Com a veiculação recente, da apresentação no Congresso Nacional de um novo projeto de Lei de Regulamentação Profissional do Designer, foram publicadas inúmeras manifestações na internet versando sobre o processo de elaboração deste projeto. Grande parte delas é fruto de desinformação, sobre os fatos, sobre a articulação, a motivação e o processo que levaram a esta elaboração. Com o intuito de esclarecer alguns destes itens e na qualidade de um dos participantes deste último, elaboramos o texto que se segue, com o intuito de esclarecer este processo, uma grande dúvida entre nossos colegas:
Em 2007 por iniciativa de alguns profissionais de design renomados, foi constituído um Comitê com o intuito de propor um novo projeto de lei que regulamentasse a profissão de Designer. O projeto anterior de 2003, que propunha a regulamentação do Desenhista Industrial, tinha sido arquivado pelo Congresso Nacional naquele ano, sem possibilidade de prosseguimento de tramitação. Este Comitê foi constituído de representantes das principais organizações profissionais atuantes no país como a ADG Brasil/SP, ADP/SP, Adegraf/DF, APDesign/RS, APD/PE, AEnd/BR além de representantes da PUC/PR, do IED/SP e da ESDI/UERJ.
Reuniu-se pela primeira vez nos dias 18 e 19 de maio de 2007 em São Paulo na sede da Escola Panamericana de Arte e Design, onde iniciou os trabalhos de elaboração do projeto de lei a ser encaminhado ao Congresso. Partimos de uma revisão de proposta, já realizada, pela ADG Brasil, do projeto do PL nº 03515/89 – apresentado pelo então Dep. Maurílio Ferreira Lima - PMDB/PE. O PL de 1989, regulamentava a profissão de Designer, era por todos considerado o melhor já apresentado ao Congresso, e foi arquivado por ocasião do impeachment do Pres. Collor. O comitê reuniu-se novamente, no mesmo local, em 15 e 16 de junho, e após intensas discussões foi fechada uma proposta definitiva de projeto de lei, que foi apresentado a cada uma das associações e aprovado por unanimidade. Pela primeira vez temos um projeto de consenso de regulamentação de nossa profissão.
Este projeto foi encaminhado ao Dep. Jorge Bittar – PT/RJ que se comprometeu a dar-lhe andamento. Foi feita por ele uma consulta à assessoria parlamentar do Congresso que reiterou a sumula existente, rejeitando a regulamentação de novas profissões, segundo instruções do Ministério do Trabalho. O projeto não teve andamento, pois o Dep. Bittar foi nomeado Secretário de Habitação da Prefeitura do Rio de Janeiro, não o reencaminhando a outro parlamentar. Desde as eleições de 2010, membros deste comitê procuraram outros parlamentares que se dispusessem a reapresentar nosso projeto. Tivemos a concordância do Dep. Alessandro Molon – PT/RJ e do Dep. Jose Luiz de França Penna – PV/SP que foram abordados independentemente, por membros diferentes do nosso Comitê. No dia 18/05/2011 foi apresentado pelo Dep. Penna o PL nº 1391/2011 à Câmara dos Deputados e que nada mais é que o nosso projeto original, mencionado acima. É a primeira vez que temos um projeto em tramitação de consenso da classe, e que se devidamente trabalhado pode ser aprovado, finalmente.
Esta matéria é apenas encaminhada às Comissões de Constituição e Justiça, de Educação e do Trabalho, onde tendo pareceres favoráveis é aprovada e encaminhada a sanção presidencial, passando ainda pelo Ministério do Trabalho, mas sem passar pelo plenário. Temos que acompanhar este andamento e pressionar nossos parlamentares a aprovar o projeto, bem como envidar esforços junto ao executivo afim de que ele não seja vetado, ao final, quando encaminhado a sanção.
Temos um caminho longo e difícil pela frente, já que há uma sumula contrária a novas regulamentações, há interpretações de que regulamentar é inconstitucional, há resistências do executivo a estes processos, mas por outro lado, nestes dois últimos governos diversas profissões conseguiram sua regulamentação com pressões e “Lobby” bem feitos. Estamos elaborando uma estratégia a ser seguida e necessitamos da colaboração e contribuição de todos neste processo.
Nossas associações, por exemplo, precisam ser reforçadas e prestigiadas com a entrada de novos sócios, engrossando-se assim o numero de representados, fator crucial de pressão sobre a nossa classe política. Números sempre falam alto em termos políticos, como todos sabemos! Esperamos que cada designer atuante deste pais possa contribuir para o êxito deste processo!
Nós designers o merecemos!!!
