Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

O ambiente de trabalho Pós COVID!


Quando a situação se estabilizar voltaremos a uma “nova normalidade”!?!?

Depois desta quarentena, que temos apoiado integralmente, muitos almejarão retornar a uma proximidade maior, mas terão receio ainda de contágio e propagação do vírus, já que não saberemos se o nosso interlocutor teve, ou não teve o COVID. O que fazer então???Tudo isso dependerá dos novos e futuros conhecimentos que teremos, ou tivermos sobre este vírus tão letal.

Decididamente não voltaremos como “antes”! Teremos um novo “modelo
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Proposta divulgada para o retorno das aulas, em escolas da China.

Porem a economia precisa ser retomada, e o trabalho é que move a economia!
A primeira opção é como ter proximidade e como manter o distanciamento. Nos relacionamentos e isso terá que ser equacionado, especialmente no trabalho.

Já imaginaram se tivermos que nos paramentar daqui para diante como os profissionais de saúde estão se paramentando para podermos trabalhar??? Algumas profissões provavelmente terão sim que se paramentar, mas isso não poderá ser para a maioria.

O que nos resta? O trabalho remoto. Teremos que exercitar uma nova experiência de trabalho a ser ainda formulada. Cada um no seu canto, cada um na sua casa ou em novos ambientes, agora distanciados, mas pensados para a nova era.

Tentaremos transmitir aqui os aspectos relativos aos ambientes de trabalho específicos e de uso mais geral. Sabemos que isso tudo atende a uma camada de usuários e não é ainda nossa realidade universal, onde muitos não têm ainda acesso a internet publica e gratuita, o que já  passou a ser um divisor de águas em nossa sociedade, especialmente a partir de agora.

O verdadeiro início do século está acontecendo!

Já estamos preconizando o “home office” para todas as atividades de estudo, teóricas, administrativas ou burocráticas. Claro que há atividades práticas que poderão ser executadas no “home”, em casa! Mas onde, em casa, esta atividade se dará?

Nem sempre temos um escritório, um estúdio, um ambiente reservado para o trabalho. Não poderemos trabalhar, por longos períodos, na mesa da sala, da copa, ou acocorocados no sofá. São ambientes sociais, onde outras pessoas interagem e não pensados para o trabalho. Isso pode e deve estar acontecendo hoje, mas não é uma possibilidade para o futuro, muito menos para esta nova normalidade que está por vir.

O isolamento que já vivemos, com nossos “Headfones”, nossos computadores pessoais, tablets, Ipads vai ser exacerbado daqui para diante, especialmente em ambientes familiares. As crianças e adolescentes, com suas aulas remotas; a educação à distância, os jogos e lazer; o pai ou a mãe, com seus trabalhos e empregos e eventuais estudos ou os membros da família que forem empreendedores, todos se isolam grande parte do dia. Mesmo os de terceira idade, que queiram se comunicar com parentes ou com a realidade cada vez mais isolacionista que nos espera, por um bom tempo. Todos serão usuários destes “hardwares” que nos manterão em rede, com os “nós” de um metro e meio de distância! O trabalho em casa vai necessitar de uma nova realidade doméstica e vai modificar a nossa relação funcional e empresarial com o espaço de trabalho.

As empresas, com o resultado da experiência atual, vão querer continuar a economizar em espaços de trabalho. Muitos prédios de escritório perderão sua função ou serão reduzidos ao mínimo, já que o trabalho remoto será bastante utilizado. Os que restarem serão não só reduzidos e muito modificados. Se continuarem provavelmente terão que mudar seu layout, mobiliário e equipamento, o seu caráter.

Hoje em dia, já não há mais armários ou arquivos, pois se guarda tudo na memória das máquinas ou na nuvem. Haverá menos postos individuais de trabalho e mais mesas de reunião ou de trabalho coletivo, como em parte já ocorre. Mas agora ao invés dos escritórios panorâmicos, invenção dos anos 60/70, voltarão os espaços compartimentados, com divisórias, mantendo uma “gestão da distância” criando os possíveis isolamentos necessários. Precisaremos de mais locais com projeção e mais câmeras para comunicação à distância. Tudo que acelerar a produtividade deverá ser considerado.

Os que estiverem obrigados a trabalhar nestes locais, formando equipes pedirão mais “facilities” para o local; cantinas ou “coffeshops”; locais para descanso ou reuniões informais, eventualmente vestiários e academias para exercícios ou relaxamento e locais para abrigar bicicletas ou patinetes, em um novo meio de deslocamento. Estas facilities servirão como atrativos e compensação para retirar funcionários de suas casas, já que trabalhar remotamente ou de casa significara maior liberdade, mas em um ambiente fechado põem em risco a segurança para contágios.

Isso já vem sendo preconizado em empresas mais avançadas e no exterior, mas isso deverá ser adotado entre nós de forma mais abrangente. Locais para receber deliverys terão que ser pensados. Já há opções “contact less” que poderão se generalizar. Comer em restaurantes, com aglomerações será descartado por um bom tempo. Importantíssimo serão as facilidades tecnológicas, como excelentes redes de comunicação, facilidades de tele conferência, acesso a periféricos e suporte técnico, facilidades digitais de todo tipo, eletricidade, iluminação, acústica, refrigeração ou aquecimento, acesso a desinfecção, etc.

Um problema específico é o do condicionamento de ar destes ambientes. Todos os sistemas deverão ser repensados, ou substituídos, pois eles podem ser transmissores de contágio, ao longo de seu uso, mesmo que sejam tomadas todas as precauções, hoje já difundidas.
  
