Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Design parou!? Parou porque???

Estamos no final do ano de 2025, hora de fazer um resumo do ano e de refletir sobre o futuro. E como anda o design brasileiro? É uma pergunta que fazemos desde sua instituição a mais de 60 anos.

Todos sabem que este pais, com todas as maravilhas que possui, têm um processo de idas e vindas em tudo o que empreende. Assim é também com o design, uma ferramenta que programou na época, como auxiliar ao seu desenvolvimento. Tudo iniciou com o estabelecimento de uma entidade de ensino, seguiu na formação de uma classe profissional, e continuou com uma política de estado e de fomento ao seu uso por toda a economia. Mas ultimamente de se acomodou em um marasmo e um desalento inimaginável, para um país com o potencial que possui! Literalmente o design se acomodou no “status quo”, com os seus agentes simplesmente reduzidos a  “pedalar o mínimo para a bicicleta não cair”.                  

 O Design parou!!! 

Vamos recordar alguns fatos emblemáticos: Comemoramos este ano 10 anos sem um programa de fomento nacional oficial. O ultimo resquício foi a Bienal Brasileira de Design realizada em 2015, em Florianópolis.  Oficialmente tivemos estabelecido em 1996 o PBD Programa Brasileiro de Design, por entidades como o MDIC, BNDES, FINEP, CNPq, CAPES, PACTI, RHAE, com apoio do INPI, INMETRO e ABNT, além do SEBRAE, CNI e SENAI. Muita gente, não podia dar certo, como não deu. O objetivo “máximo” era “O Brasil mostra sua marca”. Mostrou??? Após a bienal de 2015 o programa se auto-extinguiu sem nenhuma explicação.

                          Inauguração da Desenho Industrial 68 -MAM Rio de Janeiro a 1ª Bienal de Design Brasileira  

Devemos lembrar que o Brasil foi pioneiro em estabelecer bienais de design no mundo, com a realização da 1ª Bienal em 1968, no MAM do Rio de Janeiro. De lá para cá tivemos o estabelecimento de dezenas de Design Centers pelo país, com apoio dos estados e das federações e entidades de classe. Poucos sobraram ou se acomodaram em suas regiões ou áreas de interesse, sem expressão nacional e sem chegar ao publico, como um todo. Um dos poucos é o Centro Design do Paraná, hoje denominado Centro Brasil Design estabelecido em 1996, com boa abrangência local e regional mas, com relativa relevância nacional. O CBD é representante no Brasil do IF Design, o premio internacional mais importante, onde o design brasileiro brilha, ano após ano. Entretanto, com pouco reflexo interno, especialmente no nosso meio empresarial. Acaba se resumindo em uma festividade de designers para designers.

A participação brasileira neste premio já teve outra faceta importante, quando era patrocinada pelo meio empresarial, por intermédio do Design Excelence entre 2003 e 2009. Foi onde o design brasileiro passou a brilhar no exterior. A pergunta é: além de brilhar exportamos nosso design? Quais os resultados deste brilho inegável???

Infelizmente não há dados sobre isso disponíveis. Ninguém fez ou faz levantamentos a respeito. O que sabemos é que estamos exportando designers, profissionais talentosos, bem formados e com alta demanda. Só na indústria automobilística temos alguns designers brasucas reinando em suas empresas lá fora.  O mesmo acontece na indústria de linha branca, de mobiliário ou em estúdios de design internacionais fundados por nossos patrícios, dentre outros. Estes talentos procuram lá fora as oportunidades que não encontram aqui 

Continuando no nosso cenário interno, carecemos de maior organização profissional. A par de alguns poucos exemplos regionais, temos muito pouca expressão profissional nacional. A única entidade funcionando efetivamente é a das empresas de design, a ABEDESIGN com sede em São Paulo. Mesmo sendo nacional sua atuação tem mais atuação regional. Promove eventos de interesse da classe com sucesso e um Prêmio Brasileiro de Design, bem organizado e efetivo, mas de pouca abrangência de publico. Mais uma festividade de designers para designers.

Há ainda as associações profissionais setoriais ou regionais, mas cada uma com seus interesses próprios e quase sem expressão, ou ação efetiva perante o poder publico. A classe dos designers tem muito pouca coesão profissional, por isso mesmo com mais de 50 anos de luta continua desregulamentada. Há pouca luta para se atingir os direitos que outras profissões já possuem e que por isso são mais respeitadas. Não conseguimos compreender que o país é corporativista e pagamos um preço alto por isso. Temos projeto de regulamentação em tramitação no Congresso, sem o mínimo lobby e apoio para sua sanção por parte da classe.