Leiam mais e cadastre-se para seguir a tramitação em:
http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=502823
Leia mais em:
http://www.deputadopenna.com.br/site2011/?p=376
e em:
http://www.designbrasil.org.br/designnapratica/regulamentacao-do-designer-quem-interessa
Texto publicado no “Sinal" No. 402 de 30/05/2011
Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.
terça-feira, 31 de maio de 2011
sábado, 28 de maio de 2011
Designers e Associações
Os designers brasileiros tem uma história associativa de altos e baixos. Nossas associações tem muito baixa representatividade, desde seus primórdios. Quase simultaneamente ao surgimento dos primeiros cursos foi criada uma associação profissional e promocional com o objetivo de atender à necessidade corporativa dos designers. A ABDI Associação Brasileira de Desenho Industrial, estabelecida em São Paulo nos anos 60, mesmo com uma atuação intensa em seu inicio, ficou a desejar quanto a uma efetiva representatividade profissional. As associações que se seguiram também sofreram deste problema, desde a APDINS, as APDIs, a AND, bem como as até hoje existentes ADG e AEnD.
Por paradoxal que seja os estudantes tem tido um comportamento exemplar em termos de organização, especialmente com os NDesigns, Encontro Nacional dos Estudantes de Design que se realizam ininterruptamente desde 1990. É o evento itinerante da área com a maior longevidade realizado no país, sempre no mês de julho. Com a disseminação de mais de 500 escolas e cursos pelo país inteiro, os alunos se reúnem neste evento para participar de conferências, workshops, minicursos e exposições de trabalhos onde trocam suas experiências de aprendizado, em um numero de mais de 2000 participantes em média. Para organiza-lo foi criado um conselho o CONE, que se constituiu como uma associação estudantil, de representatividade nacional.
O curioso é que não há uma transferência deste envolvimento intenso dos estudantes, quando se tornam profissionais. Poucos se associam às associações existentes enfraquecendo assim a representatividade profissional,...infelizmente. Como as associações tem altos e baixos há sempre uma associação da vez, uma que funciona “melhor”do que as outras, atraindo assim o interesse de um grupo de profissionais que a ela se associam, relegando as outras a segundo plano. Tivemos desde os anos 80 o “reinado” da ADG Associação dos Designers Gráficos, o da AEnD Associação de Ensino de Design e agora temos o da ABEDESIGN Associação Brasileira das Empresas de Design. Além disto temos algumas associações menores e de âmbito restrito ou regionais, com por exemplo, a ADP Associação do Designers de Produto, a ApeDesign Associação Profissional dos Designers do Rio Grande do Sul, a ADEGRAF Associação dos Designers Gráficos do Distrito Federal, dentre outras. Todas padecem do mesmo problema, poucos sócios efetivamente participantes, pouca arrecadação e baixa atividade. Todas têm pouca ligação com os estudantes, que poderiam e deveriam ser seus futuros sócios, garantindo assim presença e representatividade junto a sociedade. Afinal nós designers existimos para servir a ela!
Isso precisa ser urgentemente revertido, com reflexos diretos na sobrevivência da profissão e dos profissionais. Uma organização forte e coesa do design pode render frutos à profissão nunca dantes imaginados. Além de, eventualmente, podermos reivindicar incentivos como carências ou redução de impostos, poderemos nos proteger quanto a uma eventual entrada de mão de obra vinda do exterior, já que há uma crise evidente cercando os países desenvolvidos. Ë possível que, com o desenvolvimento de nossa economia nos tornemos alvos de designers, vindos destes países ou mesmo de nossos “hermanos” vizinhos, tão talentosos quanto "nosotros".
Ainda teremos a questão do retorno para o associado. Esta é uma questão ainda por resolver, pois além da posição política as associações devem promover algum beneficio para atrair e manter seu quadro de associados estável. A ADG por muitos anos promoveu com sucesso as exposições bienais de design gráfico, o que nestes anos fazia crescer os seus associados adimplentes. Há outras ofertas possíveis e já tentadas, como planos de saúde, descontos em compras profissionais, publicações e aconselhamentos , assistência legal e jurídica, festas e comemorações, cadastros de profissionais e de portfólios, sem falar em sites e news letters de interesse específico e geral. Há vários casos de organização de concursos, endosso a eventos e interlocução governamental onde as associações têm promovido sua participação junto a sociedade e a classe.
Ainda temos essa pulverização entre associações especialistas e regionais ao invés de uma grande associação nacional. Sou da opinião que isso deve ser mantido por algum tempo, até a consolidação deste processo de fortalecimento. É melhor termos pequenas associações atuando de forma consistente do que uma grande associação com risco de sobrevivência por falta de associados. Nos outros países há uma tendência das associações especialistas se unirem, independente da área de atuação, o que vem acontecendo progressivamente também com as entidades mãe, ICSID, ICOGRADA e IFI, que já se utilizam de uma sede única, promovem congressos em conjunto e praticam um código de ética em comum.
Os designers brasileiros tem que se conscientizar que formam um corpo profissional, e que ao serem diplomados passam a fazer parte de uma classe que contribui para a melhoria da qualidade de vida do pais e de sua população. Essa classe precisa de respeitabilidade política, se fazer presente ante as instituições publicas ou privadas, especialmente neste momento em que temos um novo projeto de regulamentação em tramitação no Congresso.
Designers, unam-se, associem-se ou seremos tragados pelas circunstâncias, sem dó nem piedade!
