou leve demais para se confiar em sentar nelas. Mesas de diversas alturas, com travessas que não permitem ao usuário sequer cruzar as pernas.  Quanto aos armários fazem o maior efeito enquanto vazios. Ao serem carregados temos logo o efeito das prateleiras vergando e das portas empenadas e sem fechar se faz sentir, fruto do mau dimensionamento das placas utilizadas e de sua resistência. No caso dos estofados as dimensões são tão estapafúrdias que dificilmente caberão numa sala de Minha Casa Minha Vida! 

Basta fazer uma turnê por uma rua de lojas de mobiliário popular, em qualquer cidade brasileira para se constatar estes fatos. A pergunta que fazemos é será que o consumidor popular tem que pagar este preço e ter um produto que já sai da loja com prazo de validade? Não há a possibilidade dos órgãos de normalização ou de defesa do consumidor fiscalizar estes produtos e dar-lhes uma classificação, que sirva para o consumidor saber o que está comprando? Como é realidade em outros países?

O suado dinheiro do consumidor popular deve ser protegido deste tsunami de baixa qualidade que lhe é oferecido. O nosso consumidor popular, merece ter um retorno de qualidade e o design tem um papel fundamental na geração de produtos que durem alguns anos a mais, além da duração das suadas prestações que ele paga.

A indústria e o comércio de mobiliário popular tem que tomar consciência urgente disso, para sobreviver e atingir patamares de maior valor agregado, fornecendo produtos melhores a população brasileira.

Texto não publicado

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Um brinde a Sergio Rodrigues!


"Ainda não criei nada hoje" foi a resposta que Sergio Rodrigues deu a uma jornalista que insistia em saber dele "quais eram as tendências atuais em Design de mobiliário". Essa resposta irônica era rara por parte de uma pessoa tão afável e receptiva a qualquer solicitação. Na ocasião ele me argumentou que estava farto desta mania de "tendências", como se fossemos sempre seguidores de alguma coisa. Sergio exercitava o poder da criação e da invenção, sem restrições, sempre!

Conhecia a obra de Sergio mesmo antes de minha formação. Via seus produtos serem publicados e conhecia sua loja na Rua Jangadeiros, onde a OCA promovia lançamentos e exposições. Anos após minha graduação fui convidado pelos novos proprietários da OCA a trabalhar na empresa e criar novos produtos, já que Sergio não cooperava mais com eles. A responsabilidade era grande e um pouco assustadora. Ainda assim mergulhei em conhecer e analisar toda a produção deles e estabeleci um linha politica que tentei seguir para que a OCA não perdesse sua identidade. Revalorizamos os produtos do Sergio batizando-os de OCA Clássica, convenci os executivos da empresa a recontratar o Sergio, para criação de novos produtos. Depois de um período de certa desconfiança, onde um "menino", como ele me sempre chamava, estaria mexendo na "sua" OCA, finalmente o conheci pessoalmente e acabamos ficando amigos. O design nos uniu e colaboramos de forma integral em diversos produtos para a empresa.

Tive que ajustar alguns detalhes na sua famosa Kilin, para torna-la um produto de exportação, que incluiu o sucesso de exporta-la para a IKEA na Suécia. Fui apresentar as minha sugestões ao Sergio , morrendo de medo de sua reação. Depois de muito olhar aprovou todas elas, elogiando inclusive a embalagem e instrução de montagem que tinha desenvolvido. Ele me fez uma especial  referencia no seu livro, o que se tornou uma verdadeira honra para mim.

Em outra ocasião tivemos a oportunidade de compartilhar nossa convivência durante um curso para empresários moveleiros em São Bento do Sul, eu e Sergio, junto com Michel Arnoult e José Chaves. Foram alguns dias de intensa tentativa de fazer descer o Design pela goela a baixo desse pessoal. Saímos todos de lá frustrados, e achando que não havia esperança para o setor, em nosso pais.  Porém nos divertimos muito com as histórias inventadas de Sergio que tinha enormes afinidades com Michel, onde ambos se provocavam mutuamente, sempre com o melhor humor possível. Nesta ocasião descobrimos um outro ponto de identificação: saborear sorvete de creme com café expresso por cima, para espanto dos garçons dos restaurantes catarinenses.

A criatividade de Sergio e sua bondade sempre se fizeram presentes em todas suas iniciativas. A mania de dar nomes a seus produtos, me surpreendeu quando a pouco tempo identifiquei um sofá com meu nome, em seu livro, desenhado muito antes de nos conhecermos, fato do qual não tinha conhecimento. Sergio é sempre surpreendente!

Sentiremos falta de sua presença simpática em todos os eventos sobre Design que ele prestigiava, mesmo que insistisse que ele não era designer. Sua obra estará sempre presente em nosso futuro, por meio de sua produção, de seu Instituto, de suas publicações. Mas vai ser difícil não tê-lo, ao alcance de um convite, de um celular, de uma visita em seu estúdio, para um momento de convívio, onde sempre tinha um sorriso, presença agradável e carinhosa. 