O resultado final é que vai haver, com certeza, uma re-significação espacial nos ambientes de trabalho.

Claro que o mobiliário, que terá que ser redesenhado, passará a ser um fator de conforto a ser considerado. Mesas com ajustes de altura, para atender a ergonomias diferentes; dispositivos de privacidade e acústica; disponibilidade de telas mais amplas, para tele conferencias, do que as atuais dos laptops; cadeiras ativas, confortáveis e ajustáveis, que já existem, mas deverão ser utilizadas de modo mais universal do que atualmente, especialmente no que se refere a seu custo. Teremos que replicar o “estar em casa” para tornar o escritório atrativo. Ajuda a manter a eficiência mesmo á distância!

No âmbito doméstico isso também se refletirá. A necessidade de mobiliário próprio para trabalho, com os suportes adequados as novas necessidades, internet mais confiável, no-breaks para falta de energia, suportes para câmeras e periféricos, isolamento acústico variável, ou permanente, que permita privacidade acústica e visual junto a outros familiares, além de tratar assuntos confidenciais, etc. Como haverá mais tempo disponível isso exigirá eventualmente até um espaço próprio e isolado para trabalho, um quarto ou as antigas dependências de empregada, semi isoladas do ambiente doméstico. Deve-se considerar que este espaço possa, equipado, ser utilizado por gerações diferentes e gêneros diferentes, em horários diferentes, cada um com suas necessidades especiais (ergonomia, materiais, suportes, etc.).

Não sei se os espaços de “co-working” hoje disponíveis e bastante populares, continuarão a se desenvolver como até aqui. O fenômeno das “startups” terá também uma modificação e os espaços hoje utilizados, talvez tenham que se adaptar a esta nova gestão da distância. As medidas de desinfecção serão também decisivas no design de todos esses espaços, exigindo materiais e acabamentos resistentes, que suportem este novo hábito, que vem sendo instalado entre nós.

Esta discussão entre escritório panorâmico e o “home office” já vinha sendo travada, desde os anos 70, por planejadores e sociólogos, especialmente na Alemanha, com defensores em ambos os lados. O aumento da população urbana, o distanciamento de casa para o trabalho, os congestionamentos diários, a mobilidade requerida pelo distanciamento, os fatores ambientais daí resultantes, forçaram a uma mudança que vem sendo implantada, mas muito lentamente. Foi preciso o advento da informática generalizada, primeiro e agora esta pandemia, para que ele realmente fosse levado a sério e acelerasse sua implantação de vez.

A descentralização, a economia no deslocamento, a necessidade de conforto familiar, além de tempo para o lazer, cada vez mais necessário, pode nos indicar e conduzir a uma profunda mudança nos nossos hábitos futuros. Isso, inclusive se refletira no futuro desenho de nossas cidades. O ”retrofit” de prédios atuais e a implosão de áreas ociosas inteiras, criando mais espaços de uso, podem ser resultados que veremos acontecer. Haverá, certamente, uma grande modificação no nosso meio ambiente construído, nestes próximos tempos.

Já há soluções indicadoras para muitos destes assuntos: Mesas de trabalho adequadas ao uso em residências, com acessórios componíveis, coisa que só encontrávamos em sistemas de escritório, já estão disponíveis, assim como cadeiras ativas de diversos modelos. Estes itens precisarão ser atualizados ou redesenhados com detalhes ou acessórios advindos da nova realidade normal: armazenadores de máscaras, suportes para álcool gel, porta luvas, etc. Sempre haverá um aspecto a ser revisto com o passar do tempo. Flexibilidade e multi-funcionalidade são aspectos que estão vindo à tona, novamente, para atender aos nossos novos anseios.

Há ainda outros ambientes de trabalho remoto que precisam ser estudados, o das costureiras, dos joalheiros, dos artesãos, dentistas e prestadores de serviços diversos, por exemplo, só para citar alguns, que necessitam de itens muito específicos de suporte. Mas isso deverá e poderá ser abordado em outra ocasião e em uma discussão mais abrangente.

A “nova realidade” do trabalho e de seu ambiente ainda precisa ser mais estudada!


Texto de palestra proferida "on line" para a UNIOESTE em 06/05/2020 a convite da Profª Luli Hata.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Arno Votteler - 25/05/1929 - 28/02/2020 Uma legenda do Design



Conheci Arno Votteler em 1967, quando esteve na ESDI, a convite, para dar um curso sobre Design de cadeiras. Ele estava no Brasil com o objetivo de implantar na empresa Giroflex, em São Paulo, uma nova linha de cadeiras para escritório, que acabara de desenvolver e lançar na Europa.


Foi um curso rápido, mas importante, pelos princípios que demonstrou para nós, como o de se projetar um produto como um sistema considerando as inovações e a ergonomia, que na época era uma absoluta novidade. Ele propunha produtos compostos por componentes comuns, que intercambiáveis, formavam novos modelos de cadeiras, formando uma linha, ampliando sua oferta ao usuário, ou a noção do sentar dinâmico, onde o usuário tem diversas posturas de sentar e as cadeiras dando o suporte adequado a cada uma delas, eram alguns deles. Estes princípios se tornaram parte integrante de minha atuação, dali para diante.