É chavão mas ...“unidos jamais seremos vencidos!”
Texto não publicado
terça-feira, 26 de abril de 2011
A destruição das marcas brasileiras
O Brasil carece de marcas tradicionais e de renome internacional. Há alguns exemplos de marcas que transcendem nosso país ou cultura, mas não na proporção necessária a um player de nosso nível no mercado mundial.
Havaianas, H Stern, Vale, Marcopolo, Embraer, Grendene, O Boticário, Petrobrás, Itaú, 51, Brahma, Rock in Rio, Sadia são alguns dos bons exemplos de marcas que conseguiram ultrapassar nossas fronteiras e ter algum reconhecimento no mercado mundial, como associadas a nosso país. No entanto ainda estamos longe da repercussão que nossos amigos coreanos adquiriram com suas marcas, quase que desconhecidas a duas décadas atrás. Hoje temos diariamente em nossos jornais anúncios de pagina inteira promovendo e comparando produtos coreanos da Hyundai com produtos da alemã BMW e se dizendo melhores, por exemplo. Estes produtos inundam os mercados mundiais incluindo o nosso. Nos anos 60 a economia coreana, suas marcas e seus produtos eram inferiores aos brasileiros. Então o que aconteceu? Sem entrar no mérito dos coreanos, analisaremos o que houve deste lado do hemisfério em relação às marcas.
Sempre tivemos um olhar colonizado para produtos e marcas, sempre valorizamos o que vinha de fora, independente de sua qualidade. Nunca fomos conscientes de que nossa cultura de marca valesse alguma coisa. A valorização do que vinha de fora sempre suplantou nossas origens. Fora algumas cidades, os nomes indígenas, por exemplo, são raramente adotados em qualquer aspecto de nossa economia. Já os estrangeirismos, especialmente de origem européia, são muito comuns. Os nomes americanizados também são comuns, especialmente em certas regiões do país onde são dados ate ás nossas crianças. No nordeste, por exemplo, a profusão de Daisys, Robertsons, Jailsons e outros “..sons” sempre são muito comuns.
Entretanto temos e já tivemos marcas de tradição que se estabeleceram por décadas, promovendo serviços e produtos de qualidade na economia brasileira. Estas marcas sobreviveram durante anos de subdesenvolvimento, de ditadura, de inflação desenfreada, de juros altos, de abertura da economia sem critérios. Foram se submetendo as regras do mercado, que as fizeram sucumbir à falta de gerenciamento, a fusões incentivadas com multinacionais e a aquisições agressivas só com o objetivo de retirá-las do mercado. Em nome das regras do mercado perdemos marcas como Cobra, Gradiente, Gessy, Gurgel, Jornal do Brasil, Kolinos, Labo, l’Atelier, Mesbla, Oca, Polivox, Puma, Rima, Sendas, Scopus, Unitron, Varig, VASP, Vemag, Willys, Zivi Hercules, dentre outras.
Sabemos que todo produto, empresa ou evento comercial ou industrial tem uma marca. Ela pode ser tradicional, com muitos anos de existência ou pode ser uma marca inteiramente desconhecida. A marca pode ser solida, com significado e identidade ou pode ser anônima sem nenhuma relação com o mercado onde ela atua. Uma marca é algo difícil de ser estabelecida, pois leva tempo, esforço e naturalmente divulgação. A marca quando estabelecida em uma determinada área é difícil de ser modificada. Uma marca tem sempre um significado de experiência emocional e de valor. Para exemplificar suponha o lançamento de um uísque de primeira linha com a marca de uma cachaça popular... Não daria certo com certeza. São conhecidas marcas que transmitem a imagem de produto esportivo, de produto sofisticado, de produto de alta qualidade. É sempre a marca que determina a imagem do produto, sendo difícil a situação inversa. No Brasil mesmo os segmentos mais óbvios, como o do café, por exemplo, carecem de marcas de expressão internacional, pelo simples fato de nunca terem sido implantadas. Como exportadores de commodities nunca nos preocupamos em estabelecer marcas de varejo com um viés internacional de personalidade. Mesmo tendo disponível um excelente design gráfico alem de uma publicidade de alta qualidade.
A marca Walita, tradicional em eletrodomésticos, comprada há alguns anos pela Philips, esta sendo lentamente desmobilizada, neste momento, tendo seu nome justaposto e brevemente substituído pela da multinacional. A Varig foi adquirida pela Gol, mas está sendo obviamente relegada a segundo plano, apesar de seu imenso patrimônio de qualidade e de tradição na aviação. Não temos, da mesma forma, uma única marca nacional de automóveis, mesmo sendo grandes fabricantes de veículos e por não termos uma política de preservação de nossas marcas notórias estamos assistindo a uma verdadeira destruição da identidade das marcas brasileiras.
Brevemente não teremos mais marcas nacionais pelas quais torcer, nem teremos mais lembranças de marcas brasileiras que nos acompanharam pela vida toda. Temos que reverter esse processo, com urgência por meio de uma política de estado que tenha a função de preservar nossas marcas, de valorizar nossas marcas notórias, nossos símbolos de identidade.