Neste aspecto já fomos mais bem representados no passado, alem do PBD tocado pelo MDIC, houve a inclusão do design nas prioridades do MInC, os financiamentos do MCT que hoje se resumem em manter um núcleo de design no INT, que felizmente sobrevive a 50 anos com sua competência. Fora isso pouco temos acontecendo na área federal.

As iniciativas estaduais quase todas minguaram e temos pouca noticia. Acabamos de ter fechado a principal entidade de preservação de nossa cultura material. O eficiente MCB Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, foi desativado sem explicação e sem protestos a sua altura. Com mais de 30 anos de uma premiação inédita, com um acervo que não sabemos o destino, foi simplesmente degolado pelo estado mais rico do pais. É pouco respeito com nossa historia. Temos ainda outra exceção no sul, onde no setor mobiliário, a MOVELSUL realiza concurso e eventos e promovendo o design, mas mesmo assim ainda delimitados a região.

Na atuação profissional estamos nos resumindo a certas “tendências”. O nosso velho design gráfico, ou comunicação visual passou a se resumir ao “branding”. Passamos a ser simples executores de políticas de vendas e sempre a reboque da publicidade. Pouco se fala em comunicação, e há muita procura por atenção na balburdia das redes sociais. Onde o efêmero se sobrepõe ao permanente.

O tal “posicionamento de marca” é a coisa mais transitória que existe. Tudo muda de marca a toda hora, colocando em cheque a tal “consistência da marca” que aprendemos se estabelece com o tempo. Em vez de nos comunicar estamos nos trumbicando, com a ajuda dos nossos designers. Na área da sinalização estamos cada vez mais vendo o “fashion” como constante, nos esquecendo que ainda temos uma população iletrada e com aumento expressivo da terceira idade.

No design de produtos temos setores se rendendo ao “life style” e ao “fashion” transformando o design em um fator oligárquico: só para entendidos, para os de bom gosto, para os que entendem de design. Isso é em parte, fruto da desindustrialização acelerada que vivemos, onde há poucas oportunidades para profissionais no setor produtivo. O que sobrou foi a auto produção, os “makers” que com seus custos mais altos e produtos exclusivos, tende a se dirigir a uma faixa mais exclusiva de usuários e a um informalismo individual. Uma ”uberização” do profissional? 

Há inclusive um flerte expressivo com a arte, onde design tangencia a exclusividade e a expressão individual. Isso pode ser constatado nas publicações e nas mostras que ainda sobrevivem, misturadas a decoração e outros setores e sempre visando “likes” nas redes sociais.

O design não se livrou de virar evento ao invés de um ativo com importância estratégica para nossa economia. A nossa criatividade virou vitrine e não patrimônio, muito desconectada da realidade social do pais. O design como parte de nossa cultura é visto como gasto residual, sem levar em conta sua contribuição para o PIB nacional.

Nos últimos tempos é raro se ver referencia ao design nos planos de reindustrialização, de incentivo a cultura, ou de apoio a ciência e a tecnologia, formulados como políticas publicas, ignorando completamente que ele é o ativo mais barato disponível. Infelizmente não absorvemos o fato de que design é para todos. A qualidade que o design pode atribuir a nossa cultura material deveria almejar ser um direito de todos.

Mesmo com todas as iniciativas pontuais o design nacional caminha para uma estagnação interna. É necessário um grande esforço conjunto de todos os “stakeholders” ligados ao design para que ele vença o desalento e o clima atual. Nosso design precisa recuperar sua posição como estratégia de qualidade, de valor agregado, qualquer que ele seja. 

Precisamos “pedalar muito” para que o design seja definitivamente um fator importante, para que o brasileiro viva melhor, contribuindo para o desenvolvimento econômico e se orgulhe de sua cultura material. 

O talento do design brasileiro merece!!! 

 

 

 

 

 

 

 

  

quinta-feira, 3 de julho de 2025

A hora da virada?

Estamos em um verdadeiro ponto de virada. A era do design global, "culturalmente neutro", alimentada pelo sonho da homogeneização mundial através da integração econômica, está chegando ao fim. Este sonho, apoiado por um modelo de pensamento neoliberal, em parte neo-imperialista, ameaça falhar devido às suas próprias contradições.

Permanece a percepção: o design é novamente levado fortemente para sua origem, em contextos sociais, culturais e industriais. Observamos um retorno ao design como um ato cultural, ou melhor: como uma expressão de uma cultura industrial caracterizada por valores sociais, responsabilidade ecológica e conhecimento local.

O design atual muitas vezes tende a um “mainstream” visualmente suavizado e orientado pela marca, que perde a relação com a realidade da vida do usuário, como Don Norman já criticou. mas agora o design está começando a se orientar novamente para o contexto, para o lugar, para a comunidade, para a função social.