Foi um verdadeiro privilégio conhecer e conviver com Sergio Rodrigues, especialmente neste dia em que faria faz 87 anos! 
O Brasil deve muito a ele!

Um brinde a isso!

Texto publicado no Informativo "Sinal 494"

quarta-feira, 26 de março de 2014

Por que mais um banquinho?

Recentemente, ao apresentar a um amigo um projeto que tivemos a oportunidade de fazer, uma série de banquinhos /mesinhas de uso residencial, tive que responder a pergunta: Porque mais um banquinho? Não acha que temos banquinhos demais?

A pergunta faz sentido, especialmente em uma época onde temos uma super oferta de produtos em nossa sociedade. Outro amigo e colega, designer e professor de design renomado tem colocado estas questões em discussão. Devemos criar mais produtos?  Deveríamos, ao invés, eliminar produtos de nossa realidade, tão carregada de elementos supérfluos e com isso reduzir o desperdiço que sobrecarrega nosso meio ambiente?

Este projeto nasceu de uma solicitação da entidade patronal local, que visava estimular a indústria de mobiliário a adotar o design como ferramenta competitiva. Uma empresa tradicional, bem equipada, mas com o mercado de atuação voltado para mobiliário especial ou sob medida, foi nos designada para atendimento. Em uma primeira visita constatamos que a empresa possuía algumas características marcantes e que poderiam ser exploradas no projeto que iríamos fazer. Com sua produção voltada para peças sob medida, produz muitos retalhos de matéria prima, que são zelosamente guardados e identificados. Sua linha de equipamentos incluí uma maquina CNC, de ultima geração, um centro de usinagem para chapas, com poucas horas de uso efetivo na produção. Além disso, a empresa possuí um setor de pintura e laqueamento de alto nível de acabamento, também com uso moderado na produção.

A empresa atua especialmente no setor de moveis de estar, com peças próprias e de outros fabricantes que comercializa em suas lojas.  Refletindo sobre este setor contatamos que nestes últimos tempos houve uma verdadeira revolução nos ambientes de estar com o advento das TVs planas e de grandes dimensões, que se popularizaram com a constante queda de preços. Com isso as televisões voltaram para as salas, já que antes freqüentavam os quartos individuais e passaram a reunir mais pessoas para apreciar filmes, DVDs, ou programas esportivos da TV a cabo, por exemplo. Um maior numero de pessoas reunidas exige mobiliário adequado, como assentos adicionais eventuais ou mesmo mesinhas de apoio para drinks, petiscos, pipoca, etc. durante as seções de TV. Sem falar na violência urbana que tem feito as pessoas ficarem mais em casa.

A partir destas considerações é que surgiu o conceito de UNI, DUNI, TÊ. Um conjunto de peças, que utiliza, sempre que possível, retalhos de uma produção, uma maquina sofisticada e flexível que praticamente executa todas as operações de produção e um processo de acabamento de alto valor agregado, que permite inúmeras opções de acabamentos. As peças possuem detalhes de acabamento, de montagem de detalhamento que lhes dão uma personalidade marcante: alturas diferentes, três pés, furos de identificação na superfície, grande flexibilidade de uso. Eles geram a pergunta óbvia: serão mesas ou banquinhos? Ou os dois??? Há uma questão ai colocada, que inclui um certo humor no tratamento e no uso das cores, tornando os únicos e divertidos.

 Claro que há outros banquinhos bons e divertidos no mercado. Mas a empresa precisava de produtos que fossem fáceis de produzir e comercializar e que os convencessem que design valia à pena. Porque então não explorar este nicho, com as facilidades já instaladas, concorrendo para tender a uma necessidade nova e de forte potencial de mercado e que, diga-se de passagem, não era bem atendida pelos produtos existentes.

 Produtos devem ser adequados a sua época, atender as necessidades do usuário e ter características de flexibilidade no uso e na aplicação. Todos têm um prazo de validade, que nos dias atuais se torna cada vez mais curto. Justamente por causa do surgimento de novos produtos e novas necessidades, é que há uma verdadeira “evolução das espécies”, que suplanta produtos existentes que por sua vez deixam de ser produzidos. Essa é a realidade deste nosso tempo.


Enquanto houver necessidades novas, novos banquinhos/mesinhas serão produzidos. mais adequados ao seu tempo. Somente sua difusão e seu uso constante, dirá se são adequados ou não!

UNI, DUNI, TÊ estão ai para isso! 

Exibidos na expo RIO+Design em Milão, Itália por ocasião do Salone del Mobile 2014. 
Fabricados por Elon Móveis de Design - Petrópolis, RJ.


Texto não publicado

Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009