A marca é o maior patrimônio de uma empresa, frase cunhada pelo mundo empresarial e repetida inúmeras vezes por todos que discutem o assunto. O Brasil está perdendo a batalha pelo seu patrimônio de marcas, por não ter uma visão abrangente de como manter o valor de sua identidade empresarial.
Necessitamos que isso seja revertido em breve!
Texto não publicado - Abril 2011
Havaianas, H Stern, Vale, Marcopolo, Embraer, Grendene, O Boticário, Petrobrás, Itaú, 51, Brahma, Rock in Rio, Sadia são alguns dos bons exemplos de marcas que conseguiram ultrapassar nossas fronteiras e ter algum reconhecimento no mercado mundial, como associadas a nosso país. No entanto ainda estamos longe da repercussão que nossos amigos coreanos adquiriram com suas marcas, quase que desconhecidas a duas décadas atrás. Hoje temos diariamente em nossos jornais anúncios de pagina inteira promovendo e comparando produtos coreanos da Hyundai com produtos da alemã BMW e se dizendo melhores, por exemplo. Estes produtos inundam os mercados mundiais incluindo o nosso. Nos anos 60 a economia coreana, suas marcas e seus produtos eram inferiores aos brasileiros. Então o que aconteceu? Sem entrar no mérito dos coreanos, analisaremos o que houve deste lado do hemisfério em relação às marcas.
Sempre tivemos um olhar colonizado para produtos e marcas, sempre valorizamos o que vinha de fora, independente de sua qualidade. Nunca fomos conscientes de que nossa cultura de marca valesse alguma coisa. A valorização do que vinha de fora sempre suplantou nossas origens. Fora algumas cidades, os nomes indígenas, por exemplo, são raramente adotados em qualquer aspecto de nossa economia. Já os estrangeirismos, especialmente de origem européia, são muito comuns. Os nomes americanizados também são comuns, especialmente em certas regiões do país onde são dados ate ás nossas crianças. No nordeste, por exemplo, a profusão de Daisys, Robertsons, Jailsons e outros “..sons” sempre são muito comuns.
Entretanto temos e já tivemos marcas de tradição que se estabeleceram por décadas, promovendo serviços e produtos de qualidade na economia brasileira. Estas marcas sobreviveram durante anos de subdesenvolvimento, de ditadura, de inflação desenfreada, de juros altos, de abertura da economia sem critérios. Foram se submetendo as regras do mercado, que as fizeram sucumbir à falta de gerenciamento, a fusões incentivadas com multinacionais e a aquisições agressivas só com o objetivo de retirá-las do mercado. Em nome das regras do mercado perdemos marcas como Cobra, Gradiente, Gessy, Gurgel, Jornal do Brasil, Kolinos, Labo, l’Atelier, Mesbla, Oca, Polivox, Puma, Rima, Sendas, Scopus, Unitron, Varig, VASP, Vemag, Willys, Zivi Hercules, dentre outras.
Sabemos que todo produto, empresa ou evento comercial ou industrial tem uma marca. Ela pode ser tradicional, com muitos anos de existência ou pode ser uma marca inteiramente desconhecida. A marca pode ser solida, com significado e identidade ou pode ser anônima sem nenhuma relação com o mercado onde ela atua. Uma marca é algo difícil de ser estabelecida, pois leva tempo, esforço e naturalmente divulgação. A marca quando estabelecida em uma determinada área é difícil de ser modificada. Uma marca tem sempre um significado de experiência emocional e de valor. Para exemplificar suponha o lançamento de um uísque de primeira linha com a marca de uma cachaça popular... Não daria certo com certeza. São conhecidas marcas que transmitem a imagem de produto esportivo, de produto sofisticado, de produto de alta qualidade. É sempre a marca que determina a imagem do produto, sendo difícil a situação inversa. No Brasil mesmo os segmentos mais óbvios, como o do café, por exemplo, carecem de marcas de expressão internacional, pelo simples fato de nunca terem sido implantadas. Como exportadores de commodities nunca nos preocupamos em estabelecer marcas de varejo com um viés internacional de personalidade. Mesmo tendo disponível um excelente design gráfico alem de uma publicidade de alta qualidade.
A marca Walita, tradicional em eletrodomésticos, comprada há alguns anos pela Philips, esta sendo lentamente desmobilizada, neste momento, tendo seu nome justaposto e brevemente substituído pela da multinacional. A Varig foi adquirida pela Gol, mas está sendo obviamente relegada a segundo plano, apesar de seu imenso patrimônio de qualidade e de tradição na aviação. Não temos, da mesma forma, uma única marca nacional de automóveis, mesmo sendo grandes fabricantes de veículos e por não termos uma política de preservação de nossas marcas notórias estamos assistindo a uma verdadeira destruição da identidade das marcas brasileiras.