A Alemanha lembra de sua própria história de design: Werkbund, hfg ulm, Bauhaus, Dieter Rams. Uma tradição que se concentra na função, na responsabilidade social e ecológica e na justiça material. A Escandinávia, por outro lado, desenvolverá ainda mais sua identidade de design já forte e historicamente crescida: clara, reservada, centrada nas pessoas. O Japão está novamente aprofundando sua própria lógica cultural da forma, da escolha do material e do significado.

Resta saber se esse desenvolvimento deve ser avaliado positiva ou negativamente. Uma coisa é certa: o design que ignora as condições locais, sociais e culturais não faz jus à sua responsabilidade.

Este campo recém-formado também requer pesquisa, reflexão e compromisso. Devemos acompanhá-lo cientificamente, permeá-lo metodicamente e desenvolvê-lo em termos de design. A relação entre design e cultura, que há muito é marginal, em favor da competitividade global, deve ser movida de volta ao centro.

Está na hora!


Fritz Frenkler

06 de Maio de 2025

Fritz Frenkler é designer graduado pela HfG Ulm.Tem larga experiencia como titular da F/P Design Co com sedes em Berlin e Kyoto. Foi designer da Wilkahan, do Deutsche Bahn eda Frog Design Asia. E professor de design industrial na TU Municch.

Este texto foi publicado no LinkedIn e reproduzido dor gentilesa do autor. Destaques feitos pelo tradutor.

domingo, 1 de outubro de 2023

60 anos de Design no Brasil - Um depoimento!

60 anos ESDI 

 Fui convidado para participar das celebrações 60 anos ESDI. Sinto-me honrado e, com prazer, vou dar meu depoimento, lembrando e contando, “como se fosse ontem”, de idéias, conceitos, influências e das primeiras medidas para a montagem da escola superior de desenho industrial. 

Pedro Luiz Pereira de Souza publicou, em 1996, Esdi biografia de uma idéia, até o momento, o único trabalho completo sobre a ESDI. Passaram-se 27 anos e podemos chamar a obra de Pedro “ESDI – primeiro tempo”; não se conhece nenhum trabalho “ESDI – segundo tempo”. Acho que está na hora de comunicar: “a ESDI não parou” - talvez a partir dos próximos depoimentos, tenhamos um conjunto de dados que podem animar para completar a história dos sessenta anos da nossa escola e, eu garanto, toda comunidade esdiana vai ficar imensamente grata.

 60 anos ESDI 

60 anos atrais, eu morava e trabalhava ainda em São Paulo, junto com meu amigo e colega de Ulm, Alexandre Wollner. Um dia encontramos o prof. Carlos Flexa Ribeiro, acompanhado pelo crítico de arte Jayme Maurício, e nessa ocasião ele falou da intenção de fundar uma escola de design no Rio de Janeiro, pelo Governo do Estado da Guanabara. Fomos convidados a conhecer o projeto. 

Pouco tempo depois, recebemos um convite, para participar numa reunião na Secretaria de Educação e Cultura, no dia 6 de janeiro de 1963. Gravei para sempre está data, porque a partir desse dia, minha vida tomou um novo rumo. 

Na reunião foi apresentado um programa pedagógico para uma escola de design, redigido por um professor vindo de uma academia dos USA. 

Será, que nós chegamos para aquele encontro “preconceituosos”, achando logo, qualquer plano de ensino de design fora da HfG/ulm “é coisa descartável”.? Não foi preconceito, porque é um termo feio, mesquinho, dúbio, mau-caráter e de extrema direita. Mas não quero agora, 60 anos depois, ficar avaliando reações e comportamentos. Nós, Wollner e eu, chegamos para a reunião, seguros e firmes da nossa missão como designers. Daqui em diante vou relatar como iniciei meu discurso “com prazer vou contar, como se fosse ontem” 

Wollner, como eu, frequentamos durante quatro anos a HfG/ulm, estudando e morando lá, fora da cidade medieval Ulm, em cima de um morro, numa comunidade internacional, num espaço fantástico, especialmente concebido pelo Max Bill “para treinar designers”. Lá só se falou “design”, dia e noite, e apesar de vivemos entre grandes artistas, calou-se a “arte”, que era, muitas vezes, usada com certo cinismo, “está fazendo arte”, quando o projeto se desviava de sua objetividade. 

Não me lembro mais dos nossos argumentos, que soltamos neste encontro no Rio; malhamos sim o programa do americano, a gente nada tinha a perder, mas o próprio secretário de educação e os membros da comissão, gostaram de nossa postura meio radical. No final, o Prof. Carlos Flexa Ribeiro perguntou: “vocês querem assumir ?” uma pergunta que pegou a gente desprevenido, sem poder avaliar futuras implicações - topamos. Minha vida, mudou. 