Votteler era docente na HfBK Braunschweig, no norte da Alemanha e já tinha uma carreira influente no cenário local. Foi um dos fundadores da VDID, a associação de profissionais alemães, uma das primeiras reconhecidas pelo ICSID e que já trabalhava desde o final dos anos 50, pelo reconhecimento da profissão no país. Já tinha uma atuação profissional, com vários produtos premiados com o IF em Hannover, o Oscar do Design.

Nascido em Freudenstadt, na Floresta Negra, tinha estudado em Stuttgart com Herbert Hirsche, ex-aluno da Bauhaus. Trabalhou em indústria, na Alemanha, foi assistente de Robert Gutmann na Inglaterra. Dentre seus projetos se destacaram o primeiro sistema modular de superestrutura e interiores para navios, para a Blohm+Voss, o primeiro gabinete para a TV em cores da Blaupunkt, diversas cadeiras para a Walter Knoll, hoje consideradas clássicas, mobiliário para escritório para a Stoll Giroflex, dentre outros.

Em Braunschweig, Votteler tinha um escritório bem equipado e com equipe multidisciplinar envolvido em projetos diversos, como uma proposta de habitação para o futuro, sistemas de mobiliário para cozinhas modulares, equipamentos de som, etc. Na escola, além de dar aulas na graduação foi responsável pela criação, em 1970, do primeiro curso de pós-graduação da Alemanha, em nível de mestrado, de Design Ambiental, para onde se transferiram diversos ex-alunos da HfG Ulm, que acabara de fechar as portas.


Tive a feliz privilégio de estudar e trabalhar com ele, já que vinha de uma passagem pelos Estados Unidos, onde tinha ido estudar, sem suporte financeiro de nenhuma espécie. Reagan era governador da Califórnia, onde eu estudava na UCLA e criou uma taxa extra para estudantes estrangeiros que me impedia de continuar o mestrado, recém iniciado. Votteler, para quem escrevi, relatando meu problema, recebeu-me de braços abertos, admitindo me como seu aluno na HfBK, justamente no curso recém criado, me ofereceu um estagio em seu escritório, que ficava convenientemente ao lado da escola. Isso permitiu me manter em Braunschweig, no norte da Alemanha por mais quatro anos.

Para minha felicidade o projeto da habitação para o futuro, W’80, uma pesquisa para a BASF, estava em andamento e fui alocado nele, como parte da equipe responsável pela ambientação final e prototipagem. Um projeto único e desafiador, o de prever o futuro na habitação. Com isso aprendi outro ensinamento fundamental: o trabalho em equipe. Em design ninguém faz nada sozinho. É essencial o trabalho em equipe e mesmo o designer autoral não escapa de depender de terceiros, ou colaboradores, direta ou indiretamente. A valorização do trabalho em equipe foi sempre uma característica acentuada por Votteler e que me marcou fortemente. Esse princípio veio reforçar o que praticávamos na ESDI, durante nossa formação.

Votteler já tinha montado um programa de intercâmbio, com escolas fora da Europa, especialmente com os alunos e professores da Ohio State, nos EE.UU. Tínhamos então constantes visitas, além de muitas atividades de profunda inter-relação cultural e de experiências diversas. Como Votteler mantinha relações com o NID, escola de Ahmedabad, onde tinha lecionado, convivi, no meu primeiro ano, com estagiário desta escola da Índia, o que foi culturalmente impactante, se contrapondo ao pensamento funcionalista alemão, reinante na época. Esta visão holística do design e sua aplicação universal foi muito enriquecedora e me abriu novos horizontes. Isso marcou-me de tal forma que iniciei, mais tarde, um programa semelhante na ESDI, durante um dos meus mandatos como diretor. Ao definir sua importância, Votteler usava uma figura de retórica muito interessante a respeito: dizia que você olha a sua mão (o design) colada ao nariz, você precisa, afastar a mão para vê-la na totalidade! Essa era a função essencial num intercâmbio. Aprender sobre a sua realidade, afastando-se dela, pois assim consegue vê-la de forma critica e na sua totalidade. Nada mais verdadeiro, devo dizer.

Anos depois Votteler mudou-se para Stuttgart, onde foi suceder a seu mestre Herbert Hirsche, que se aposentara. Na Akademie onde lecionou até se aposentar sempre promoveu discussões muito intensas no Weissenhof-Institut que lá criou. Estes seminários e exposições que promoveu, resultaram em publicações importantes para o desenvolvimento do design alemão contemporâneo. Ele acreditava na “multi- funcionalidade”, significando que um objeto ou solução deve extrapolar sua função sempre, oferecendo algo a mais além de sua natureza especifica. Em todos os projetos em que trabalhamos essa era a tônica. Outro princípio que defendia era que se deveria sempre respeitar a última ideia, ou seja, se um projeto esta pronto para ser apresentado, caso surja uma nova ideia melhor, deve ser revisto, antes de apresentado, mesmo que custe atrasos. Isso às vezes causava grandes frustrações na equipe, pois na vigésima quinta hora tínhamos que revisar o que seria apresentado, pois ele tivera uma ideia melhor. Ele estava certo, já que isso quase sempre se justificava!


Sua experiência, de anos, tinha lhe dado alguns conceitos, que Votteler respeitava com muita convicção: somente trabalhava para clientes que ele pudesse considerar como eventuais amigos, o que muitos se tornavam ao longo do processo. Isso não significava que todos o fossem, mas poderiam ser, se assim a realidade os tornasse. O diálogo com os clientes ele praticava diuturnamente, ouvindo suas necessidades, suas angústias, suas dificuldades. A muitas delas ele se opunha, sempre com argumentos sólidos e estudados quando necessário. Eles o respeitavam por isso e tudo acabava em lautos jantares, em sua casa, servido por Dori, sua esposa, acompanhados de vinhos exclusivos de sua adega. Sempre foi um prazer trabalhar com ele e seus clientes.