Brevemente não teremos mais marcas nacionais pelas quais torcer, nem teremos mais lembranças de marcas brasileiras que nos acompanharam pela vida toda. Temos que reverter esse processo, com urgência por meio de uma política de estado que tenha a função de preservar nossas marcas, de valorizar nossas marcas notórias, nossos símbolos de identidade.
A marca é o maior patrimônio de uma empresa, frase cunhada pelo mundo empresarial e repetida inúmeras vezes por todos que discutem o assunto. O Brasil está perdendo a batalha pelo seu patrimônio de marcas, por não ter uma visão abrangente de como manter o valor de sua identidade empresarial.
Necessitamos que isso seja revertido em breve!
Texto não publicado - Abril 2011
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
CNAE do Design – Uma luz no final do túnel?
Recentemente por uma portaria do IBGE foi instituído um numero de CNAE para a atividade Design. O CNAE é o Código Nacional de Atividade Econômica, que é dado a todas as atividades exercidas pelas pessoas jurídicas e serve às delegacias da Receita Federal do Ministério da Fazenda para classificar empresas constituídas e caracterizar suas atividades especificas, no CNPJ, em todo o país.
Para a atividade de “Design” o CNAE é 74.10-2/01 e compreende as atividades de "Design de Produtos". Para a atividade de “Design Gráfico e diagramação” o CNAE é 74.90-1/99 e compreende as atividades de programação e comunicação visual. Para a atividade de “Design de interiores” o CNAE é 74.10-2/02 e compreende as atividades de decoração, ambientação e design de interiores. Para a atividade de “Web Design” o CNAE é 62.01-5/00 e compreende as atividades de tudo o que se refere ao uso da internet, como ela é entendida nos dias de hoje.
Mal ou bem isso vem colocar um pouco de ordem na nossa área de atuação, já que por não sermos uma profissão regulamentada, eram constantes as dúvidas como classificar as atividades do design. Durante mais de 40 anos fomos classificados como desenhistas técnicos, como publicitários ou como decoradores, o que deu margem a inúmeros erros de classificação fiscal dependendo de como o delegado local da Receita interpretava a atividade da empresa, que constava em seu contrato social.
A atenção sobre este assunto foi despertada pela exigência do BNDES, em meados de 2010, pelas empresas que se cadastraram como usuárias de Cartão BNDES, para financiamento ao design, com a exigência de que elas tivessem o CNAE 74.10-2-01. Isso porque o BNDES tem a intenção de prestigiar e privilegiar o Design de produtos, criando assim uma insatisfação com as empresas que prestam serviços de design gráfico ou de web, por exemplo. Como se sabe em nosso país é difícil ter empresas de design muito especializadas, já que nossa economia instável requisita sermos flexíveis em nossa oferta de serviços. Todos fazemos de tudo um pouco!
O interessante é que muitas empresas que se dedicavam a design de produtos não possuíam este CNAE, mesmo tendo a descrição precisa da atividade no seu contrato social, já que foram constituídas antes desta definição. Outras empresas eram, por exemplo, escritórios de arquitetura e que praticavam o design com competência, mas sem o CNAE respectivo. Todos tiveram, ou terão, que se recadastrar e assim se enquadrar nas novas exigências para poder serem autorizadas pelo BNDES.
A partir daí haverá uma tendência em se utilizar, cada vez mais o CNAE como elemento balizador da nossa atividade em concursos, em concorrências abertas ou fechadas especialmente no âmbito do poder público. Poderá ser feita assim uma triagem das empresas destas especialidades, em pesquisas ou estatísticas, para concessão de incentivos fiscais, por exemplo, e com isso caracterizar melhor as especificidades dentro da atividade. É preciso acrescentar que cada empresa pode ter mais de um CNAE, abrangendo assim mais de uma atividade, mas isso terá que ser requisitado pela empresa, desde que as atividades constem explicitamente de seu contrato social.
O uso do CNAE pode finalmente colocar nossa atividade em um trilho comum de qualidade, o que nos beneficiará, eliminado as empresas de outras áreas que cada vez mais invadem a nossa praia. Infelizmente ele só se aplica a pessoas jurídicas, não atendendo as necessidades do profissional isolado, autônomo ou empregado, que ainda carece de uma regulamentação real que o torne um profissional pleno e digno, com todos os direitos e deveres de seus colegas arquitetos ou engenheiros.
Mas pelo menos já é uma luz no final do Túnel!!!
Ref. http://www.cnae.ibge.gov.br - atividades profissionais e científicas
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Design e Calamidades!
Desde sua fundação a ESDI, a Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro teve um interesse marcante, em temas de projetos com fundo social. Acreditava-se na escola que a contribuição do design nesta área poderia ser preponderante, o que talvez não fosse uma crença muito compartilhada pela sociedade como um todo. Temas voltados para educação, saúde, reabilitação, calamidades, transportes, mobiliário urbano, sinalização publica, foram prática constante nos primeiros anos de funcionamento da ESDI, tanto nos trabalhos curriculares como nos projetos de graduação.