Peço desculpas pela minha arrogância, mas em minha opinião, a ESDI, a partir daquela reunião,“salvou-se”. Não quero imaginar, o que teria acontecido com a nossa escola, seguindo as dicas do “especialista” vindo dos USA 

Na época, Alexandre Wollner e eu, ambos com 35 anos, formados na HfG/ulm, Wollner em CV e eu design de produtos industriais, já trabalhávamos há quatro anos no País; isto quer dizer que já aplicávamos os conceitos e as metodologias treinadas na HfG/ulm, no campo, na prática, na realidade, junto com as indústrias no Brasil. 

Acredito que essas foram as qualificações básicas, exigidas ou imaginadas, para assumir uma tarefa de tal responsabilidade. 

 No fundo, a grande novidade era que o Governo do Estado da Guanabara resolveu implantar uma escola de design não mais no MAM/RJ. Até em Ulm se comentava a intenção do museu de incluir entre suas atividades, o ensino de design. Lembro-me bem das declarações de Niomar Sodré, a diretora do MAM, numa visita em Ulm: “vou fazer a mesma escola no meu museu”. Logo depois, Tomás Maldonado foi convidado para elaborar um programa pedagógico, que ele mesmo denominou como “escola técnica de criação do MAM”.

Em paralelo, o arquiteto do MAM, Affonso Eduardo Reidy adaptou seu projeto para essa finalidade e, aliás, foi o primeiro setor, chamado “bloco escolar” que foi erguido em 1958. 

Eu contei uma vez, aqui na ESDI, da minha emoção, do dia da minha chegada no Brasil em dezembro 1958, passando pela Avenida Rio Branco, chegando até o Aterro, descobrindo o Museu de Arte Moderna. Eu, de braços levantados, delirando:” von dort kommen eines schönen tages die brasilianischen designer” de lá, num belo dia, vão sair os designers brasileiros. 

60 anos ESDI 

Carlos Flecha Ribeiro que era diretor do MAM, tornou-se secretário de educação e cultura e levou o projeto do MAM para o governo Carlos Lacerda, onde encontrou maior receptividade, principalmente em relação ao desenvolvimento econômico do Estado da Guanabara. 

Mas o Museu e o Governo não chegaram num acordo. 

Num lado, tinha o MAM, com um programa pedagógico na mão, oferecendo um espaço “funcional” acho, até “deslumbrante”, para uma escola de design e, no outro lado, estava o governo da Guanabara, empolgado: “para formar designers no seu território.” Infelizmente, o Plano-Maldonado ficou na gaveta do museu; o MAM, é uma instituição cultural privada. 

Nunca foi bem esclarecido, porque o museu e o Governo não chegaram aum senso comum. Eu atuei durante muitos anos no MAM, e nunca tinha visto um documento, ou ouvido uma palavra, esclarecendo esta dúvida. Só posso adivinhar: o museu estava interessado numa subvenção do Estado, mas queria garantias,da preservação do projeto de Tomás Maldonado. Foi uma postura louvável, mas uma pouco fantasiosa, de encontrar uma entidade governamental, “tão moderna” (atenção: é minha conclusão, de Bergmiller). 

O MAM tocou seu projeto arquitetônico: o bloco para exposições e o teatro, enquanto o governo levou o plano da escola de design adiante, mas nos moldes dele: formou uma equipe, mandou levantar e analisar escolas de design no mundo afora e convidou “experts” dos USA e da Inglaterra com o objetivo, de encontrar alternativas ao projeto de Tomás Maldonado. 

60 anos ESDI 

Voltando para o convite de prof. Carlos Flexa Ribeiro, secretário de educação e cultura: “vocês querem assumir?” Já tinha uma comissão formada, já tinha um diretor nomeado, já tinha um programa pedagógico proposto, já tinha o nome da escola definido:“ESDI escola superior de desenho industrial” já tinha o local para a escola escolhido, já tinha a data da inauguração marcada: 10 de julho de 1963.

Só tinha seis meses para fechar eventuais lacunas e a maior dúvida era em relação ao programa pedagógico: O prof. Carlos Flexa Ribeiro e a comissão, entre eles Simeão Leal, Maurício Roberto, Flávio de Aquino, Aloísio Magalhães, Zuenir Ventura, não estavam satisfeitos com as sugestões do professor- consultor vindo dos Estados Unidos, porque já tinham noções do que se passava na época na Alemanha, em Ulm, e conheciam o plano de Tomás Maldonado para o MAM, um documento, já falei, que pertencia ao museu. 