Arno Votteler foi, para mim, uma verdadeira escola, além de minha graduação e de tudo que aprendi com outros mestres. Ele, que se tornou um verdadeiro amigo, me propiciou grande parte do que sei e que faço questão de passar aos meus colaboradores e alunos, sempre que a oportunidade se apresenta. Uma verdadeira legenda para mim.
Valeu e muito Arno Votteler! 

Arno Votteler - 25/05/1929 - 28/02/2020


A Design Legend

I met Arno Votteler  in 1967, when I was a student at ESDI, the Brazilian design school in Rio, and he a guest lecturer giving a course about chair design. He was in Brazil, at Giroflex in São Paulo, to introduce a new line of office chairs that he had developed recently in Europe.

It was a very short course, but important, because of the principles he introduced to us, like conceiving a product as a system and considering the innovations and ergonomics. These were an absolute novelty at that time. He proposed products composed of common interchangeable parts, that would create new chair models as part of a collection, enlarging the users’ options, and envisaged dynamic seating, in which the user can assume different seating postures with the chair giving equal support to each posture. Those principles became part of my design practice from then on.

Votteler was a professor at the HfBK Braunschweig, in Northern Germany and had a very influential career in the local scene. He was one of the founders of the VDID, the German professional designers association, one of the first recognized by ICSID, and the one that was involved from the 50s in the accreditation of the profession. He had a quite successful professional career, with several products awarded the IF in Hannover, the Design Oscar.

Born in Freudenstadt, in the Black Forest, he studied in Stuttgart under Herbert Hirsche, a former Bauhaus student. Votteler worked for industry in Germany and was an assistant to Robert Guttmann in Britain. Among his projects we could point out the modular system for the interiors and superstructure for cargo ships by Blohm+Voss, the first color TV cabinet for Blaupunkt, several chairs for Walter Knoll, today considered classic pieces, office furniture for Stoll Giroflex, and many others.

In Braunschweig, Votteler had a design office, well-equipped and with a multi-functional team involved in diverse assignments, like a living environment for the future, modular system for kitchens, sound equipment, etc. At the school, besides giving classes to undergraduate students, in 1970 he created the first graduate course in Environmental Design in Germany, which was attended  by several  former students from the HfG Ulm, then recently closed.

I had the luck and privilege of studying and working with him, since I came from a stay in the US where I had gone to study, without any extra financial support. Reagan was governor of California, where I was at UCLA, and imposed extra tuition fees for foreign students that prevented me from continuing my master studies, recently begun. Votteler, to whom I wrote explaining my problem, accepted me with open arms, admitting me as a student at the HfBK, just as the new course opened, and offered me a internship at his office, conveniently located right across from the school premises. This made it possible for me to stay in Braunschweig, in the North of Germany for another four years.

In another happy coincidence, Project W80, researching the living environment for the future for BASF, was in its middle phase, and I was assigned to it as part of the team responsible for the final layout and prototype. A unique and challenging project: to propose the future of our living environment. With this I learned something fundamental: team work. In design nobody can work alone. Team work is essential in design, even the individual designer depends on third party suppliers or collaborators, direct or indirectly. Team work was always accentuated by Votteler and that impressed me very deeply. These principles came to reinforce what we had put into practice as students at ESDI, in Rio.


Votteler established an exchange program with design schools outside Europe, especially with students and teachers of Ohio State, in the US. Through that we had constant visits and other activities of strong cultural inter-relations, and diverse common experiences. As Votteler had relations with NID, the Ahmedabad Design school, where he taught, we had a Indian practitioner from this school during my first year. That had a great cultural impact on me, since it was a true counterpoint to the German functional thinking supremacy of those times. This holistic design view and its universal application were very enriching to me and opened new perceptions of the field. This was so important that later I began a similar program at ESDI during one of my mandates as Director. When supporting its importance, Votteler used a very interesting rhetorical figure: He said that when you look and see your hand (design) close to your nose, you have to move it away if you want to see it in its completeness! That was the purpose of an exchange program: learning about your own reality by taking a step back from it, so that you can see it critically and in its totality. Nothing but the truth I must say!

Years later Votteler moved to Stuttgart, where he was to succeed his master Herbert Hirsche when he retired. At the Akademie where he taught until retirement he promoted intense discussions and events at the Weissenhof Institut he established there. The seminars and exhibitions he organized resulted in important publications for the development of contemporary German design. He believed in “multi-functionality”, meaning that an object or solution should always go beyond its primary function, fulfilling more than its core purpose. In all the projects we worked on that was the tone. Another of his principles was that we had always to implement the latest Idea. That meant that whenever a project or solution was being prepared for presentation, if a better Idea arose, it had to be included in the final presentation, even if costs were incurred. That caused the team great frustration, because at the last minute we often had to revise all that was done and ready for presentation, since he had had a better idea. But he was right and it was always justifiable.

In his long experience, Votteler had many concepts and beliefs and his motto was that he would work only for clients who could be eventually considered as friends. That didn’t mean that all became friends, but they could if things worked out well, and many did. He maintained a constant dialog with clients. He listened to their needs, their difficulties, and their afflictions. Many views he opposed, but always with solid arguments when necessary. Clients respected him for that and it often all ended in magnificent dinners in his house, served by Dori, his lovely wife, with some very good wines from his cellar. It was always a pleasure to work with him and his clients.