Instituições internacionais ligadas ao design também patrocinavam concursos com estes temas, enfatizando assim a contribuição da área para sua solução. Em agosto de 1976 no concurso patrocinado pelo ICSID “Design for Disaster Relief”, um projeto de um purificador de água portátil, tipo Mochila, executado pelos meus alunos Henrique Meireles, João Quadros Coimbra e Álvaro Milanez Junior, do 3º ano da ESDI, recebeu menção honrosa e foi exibido em exposição itinerante mundial. Vários outros projetos interessantes foram executados pelos alunos na época, mas somente esse foi enviado para o concurso.
Mais recentemente outros alunos da ESDI desenvolveram inúmeros projetos com o tema "Design para Calamidades", sem nenhuma repercussão entre nossas autoridades. Em 1999 em todas as turmas foram desenvolvidos projetos, com tema único, orientados por mim e pelos professores João Bezerra e Luiz Claudio Portugal durante o ano inteiro. Os projetos compreendiam desde Pás, para remoção de entulho, kits de sobrevivência, embarcações e veículos de resgate a sistemas portáteis de comunicação e localização remota com a utilização de alta tecnologia, disponível na época.
Nossos alunos tiveram certa resistência, no inicio, mas logo se engajaram com um entusiasmo único, ao tema também único! Os alunos do 2º ano se espantaram com o tema de redesenhar uma pá e me perguntavam o que se pode fazer em uma pá??? Descobriram rapidinho! Neste caso, a idéia a que chegamos era a de estabelecer uma norma nacional para se ter uma pá junto a cada extintor de incêndio, nos prédios e casas. Equipamentos que esperamos não sejam utilizados, mas se necessários, estariam a postos.
Os alunos em suas pesquisas, tanto em 1976 como em 1999, já indicavam que a única grande catástrofe na área do Rio seriam as enchentes e enxurradas, o que foi confirmado em gerações diferentes! Por isso não dá para entender, nos dias de hoje, porque essa ignorância sobre o assunto pelas autoridades locais por tanto tempo. Ainda mais pelo fato de ter havido fatos predecessores recentes como as inundações constantes em São Paulo, as de Santa Catarina e de Alagoas, repetidas e em um curto espaço de tempo.
Mesmo com entrevistas, consultas e visitas a Defesa Civil, municipal e estadual, não houve interesse por parte das autoridades em nenhum nível. Os resultados de 1999 foram exibidos em uma expo na ESDI e na FIRJAN, junto a outros projetos de faculdades de design do Rio, com alguma repercussão na mídia, mas sem a divulgação ou o interesse que poderiam ter despertado. Houve esforços de nossos professores junto a revistas para publicação dos projetos, mas sem sucesso. Não tínhamos a internet ainda, na ocasião.
O divórcio entre a universidade e as autoridades políticas neste país é evidente. Mas nestas circunstancias isso deve ser revisto com urgência. Estamos falando aqui dos cursos de design, que são de nossa competência, mas há estudos, projetos e boas soluções disponíveis nas faculdades de engenharia, de geologia, de meteorologia, de informática, de medicina, e muitos outros que estão relegados ao esquecimento nas prateleiras das instituições de ensino e pesquisa. Só falta utilizá-los para com isso salvar vidas, dar assistência temporária e assim reduzir nossos custos humanos, dentre outros!
Os projetos de graduação de design na ESDI, como o da Bianca Melo de Carvalho, de “Mobiliário transportável para abrigo temporário” de 2010 e do Marcello Halfeld, a “Sala de Aula transportável temporária para áreas devastadas”, de 2009, que inclusive ganhou o prêmio “Novos Designers” da ADP, demonstra que temos excelentes soluções disponíveis, recentes, mas com a mesma preocupação lá dos anos 70.
Possuímos uma verdadeira reserva de inteligência com soluções adequadas nas gavetas e prateleiras das universidades e faculdades, em todo o país. Tanto para a fase emergencial, para fase de reabilitação como para a fase de reconstrução. São soluções prontas e cujos custos já foram amortizados. É só lançarmos mão delas.
Num país como o nosso não podemos nos dar ao luxo desperdiçar idéias! Com vontade política elas podem poupar vidas e mostrar nossa inteligência!
Texto não publicado. Fotos: Freddy van Camp - Arquivo ESDI
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Pioneiros e mestres
Tive a oportunidade recente de contribuir com a Bienal Brasileira de Design 2010. Participei da curadoria do segmento “Bienais de Design - Primórdios de uma ideia” – uma retrospectiva das bienais de design já ocorridas no pais, o que me permitiu um pequeno exercício de reflexão sobre o que temos de pioneirismo em design neste pais, e para o qual não nos damos conta.
Nos anos 60 fomos pioneiros na América Latina em criar um curso superior de design adotando o modelo da escola de ULM, o que de mais avançado existia na época, mesmo contra todos os prognósticos dos críticos desta iniciativa. No momento da formatura dos primeiros profissionais brasileiros já tínhamos uma associação nacional de fomento à profissão e a atividade, a ABDI, e já discutíamos a possibilidade da regulamentação da profissão como forma de afirmação nacional desta atividade. Desta mesma forma fomos pioneiros absolutos em realizar Bienais de design, já que não havia exposição semelhante e deste porte realizada anteriormente em outros países.