Cabia agora uma longa legenda sobre a conscientização de design no Brasil. Recomendo ler o livro do professor Pedro e talvez vamos chegar numa conclusão juntos: a idéia de criar uma escola de design no Rio de Janeiro tem suas origens já no início dos anos cinquenta, quase no mesmo período do planejamento e da construção da escola de Ulm. 

60 anos ESDI 

O que o secretário de educação e cultura, e a comissão esperaram da nossa colaboração?

Um esclarecimento da didática praticada em Ulm, das inter-relações entre as matérias teóricas e práticas e principalmente os objetivos da formação do designer, no caso da Alemanha, pós-guerra, mas de tradições marcantes como Werkbund e Bauhaus. O que seria a função do designer no Brasil, país que se encontrava ainda numa fase elementar de industrialização? Os métodos de ensino devem considerar isto? 

A HfG/ulm não deve ser vista como escola tipicamente alemã, pois era uma instituição internacional, uma comunidade com 50% de estrangeiros, tanto no número de alunos (5 brasileiros) como na composição do seu corpo docente. 

Saindo da secretaria de Educação e Cultura que funcionava na época na rua Erasmo Braga, o prof. Carlos Flecha Ribeiro se despediu da gente com um abraço: “Então vamos professor Wollner, vamos professor Bergmiller.” Viramos professores com um tapa nas costas. 

Fomos para Evaristo da Veiga 95 a pé, onde uma surpresa, muito delicada, mas inesquecível, esperava por nós: “vimos operários pincelando os caixilhos das janelas e as portas de entrada com tinta branca”- Alex, exclamei, “já estão dando o retoque final na ESDI”: foi o sinal mais evidente para nós: “O Governo do Estado da Guanabara, estava levando o projeto da Escola Superior de Desenho Industrial, a sério, sério mesmo!” 

A reforma geral, daquelas “construções centenárias” foi planejada e executada sob orientação dos arquitetos Maurício Roberto e Frâncico Bolonha, que fazem parte da história da arquitetura moderna no Brasil. Maurício Roberto era presidente do IAB e foi nosso primeiro diretor na ESDI, depois ele dirigiu o MAM. Para mim, o arquiteto Maurício Roberto, foi um dos grandes incentivadores de design no País. Tenho boas lembranças do meu amigo Maurício, acho que devemos muito a ele. 

Agora, me permitam, quero afirmar: a partir de 1963, o centro, o endereço: “design-brasil”, ficou no centro da cidade do Rio de Janeiro, numa área bem reservada, perto dos arcos da Lapa, com entrada pela rua Evaristo da Veiga e também pela rua do Passeio. “Um verdadeiro oásis”. 

60 anos ESDI 

Voltamos para São Paulo eufóricos. Assumimos uma tarefa que não podia ser comparada com uma encomenda qualquer, tratava-se de um projeto “nobre”: design de uma escola de design. Mas sentir a confiança do secretário de educação e o entusiasmo da comissão, foi a base ideal para esta empreitada: “a primeira escola de nível superior de design no Brasil e na América Latina” 

Cabia a nós a seguinte tarefa: assessorar no programa pedagógico / orientar na formação do corpo docente / estabelecer critérios para admissão de alunos / e especificar a instalação da escola. 

Foram muitas “ponte aéreas” e muitas reuniões na secretaria de educação, Flávio de Aquino, redigiu sempre os textos finais, prontos para impressão e divulgação. Flávio de Aquino, assumiu logo depois de Maurício Roberto a direção da ESDI. 

Interpretamos e adequamos o programa da hfg/ulm para a ESDI; isto quer dizer, para o Brasil. Não deve ser entendido como mera tradução para português. Acompanhamos sempre, a distância, depois dos nossos anos em Ulm, a própria evolução da HfG mas avaliando como profissionais atuantes no Brasil. 

Indicamos profissionais da área de CV e DI que atuavam na época, já com sucesso no mercado, para uma eventual contratação. Entrevistamos docentes do quadro estadual, para a futura “equipe” ESDI. Falei “equipe”, pois o objetivo da ESDI era formar designes, uma profissão nova, que requeria uma integração harmoniosa no corpo docente: Matemáticos, antropólogos, historiadores, economistas, engenheiros, sentando na mesa junto com designers, discutindo os objetivos da escola, fazendo ajustes sempre que necessário. 

Uma entidade de ensino, em geral, é julgada pelo nível do corpo docente, mas nós achamos que os mesmos critérios deviam ser validos para as turmas dos alunos. Elaboramos um tipo de vestibular diferenciado, para facilitar e apurar a vocação e o real interesse do candidato para uma profissão ainda desconhecida no país. Chamamos as primeiras turmas da ESDI: “turmas pioneiras” acreditando que elas, uma vez saídas da ESDI, difundiriam a profissão, criando e abrindo o mercado de trabalho para o design. 