Working with Arno Votteler was for me a true education, after my graduation and all I’ve learned with other masters. He turned out to be a good and special friend over the years, and gave me much of what I know. I do my best to pass on this knowledge freely to my students on any occasion I get. A true design legend for me!
It was very much worthwhile, Arno Votteler!
 

segunda-feira, 5 de março de 2018

O retrocesso do móvel popular



Mesmo com o progresso nos processos de manufatura, com a divulgação pelas redes sociais, com a existência de bons exemplos mundiais, neste início de século XXI continuamos a regredir em áreas onde isso não seria concebível. O setor de mobiliário popular é um deles. Nos dias de hoje o mobiliário popular, que é oferecido ao consumidor brasileiro é pior do que em meados do século passado, tanto em design como em qualidade. 

Este raciocínio nos ocorreu logo após a notícia do falecimento de Ingvar Kamprad, há poucas semanas, o fundador e presidente da rede de lojas IKEA, espalhadas pelo mundo. A IKEA foi uma das precursoras da difusão do móvel popular  qualidade pelo mundo, iniciado no final dos anos 60, junto com a Habitat, esta de origem britânica, e que hoje faz parte da rede IKEA. Estes dois exemplos mudaram o paradigma do que é um móvel popular, de preço justo, mas com funcionalidade, design e qualidade, para atender a um publico diferenciado, nascido no pós-guerra. A IKEA nasceu em uma pequena cidade do interior da Suécia e se tornou a maior rede de venda de móveis e acessórios para a casa do mundo, com 400 lojas e presença em todos os continentes, menos na América do Sul. Kamprad foi o milionário europeu que frequentou o primeiro lugar do ranking por longos anos. Sua filosofia de vida foi que norteou a fundação da empresa e a feição de seus produtos, que tiveram sucesso quase que instantâneo. Ele percebeu a emergência de uma classe popular de consumidores com necessidade de mobiliário de qualidade, mas com preços populares.

O interessante é que nos anos 70 houve um interesse da IKEA e da Habitat (então ainda independente) em vir para o Brasil, como um inicio de uma possível operação em nosso continente. Estiveram aqui em missão exploratória mas desistiram após alguns estudos. Já operava em algumas cidades brasileiras uma cópia delas, a rede Tok&Stok, com produtos muito semelhantes mas a preços muito mais caros, comparativamente, aos praticados por eles em suas redes. A proibição de importar peças de mobiliário praticada na época foi um dos fatores que os impediram de ir a frente. Isso significaria produzir todo o seu catalogo aqui, e com nossos custos inflacionados, o que impediu a viabilidade do negócio. Isso também impediu que nos tornássemos fornecedores deles, mesmo havendo algumas iniciativas de empresas nacionais, o que detalharemos em outro post. Este é um dos exemplos internacionais a que nos referimos no início. Se estas tentativas tivessem se concretizado, poderíamos ter outro patamar de qualidade de mobiliário e acessório, atendendo ao nosso consumidor popular. Certamente estabeleceria um novo paradigma para o setor.

O que temos hoje é abaixo da critica. Um mobiliário popular construído com péssimo design, acabamento pífio, detalhamento abaixo de qualquer critério, que não suporta o uso diário, nem uma mudança sequer, sem possibilidade de manutenção, com materiais e acabamentos que não suportam um copo molhado, sobre um tampo de mesa. O resultado é que há uma invasão de produtos chineses de baixo custo competindo com o produto nacional, com sérios problemas para a indústria local. Uma indústria que sempre teimou em privilegiar custo sobre qualidade, nivelando assim seu mercado pelo menor nível possível, hoje sofre as consequências. Não criamos uma cultura da qualidade, o que dirá do design.

O design de nosso mobiliário peca por uso de placas de MDF com revestimento de péssima qualidade. Itens desmontáveis, mas com ferragens de baixa resistência e com acabamentos de parafusos aparentes, com capinhas que se desprendem e se perdem facilmente. Excesso de cromados e parafusos aparentes, no mobiliário metálico, com tubos de espessuras inadequadas, facilmente deformáveis ao se arrastar uma mesa. Cadeiras com acabamentos em chapa metálica sem o necessário desbaste, ocasionando bordas cortantes, além de estofamentos de baixa qualidade e conforto.

Quando os móveis são de madeira há exemplares de cadeiras pesadas demais, para um reles mortal, ou leve demais para se confiar em sentar nelas. Mesas de diversas alturas, com travessas que não permitem ao usuário sequer cruzar as pernas.  Quanto aos armários fazem o maior efeito enquanto vazios. Ao serem carregados temos logo o efeito das prateleiras vergando e das portas empenadas e sem fechar se faz sentir, fruto do mau dimensionamento das placas utilizadas e de sua resistência. No caso dos estofados as dimensões são tão estapafúrdias que dificilmente caberão numa sala de Minha Casa Minha Vida! 

Basta fazer uma turnê por uma rua de lojas de mobiliário popular, em qualquer cidade brasileira para se constatar estes fatos. A pergunta que fazemos é será que o consumidor popular tem que pagar este preço e ter um produto que já sai da loja com prazo de validade? Não há a possibilidade dos órgãos de normalização ou de defesa do consumidor fiscalizar estes produtos e dar-lhes uma classificação, que sirva para o consumidor saber o que está comprando? Como é realidade em outros países?