Em 1968, por iniciativa de dois designers fundadores da ESDI, Karl Heinz Bergmiller e Goebel Weyne foi criada a “Desenho Industrial 68 – Bienal Internacional do Rio de Janeiro, uma exposição emblemática da produção nacional e internacional deste setor. Na época, já era patrocinada pelos Ministérios da Indústria e do Comercio, das Relações Exteriores, da Fundação Bienal de São Paulo, além da ESDI, da FAU/USP e do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A união destas entidades em promover e patrocinar uma iniciativa deste gênero era fruto do crença que o design teria um papel preponderante no desenvolvimento do pais, seja atendendo às necessidades de nossa sociedade, seja exportando nossa “espertize”, nossa inteligência projetual, seja afirmando a nossa cultura material, em comparação com o que se fazia nos países desenvolvidos. Exatamente igual ao que estamos tentando nos dias de hoje, mais de 40 anos depois, coincidindo com a época da Bienal Brasileira de Design 2010.
Estamos aos poucos nos dando conta do pioneirismo de nossos mestres, e de sua importância para a história do design no Brasil. Alguns deles infelizmente não estão mais entre nós, responsáveis que foram, e são ainda, pela implantação pioneira desta atividade que se firmou como colaboradora efetiva do desenvolvimento nacional, agregando de diversas formas valor à vida brasileira. Temos que reconhecer que em paralelo ao trabalho dos fundadores da ESDI, Aloísio Magalhães, Alexandre Wollner, Karl Heinz Bergmiller, Goebel Weyne: dos criadores da sequência de disciplinas da FAU/USP João Carlos Cauduro, Ludovico Martino, Lucio Grinover, Julio Katisnsky, dentre outros, houve a contribuição efetiva de pioneiros regionais e localizados, como por exemplo, Ronaldo Rego, Guilherme Bender, Rubens Sanchotene e Jorge de Menezes que foram justamente homenageados por seu trabalho pioneiro no Paraná, com exposição e livro durante a Bienal 2010. Estes foram, sem duvida, os mestres de muitos que transformaram a cultura visual e material daquele estado nos últimos anos.
Felizmente, a cultura do design se alastrou por todos os cantos do Brasil, e não apenas nas grandes capitais, o que não explica o numero de mais de 500 cursos que temos espalhados pelo pais, que esperamos assegurarão a difusão do trabalho de qualidade de outros mestres e pioneiros entre os atuais alunos e os recém formados deste cursos. Essa historia precisa ser preservada e as Bienais de Design, retomadas recentemente são um excelente veiculo para isso.
Que continuem assim para o bem de todos nós!
quarta-feira, 3 de março de 2010
Pretos, pratas e amarelos

O Brasil é um país colorido e temos consciência disso. Nossa fauna e flora, a natureza, nossa bandeira, nosso carnaval e a cultura popular são exemplos de cor e de personalidade. Entretanto quando percorremos as ruas de nossas cidades há uma característica que nos chama atenção: todos os nossos automóveis ou são pretos ou pratas. Há uma uniformidade tão radical na preferência de nossos motoristas que contradiz completamente nossa origem tropical e multicolorida. Mesmo as outras cores disponíveis nas cartelas das montadoras são variações muito próximas do preto, ou do cinza e prata. Há ainda um branco ou um vermelho frequentando estas cartelas mas que não são, definitivamente, as preferências nacionais.
Houve um tempo, na primeira fase dos automóveis, onde Henry Ford determinou que os automóveis Ford Modelo T poderiam ser fabricados em qualquer cor, desde que fosse preto. No pós-guerra a rápida retomada da produção fez com que o preto fosse a cor padrão dos carros então importados pelo Brasil. Houve também um tempo onde um carro preto era uma demonstração de poder, o famoso carro oficial, um símbolo de status. Em outra época um carro preto significava velocidade e esporte, já que Emerson Fittipaldi, nosso primeiro campeão mundial de Formula 1, era patrocinado pela marca de cigarros (de embalagem preta) John Player Specials. Além disso tivemos, em menor escala a moda do Fuscão Preto, inspirado pela musica, dentre outras. Em um país tropical, quente e ensolarado como o nosso, ter um carro preto é na verdade um contra senso que não tem explicação, nos dias de hoje.
Nos anos 50 as baratinhas Mercedes prata atraiam as atenções nos circuitos da Gávea ou de outras cidades pilotadas por Juan Manuel Fangio, e em conjunto com Alfas, Porsches e Willys Interlagos começavam a povoar o imaginário de nossos jovens. O prata, entretanto,, só se popularizou nos anos 90 em nossos automóveis de rua, por meio das novas tintas e vernizes que resistiam a nossos sol e salitre inclementes, e que sempre deram trabalho ás oficinas de pintura e de funilaria pelo país afora. A verdadeira prata da casa!