Instalar a ESDI deve ser entendido: mesas de trabalho e assentos para todos, máquinas e ferramentas para as oficinas metal/ madeira/gesso, laboratório e estúdio fotográfico, tipografia, biblioteca e livros. Na época quase tudo só era encontrado em São Paulo. Com pouca burocracia e muita confiança conseguimos montar a ESDI dentro do prazo previsto. 

A ESDI nasceu como escola experimental como nasceu a escola de Ulm. Mas experimental não significou “vamos ver o que vai dar”. Para todas ações, os objetivos foram previamente definidos e depois os resultados devidamente analisados, para prosseguir os próximos passos. 

60 anos ESDI 

Nos seus 60 anos, a ESDI gerou grandes designers e muitos “mestres de design”. A ESDI serviu de referência para muitos cursos de design no Brasil. 

O que deve chamar especial atenção: todos diretores da nossa escola, receberem o básico de design nesta casa, um fato, que deve nos deixar orgulhosos. 

Não vou agora começar a enumerar as personalidades que marcaram presença na criação da Escola Superior de Desenho Industrial. São muitos, e sem dúvida, seria uma longa lista, encabeçada por Aloísio Magalhães... Alexandre Wollner,.Goebel Weyne, Zuenir Ventura….da minha parte, só quero acrescentar, não sou fundador; fiz parte sim, de uma equipe de idealistas na implantação da ESDI. 

Até agora não citei a Universidade e peço desculpas, pois nos anos sessenta, ninguém podia imaginar, a ESDI, um dia sendo acolhida e integrada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mas felizmente chegamos lá, seguros e maduros e conseguimos manter até a nossa identidade. 

Acredito que os diretores e ex-diretores vão reportar seus anos de relacionamento ESDI-UERJ exclusivamente positivos. 

Hoje estamos em festa: 60 anos ESDI - parabéns ESDI na UERJ 

Me considero um cara de sorte. 

minha sorte começou em Ulm 

depois recebi a bolsa de estudos para o Brasil 

mas o máximo foi a participação na implantação da ESDI 

foi num momento, em que eu já estava com meus pés firmes no Brasil 

mas a minha cabeça dando voltas ainda em Ulm. 

na escola de Ulm, como na escola do Rio, havia muitas coisas em comum: 

entusiasmo, pioneirismo, idealismo, um pouco de ”comunismo” 

“a vontade de mudar o mundo” 

Max Bill discursou na abertura da Hochschule für Gestaltung em Ulm, dez anos depois Carlos Lacerda inaugurou a Escola Superior de Desenho Industrial no Rio 

duas personalidades do século XX 

Max Bill dinamizou o universo cultural 

Carlos Lacerda sacudiu o âmbito político 

eu, estava presente – no meio da multidão – de terno e gravata emocionado aqui – emocionado lá 

em Ulm, o convidado de honra era Walter Gropius – ex-diretor da Bauhaus 

nós alunos, de serviço – eu de garçom 

num certo momento, Walter Gropius se virou pra mim: 

“Herr Bergmiller, bitte noch ein Glas Wein” 

(Sr. Bergmiller, favor mais um golinho de vinho) ........................................................................... 

como ele sabia o meu nome ? ........................................ 

episódio de 70 anos, hoje comemoramos 60 anos ESDI..... .........................................

e as emoções estão de volta: Viva ESDI - 

Viva ESDI na UERJ 

vamos continuar firmes! 

 

karl heinz bergmiller 24/06/2023

terça-feira, 13 de junho de 2023

Coincidência, inspiração, cópia descarada, falta de pesquisa ou IA???

Nos dias de hoje, há uma proliferação de produção de elementos na nossa cultura material . Há coisas demais, produtos demais, consumo demais, vivemos numa sociedade de afluência exacerbada. Ainda assim criamos novos produtos ou itens alem da nossa necessidade ou por causa dela.

O ”mercado” é o grande incentivador desta tendência. Ele inventou o “Benchmarking” que nada mais é que, a análise do que já se faz para poder fazer de novo e melhor. No caso de produtos novos há a Engenharia Reversa, que é a analise de todo um processo, para se refazer o mesmo, da forma original. São duas ferramentas, para uso no mundo competitivo e estratégico e de alta relevância.