O suado dinheiro do consumidor popular deve ser protegido deste tsunami de baixa qualidade que lhe é oferecido. O nosso consumidor popular, merece ter um retorno de qualidade e o design tem um papel fundamental na geração de produtos que durem alguns anos a mais, além da duração das suadas prestações que ele paga.

A indústria e o comércio de mobiliário popular tem que tomar consciência urgente disso, para sobreviver e atingir patamares de maior valor agregado, fornecendo produtos melhores a população brasileira.

Texto não publicado

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Retomando o Blog


Aos seguidores deste Blog devo desculpas pela sua interrupção, por um longo tempo. Estamos retomando as publicações com os temas que nos propusemos no seu inicio e em especial ressaltando os últimos desenvolvimentos de nossa área, de forma critica, provocando alguma discussão, sempre que possível.

O texto a seguir relata muito bem o que tem acontecido em nossa indústria, por um de seus protagonistas. O designer Newton Gama esteve a frente do setor de Design da Whirlpool, por longos anos e foi junto com sua equipe, responsável pelo sucesso dos produtos deste conglomerado. Este texto demonstra bem que o desmonte da capacidade criativa em nosso país tem diversos atores. As multinacionais, que sempre se utilizaram em larga escala do design brasileiro, e com sucesso, estão nos tempos atuais colaborando de forma negativa neste processo. O texto de 2016 é muito atual, merecendo a republicação que estamos fazendo.






O triste fim do Design

Recebi a triste notícia de que a Whirlpool, que é detentora das tradicionais marcas brasileiras Consul e Brastemp, decidiu fechar a área de Design no Brasil. Alguns designers ainda permanecem na empresa, mas ligados a gerentes de outras regiões do mundo que não conhecem nossa cultura.

Encerra-se neste momento um ciclo virtuoso do Design brasileiro, iniciado na década de 60, quando a Consul contratou o designer, formado pela Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ESDI), Freddy Van Camp. Esta foi a primeira semente plantada na indústria brasileira de eletrodomésticos. Durante quase 50 anos as áreas de Design, através de estudos e pesquisas, mapearam as reais necessidades e anseios da consumidora brasileira, desenvolvendo produtos que consideravam aspectos sociais e culturais, de uso e de costumes, de preferências estéticas e de identidade. Até então todos os produtos oferecidos no mercado brasileiro eram projetados observando hábitos de uso e costumes norte-americanos ou europeus, que tem identidades e peculiaridades diversas da brasileira.

Ao longo dos anos 70, 80 e 90, a partir da iniciativa da Consul e Brastemp, todas as demais marcas, de diferentes segmentos, passaram a se preocupar em entender profundamente o nosso consumidor, o que além contribuir para o desenvolvimento de linhas de produtos de alto valor agregado, muito adequadas e sintonizadas ao mercado brasileiro, colocou o Design como fator estratégico para a vantagem competitiva das marcas. Isto porque o Design traduz em linhas e formas os desejos mais sutis do consumidor.

Nos anos 90 o Design da Consul e Brastemp passou a ser exportador de design na medida em que a empresa multinacional que adquiriu estas tradicionais marcas reconheceu a competência e expertise da área. A Whirlpool então passou a utilizar a equipe de design do Brasil para executar projetos para a Europa, China, Índia, México e até para os USA, sede da empresa. Como parte de um processo integrado, as equipes de tecnologia também tiveram o mesmo reconhecimento.

Foi evidente e flagrante o avanço que o Design Brasileiro obteve em todos os setores, nas décadas de 1990 e 2000. Empresas competidoras passaram a contratar estúdios ou criar grandes áreas de Design para o desenvolvimento dos produtos e, conseqüentemente, do próprio Design brasileiro. Dezenas ou mesmo centenas de designers participaram deste processo, em todo o Brasil.

O Design brasileiro ganhou o mundo. Em todos os segmentos da indústria passou a ser adotado e respeitado pela sua forma de pensamento e devido à sua facilidade de relacionamento com as áreas pares de Marketing e de Engenharia. Esta é uma característica que nos diferencia e que não é efetiva em outras culturas do design, como na Europa e nos Estados Unidos. Durante as recessões e nos períodos de inflação altíssima, o Design serviu como estratégia de apoio em conjunto com o Marketing e Engenharia para recuperação de mercado.

Portanto não se justificaria o corte do design em função de contenção de despesas ou quedas nas vendas, quando na realidade o design sempre foi um elemento chave para recuperação do mercado. Durante o período do fracassado plano Collor, quando as fronteiras e o mercado brasileiro foram abertos e produtos do mundo inteiro desembarcaram no Brasil, várias empresas fecharam suas áreas de design. A Bosch foi um exemplo, com a idéia de que a globalização havia finalmente se estabelecida. Produtos asiáticos inundaram nossas lojas, mas foi impressionante a reação dos consumidores em rejeitá-los, considerando-os estranhos, exóticos, inadequados e ineficientes a nossa cultura de uso. Várias empresas, inclusive a Bosch, foram obrigadas a reestruturar as áreas de design porque o consumidor não quis comprar produtos com a identidade germânica. E muito menos a total falta de personalidade e identidade, para os padrões brasileiros, dos produtos asiáticos.