Já houve tentativas em lançar paletas de cores variadas em novos modelos de automóveis. A linha Corsa, por exemplo, ao ser apresentada ao publico brasileiro em 1993 foi oferecida em 10 cores vibrantes e inéditas. Poucas delas emplacaram e nas versões sucessivas foram reduzidas a apenas meia dúzia com poucas variações cromáticas. Nos lançamentos de novas linhas sempre há oferta de novas cores, que geralmente são as utilizadas nas fotos da campanha publicitária, mas a unanimidade de que os modelos pretos e pratas se valorizam mais, sob o ponto de vista econômico, acaba prevalecendo. Hoje temos a chatice de que essa valorização também é compartilhada, e com bons olhos, pelos ladrões de carros, já que esses são os modelos mais roubados já que dão menos na vista ou são mais valorizados nas revendas dos ferro velhos.
Por sua vez o amarelo foi lançado como pintura padrão dos táxis em N. York, nos anos 30 e reproduzido por algumas outras cidades, como Medelin, Istambul, Taipei e o Rio de Janeiro, por exemplo. No Rio este padrão foi introduzido nos anos 70 pelo prefeito Marcos Tamoio e dizem que foi com a participação ou sugestão do designer Aloísio Magalhães, apesar de que esta informação não ter sido confirmada.
O decreto que define a cor padrão dos táxis do Rio é o de número 929, de 5 de abril de 1977. O artigo 1° parágrafo único determina que as tonalidades das cores indicadas são: amarela – 7,5y7/10 e azul 5 PB 2/6, conforme referência da MUNSELL internacional.
Foi proposto, desde o inicio, de que fosse utilizada a cor Amarelo Java, padrão da Volkswagen na época, com a adição de uma faixa lateral quadriculada azul marinho, que por dificuldades de pintura logo se tornou uma faixa continua. Esta padronização é utilizada até hoje e facilita aos usuários, cariocas ou não, a identificação e a procura por um táxi em nossa cidade a qualquer hora e sob qualquer iluminação.
Acontece que no ultimo ano liberaram (ou bagunçaram?) o tom de amarelo dos taxis a tal ponto que não se consegue mais identificá-los, sejam legítimos ou piratas, desfazendo um padrão muito bem estabelecido ao longo dos anos. Uma pena!
Os taxistas deveriam ser os primeiros interessados a manter o padrão estabelecido, para seu próprio bem e não correr o risco de abrir a guarda no sentido de confundir seus clientes. Qualquer carro pintado de amarelo pode ser confundido com os táxis, criando desconfiança e insegurança nos usuários deste tipo de transporte. Isso é absolutamente incompreensível, especialmente se considerarmos o aumento de visitantes e turistas que frequentam a cidade e as perspectivas olímpicas próximas.
Em termos de cor no nosso cotidiano temos dois paradoxos, uma padronização forçada pelo usuário (ou será pelas concessionárias?) no caso do preto e do cinza e outra, no caso do amarelo, rompida pelos seus interessados não se sabe por que razão.
Podemos alegar que em num país luminoso e ensolarado a preferência pelas cores brilhantes e intensas talvez se configure um pouco “demais”, tendo nos automóveis um efeito “cheguei”, que poderia inibir os seus usuários em seu dia a dia. Por outro lado a padronização prata/preto é irritante, a ponto de diariamente depararmos com motoristas enfiando chaves em carros que não lhes pertencem em estacionamentos e shoppings, tamanha a frequência de automóveis parecidos.
No caso dos amarelos utilizados para os táxis poderia haver uma preferência por um tom diferente do Amarelo Java utilizado por tantos anos. Isso porem deveria ser feito com critério e de forma programada, onde os dois padrões conviverão por algum tempo, predominando o novo ao longo de um período de transição programada, como preconiza o bom senso.
Mesmo constando do dístico de nossa bandeira a ”ordem” não é o nosso forte. Temos uma preferência pela complexidade, pela contravenção, pelo rompimento, pela não observação de padrões. Nestes dois casos por motivos diferentes o “medo” da cor no primeiro caso e a “insatisfação” com a cor no segundo, confirmando assim o que alguns analistas já disseram vivemos numa Belíndia: o Brasil é uma contração da Bélgica com a Índia, onde duas realidades antagônicas convivem e se alternam, sem nenhuma lógica ou ordem e de forma atávica e eterna.
Eu, pelo meu lado tenho um carro vermelho, que prefiro não só pela luminosidade da cor, mas pelo fator segurança no transito, bem como por ser menos “apetitoso” para os ladrões, que dariam muito na vista rodando com ele por aí. Me recuso a fazer parte desta “unanimidade burra” como bem definiu Nelson Rodrigues.
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Design e a miopia estratégica
O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.
Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.
O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.
Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.
Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?
A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!
Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008
Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.
O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.
Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.
Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?
A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!
Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008
O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)
Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.
Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.
Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.
Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!
Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.
Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008
Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.
Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.
Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!
Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.
Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008
Um Design Onírico?
Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.
O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.
Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.
A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.
Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.
Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.
Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.
Texto não publicado - Junho 2009