Queremos aqui analisar as cópias no mundo do Design, que continuam a ocorrer, mesmo com toda informação disponível. Produtos de sucesso tendem a estimular a criação de concorrentes. Muitas vezes “forçam” a criar concorrentes. Produtos similares são muitas vezes forçados a existir para garantir a sobrevivência de empresas ou produtores. Os consumidores quase sempre ditam a necessidade de existir concorrentes, para assim evitar domínio e monopólio de mercado. Entretanto nem sempre há sucesso na transferência de competências, na busca do novo ou na formulação de uma nova opção. O “mercado” não gosta de coisas novas, especialmente as não “testadas”, por insegurança. Surgem então as cópias. Especialmente das já aprovadas.

No ramo de mobiliário temos o exemplo da famosa Poltrona Mole do Sergio Rodrigues. Quando lançada, nos anos 50, teve nenhuma repercussão. Bastou ganhar um prêmio no exterior para que proliferassem cópias, ou modelos “inspirados” nela. Sergio contabilizou e documentou 30 copias, algumas feitas por grandes designers brasileiros, seus colegas. O designer italiano Vico Magistretti declarou abertamente que seu Maralunga foi inspirado na poltrona Mole. O sucesso inspira a copia!

Cópia ou inspiração???Sergio e sua Mole.
Um modelo diretamente inspirado.
O Maralunga  de Vico Magistretti   
        
Muitas vezes a copia reduz o investimento e economiza no desenvolvimento pela indústria. É como “seguir o caminho das pedras”, velha expressão que significa pisar no caminho conhecido. Em outros casos a cópia é imposta pela “moda”, pela “tendência” que ditam o sucesso, ou o fracasso, da cultura material de uma época, balizando a criatividade.

Lembro de Alexandre Wollner mencionando a “Nikezação” dos logotipos brasileiros, em uma certa época, onde todos tinham uma curva à moda da Nike. Felizmente esta “tendência” passou.

O que constatamos é que a copia sempre tem vida curta. Como ela é imposta pelas circunstâncias não tem, para o produtor a autenticidade de um original. Daí o pouco comprometimento do copiador com seu produto. Como podemos ver no caso citado da poltrona Mole. Ela sobreviveu, e com louvor, a suas copias antigas.

Em alguns casos temos a transposição de velhas ideias como sendo novas.. Continuando no mobiliário, vemos as versões da cadeira Thonet, no original em madeira vergada, agora produzida em tubo curvado e frequentando muitas copas e cozinhas da atualidade. Um bom projeto revisitado ou revisto em outro material.

Há uma crença de que um sucesso merece ser revisto, o famoso “remake”, tão ao gosto da indústria cinematográfica, com suas continuações eternas de sucessos. Há ainda o fenômeno do “vintage”, onde obras que caíram em domínio público são redescobertas. Um bom exemplo é o do Fusca e do New Beatle, uma tentativa de revalorizar um sucesso anterior.


Mas nos dias de hoje temos um fator que contribui muito para a “uniformidade” das soluções oferecidas ao mercado. Os softwares de modelagem que produzem resultados muito semelhantes, já que os atalhos para projeto são comuns a todos os seus usuários. Isso pode ser constatado nas nossas ruas, com os veículos de última geração. Como exemplo todos os SUVs se parecem, só muda o logotipo, sem o qual deixaríamos de identificar esta ou aquela marca. Essa imagem recentemente divulgada demonstra isso!

Na indústria automobilística os faróis atuais e as formas das carrocerias orgânicas não seriam possíveis sem a colaboração dos modernos softwares de modelagem, que todos utilizam, o que ocorre também  em outros ramos industriais, com resultados muito parecidos. Será que é de proposito???


Ás vezes a indústria provoca a cópia, mesmo sem nenhuma culpa aparente. Numa das ultimas feiras de mobiliário e maquinas, vimos um fabricante de madeira moldada oferecendo peças prontas para a execução da cadeira Costela, do Jorge Zalszupin, recentemente falecido. Qualquer marceneiro ou estofador poderá executar copias deste modelo, muito valorizado pelos modernáriatos, sem dificuldade daqui para diante. Como conhecemos de uma famosa emissora de TV: ”Vale a pena ver de novo”!

Cadeira Costela de Jorge Zalszupin

  Para complicar o cenário temos agora a já polemica IA, a     inteligência artificial, que pode oferecer soluções perfeitas e idênticas a realidade pré-existente. Isso até sem a presença de um designer ou criador, que nominalmente se responsabilize pelo resultado. Ainda mais que temos o recurso do “algorítmo” que determina o que o “mercado” quer, nos escravizando ao senso comum. Podemos esperar por um enxame de produtos e ideias com “inspiração” conhecida e evidente em nosso entorno.