Hoje vemos um cenário onde os novos executivos “hight potencial” limitam-se a replicar produtos, preocupando-se apenas em executar as ordens da matriz, não defendendo com determinação, responsabilidade e conhecimento as tradições, costumes e valores do consumidor brasileiro. E aos poucos vão destruindo uma história de sucesso, reconhecida e admirada pelos brasileiros. As marcas Consul e Brastemp construíram com competência, durante décadas, uma relação de confiança com o seu consumidor, graças ao respeito que profissionais de alto valor dedicaram a

Não apenas as áreas de design estão sendo desativadas. Áreas de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento estão sendo eliminadas. Centenas de profissionais de alto nível, que na impossibilidade de colocar toda sua originalidade, criatividade e ousadia em benefício do País, buscam hoje colocações além mar. Sorte de países, como a China, entre outros, que terão estes talentos ao seu dispor.

E o consumidor brasileiro vai ter novamente à sua disposição produtos que foram desenvolvidos para outros mercados, recebendo apenas uma “maquiagem” para ficar com cara de um produto brasileiro.

Fica um “gap” e oportunidade para as pequenas e médias empresas brasileiras que a partir daí poderão crescer utilizando exatamente a mesma estratégia que Consul e Brastemp utilizaram no passado. Estudar, conhecer e aplicar nos produtos a perfeita identidade do consumidor e ganhar o market-share dessas grandes empresas míopes.

Outro grande problema é que as pequenas e médias empresas Brasileiras ficam embaçando e relutam muito em assumir o DESIGN, como ferramenta estratégica. Preferem copiar, deixar um designer ofuscado no meio de engenharia "quebrando um galho" e relutam em fazer este investimento, que é mínimo perto de todas as perdas que tem com os outros erros que cometem e pela falta de investimento no DESIGN.

Essa MIOPIA existe na indústria Brasileira, e mesmo com muitos exemplos já comprovados, os administradores e engenheiros acham que podem sempre, ir "quebrando o galho". E perdem a grande oportunidade se tornarem líderes de seus segmentos. E Isso vale para tudo que pode ser feito com o auxilio do DESIGN.

AS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS BRASILEIRAS, TAMBÉM SÃO MUITO MÍOPES, INFELIZMENTE A CAPACIDADE E O POTENCIAL DOS DESIGNERS BRASILEIROS VÃO MUITO ALÉM DO QUE ESSES EMPRESÁRIOS PODEM IMAGINAR. QUEM ESTÁ EM CRISE, PRECISA DE DESIGN PARA SAIR DELA.

DIFÍCIL CONVENCER AS EMPRESAS COM POUCO ARROJO E INICIATIVA.

Newton Gama – Designer brasileiro

Texto publicado no Facebook em 12/03/2016


Um comentário adicional:
Desde a publicação acima o panorama da indústria brasileira de eletrodomésticos foi muito alterado, não só pela recessão econômica, mas pela alteração dos “players” que dominavam este setor, na sua maioria marcas globalizadas que adquiriram facilidades fabris de empresas nacionais. Nestes últimos anos diversas marcas deixaram o mercado, criando assim impasses para o nosso consumidor e usuário. A falência do grupo MABE, por volta de 2016, retirou do mercado as marcas DAKO, GE, Continental, e Bosch, deixando milhares de consumidores sem nenhum recurso de assistência técnica, milhares de trabalhadores sem emprego e um acervo tecnológico e de design perdido. Outras marcas surgiram, produtos importados foram ocupando os nichos de mercado e o panorama geral permaneceu instável até o momento. Recentemente foram leiloadas, pela massa falida da Mabe, as marcas Dako e Continental, que foram adquirias pela Electrolux, mas ainda sem previsão de serem relançadas no mercado.

Freddy Van Camp

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Design interno ou externo?


Uma pergunta que é feita com frequência é se devemos ter o design dentro da empresa ou se podemos ter apenas o design contratado, quando necessário. É claro que cada caso é um caso, mas tendo em vista as experiências que observamos em empresas de diversos portes podemos elaborar algumas considerações úteis que tentem formular uma resposta essa pergunta, especialmente nesta época de terceirização desbragada..

Há empresas que se utilizam intensamente de design e há aquelas que se utilizam do design de forma intermitente. Há empresas que mesmo que se utilizem do design de forma intermitente necessitam de um acompanhamento de sua aplicação no dia a dia. Há empresas que, por razão de custos, necessitam racionalizar a aplicação do design em suas operações, como as micro empresas, por exemplo. Na medida em que o design é um fator de qualidade que a empresa oferece em sua operação, ele necessita ser acompanhado da mesma forma que qualquer outra característica de seu funcionamento. Isso somente será possível, com o design como facilidade ‘in house”. Isto é: um profissional, ou uma equipe, que pertença ao "staff" de empresa de forma permanente, o que pode ou não ser possível dependendo de seu porte.

Empresas de uso intensivo de design optam, por razões funcionais e econômicas, em ter um “staff” interno, na forma de um departamento que desenvolva todas as suas necessidades referentes ao design. A eficiência de ter esta equipe à mão, sempre que precisar, é notória e óbvia. Mas é patente que isso somente é factível se ela tiver algum porte. Empresas de grande porte, como no caso das montadoras automobilísticas ou nas multinacionais de eletrodomésticos, por exemplo, possuem grandes departamentos de design com dezenas de profissionais e boas facilidades de uso, como estúdios bem equipados e oficinas de suporte. As automobilísticas tem até Vice Presidências para o setor.

Isso nem sempre é possível em empresas médias ou pequenas. A estas resta contratar um profissional autônomo ou um escritório de design para atender as suas necessidades de projeto. Podem existir situações onde profissionais ou escritórios sejam também contratados por empresas que possuem design interno, mas para atender a demandas especificas ou pontuais, que não possam ser atendidas por seu pessoal interno, por não possuírem uma especialidade especifica ou mesmo em momentos de grande solicitação.

Um exemplo histórico nos foi dado por Aloísio Magalhães, um dos pioneiros do design brasileiro. Criador de imagens empresariais emblemáticas e famosas como da Souza Cruz, de Furnas, do Banco Nacional ou do Jornal do Brasil, em seu escritório. Ao implementá-las conseguia que um ex-funcionário seu fosse contratado pela empresa em questão. Isso fez surgir, em cada empresa, um pequeno departamento que zelava pela correta preservação e manutenção da imagem criada, quanto ao projeto original bem como resolvia problemas “had oc” que pudessem aparecer durante a implantação ou em situações subseqüentes. Na sua maioria estes departamentos cresceram e se tornaram permanentes e atuaram de forma muito eficiente ao longo dos anos.

Infelizmente estes bons exemplos nem sempre são seguidos. Como exemplo, tomemos o Metro do Rio de Janeiro. A empresa possuía uma imagem empresarial da época de sua inauguração, que foi atualizada quando de sua privatização. Desde então a empresa contratou designers de notório saber para reestudar essa imagem como os escritórios Design Redig, Ana Couto Design e mais recentemente Crama Design. Esta última implantou recentemente uma novíssima sinalização nas principais estações de suas linhas.

No que pese a qualidade dos projetos implementados, o que se observou até aqui é a falta de um staff interno de design na empresa, que não zelou pela integridade da implantação destes projetos, alguns deles abandonados precocemente. As estações, os guichês e carros dos trens ostentam inúmeros itens de projetos anteriores, que são visivelmente incompatíveis com o projeto atual. Há placas da primeiríssima versão da imagem do Metro, convivendo com itens de sinalização de todos os projetos subseqüentes causando um verdadeiro caos visual que muitas vezes confunde os usuários deste meio de transporte, tão essencial à uma metrópole como Rio de Janeiro.

Observamos incoerência cromática em várias situações, uma falta de iluminação adequada sobre a sinalização, há divergências nas alturas de aplicação de determinados sinais, há estações que não podem ser identificadas pelos usuários de dentro dos trens, há situações de luz diurna e outras de luz artificial nem sempre constante, enfim uma situação muito complexa de design. Esta situação dificilmente será resgatada pelo projeto novo, devido justamente a falta do design interno na empresa, que não só zele pelo projeto da vez mas que, antes de mais nada, levante as situações diversas do problema, testando soluções ou adaptando-as caso a caso.

Por melhor que seja o projeto deste porte não há como um designer externo implementá-lo corretamente sem suporte interno efetivo, permanente e incondicional. Daí a falta que faz um departamento, ou uma equipe interna para suprir esta função.

Algumas considerações sobre tipos de aplicação e de empresa.
Empresas com grande uso de design, multinacionais ou proprietários de marcas famosas freqüentemente tem suas próprias equipes de design. O pensamento por traz disso varia: algumas empresas mantém, ou mantiveram, equipes por muitos anos. Hoje em dia abandonam este conceito e agora utilizam serviços terceirizados. Não há duvida, porém que a vantagem de se ter uma equipe “in house” se deve a sua familiaridade com o produto e na expertise adquirida.
Muitas dessa equipes estão envolvidas principalmente com problemas de desenvolvimento técnico e engenharia, mas ainda são adeptas do design. Seus conceitos de design serão certamente discutidos com os departamentos de produção e com fornecedores, promovendo-se a partir daí soluções de design perfeitamente factíveis.

Designers gráficos e de produto podem ser parte da equipe “in house”, dependendo das atividades da empresa. Como recurso interno da empresa seu tempo deve ser plenamente utilizado. Talvez por isto, raramente tenham o tempo para fazer pesquisas ou se envolver na avaliação de mercados. Isso pode ser uma generalização injusta, mas parece que há freqüentemente um talento domestico não descoberto por pressões das tarefas do dia a dia.

Os designers fora da empresa têm a vantagem de uma visão fresca além do entusiasmo por um novo desafio. Trabalhar dentro freqüentemente parece produzir soluções mais seguras do que conceitos de maior desafio. Onde isso ocorre há um problema gerencial. Se equipes de design “in house” receberem o mesmo estimulo e recursos que as consultorias externas, elas certamente contribuirão de forma mais efetiva para as empresas que as empregam.

O uso de um designer consultor pode ser um reforço ao departamento interno da empresa. Há uma complementaridade entre os dois. Como o designer interno fica muito atarefado com as atividades do dia-a-dia, um consultor externo pode servir de provocador de novos projetos, um reforço para o “in house” especializado, valorizando-o inclusive.

Nas microempresas não há a possibilidade de se empregar um designer interno de forma permanente. Elas são sempre candidatas ao uso de consultores ou designers externos ou a comprar os serviços de design no momento de sua necessidade. É mais econômico e eficiente, pois ele pode ser utilizado somente quando necessário, economizando-se um custo permanente. O uso de um designer consultor pode ser útil nesta necessidade localizada, na procura temporária de outras especialidades ou ainda como um reforço em tempos de muitos projetos.
E então? Design interno ou externo?  Depende, de cada empresa ou caso!

Os dois sempre estarão presentes, quando conveniente!


Texto não publicado. Junho 2015

Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009