Embalagens parecidas de limpador universal.
Na Alemanha existe, desde 1977 uma ação, que se resume em um concurso anual intitulado PLAGUARIUS, que “”premia” as melhores contra facções encontradas, tanto em produtos como em marcas. Eles tem um museu na cidade de Solingen, com os resultados de cada edição. Há diversos produtos brasileiros exibidos. E chineses também! Pelo jeito eles terão muitos novos candidatos, futuramente. (https://www.plagiarius.com)

 No país temos um sistema de proteção da propriedade intelectual e industrial muito deficiente e falho, que não defende a produção brasileira. Há setores que não registram seus produtos, como mobiliário, por exemplo. Há outros que não tem legislação adequada a sua produção, com as fontes tipográficas e as novas mídias. Há setores que só registram as criações de suas matrizes, como o automobilístico, dificultando o registro de soluções nacionais semelhantes ou melhores. Há casos de aceitação de registro de idéias que já são de domínio publico, prejudicando quem propõe soluções nacionais já aperfeiçoadas.

Na medida em que se privilegia o conceito da “inovação” como única solução para o nosso desenvolvimento, temos que acordar para estabelecer um mecanismo moderno e eficiente de proteção contra a cópia e a pirataria. Afinal a propriedade intelectual é um dos ativos principais de um país.

A economia, a sociedade e a criatividade brasileira merecem isso!        

 

   

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Sistema no Design, na Arte, na Indústria


O fato de Geraldo de Barros ter tido uma carreira tão diversificada e profícua se deve a uma coerência e uma objetividade quase que radical de sua parte. Sua curiosidade nas diversas mídias, e em colocá-las em questão são, uma forma de explorar princípios de atuação e de realização, oriundos de uma lógica predeterminada. Seu conhecimento e exploração da “Gestalt”, seu interesse por suportes e técnicas, por modularidade e sistemas, bem como a necessidade de fazer mais com menos, marcam o interesse que temos, nos dias de hoje, por sua obra.

Observando mais de perto sua trajetória, percebemos que essa lógica era coerente, em todas as suas diferentes formas de expressão. O “jogo de dados” sempre presente, mesmo na obra mais precoce, como a fotografia. Seu interesse “digital” já se mostrava em seus primeiros fotogramas, dos anos 40, onde superpunha cartões perfurados em suas experiências fotográficas. Seu uso de tiras de papel, o foco em sombras cúbicas ou lineares, justaposição de imagens, já anunciavam seu interesse em explorar os elementos da Gestalt, sempre com algum ”sistema” por trás.

 Voltando ao design, isso se vê nas primeiras cadeiras em metal para a UNILABOR, que se resumiam a dois cubos perfeitos superpostos, executada em tubos, ou nos módulos da estante modular para a empresa, tão publicada por ai. Nas suas primeiras pinturas concretas, os cubos em perspectiva cavaleira ou isométrica, estavam muito presentes e demonstravam seu fascínio por esta forma e pela ambigüidade na sua apresentação. Isso se confirmou quando conheceu a obra de Max Bill e dos concretistas, que vinha de encontro a sua experiência com foto e mobiliário.

 Sua experiência industrial veio abrir novas possibilidades de uma combinatória, agora com a exploração de técnicas próprias do ramo. Os móveis em aglomerado recortado e pintado se tornaram uma marca registrada da Hobjeto, onde os cubos passam a ter cantos arredondados e mais adequados ao contato humano. A pintura industrial, o uso de laminados de formica, passou a ser utilizada também em sua obra artística.

 Seus “Jogos de Dados” são uma série de quadros, onde os dados (formas cubicas isométricas) são combinados sistematicamente, com outros dados (cores), em preto, cinza e branco, ou em cores cuidadosamente escolhidas e com uma ambigüidade determinada. Sua execução é feita por especialistas, e somente poderia ser realizada assim. A qualidade desta execução, que se reflete inclusive nas costas dos quadros, resulta numa determinação por parte do autor de uma combinatória, somente possível com a apropriação desses meios de produção. Como um projeto de design, como um contraponto, originário de uma idéia, em que arte e design se combinam em uma entidade única. Uma perfeita conjunção do digital com o analógico, como sempre Geraldo desejou, mesmo sem ser tão comum, nos dias de hoje.

Geraldo de Barros – A arte como sistema!!!

Esse texto, ligeiramente modificado, foi publicado no Catálogo "Geraldo de Barros :Imaginário, Construção, Memória" Organização Itau Cultural, São Paulo, SP 2022.

 

segunda-feira, 5 de março de 2018

O retrocesso do móvel popular



Mesmo com o progresso nos processos de manufatura, com a divulgação pelas redes sociais, com a existência de bons exemplos mundiais, neste início de século XXI continuamos a regredir em áreas onde isso não seria concebível. O setor de mobiliário popular é um deles. Nos dias de hoje o mobiliário popular, que é oferecido ao consumidor brasileiro é pior do que em meados do século passado, tanto em design como em qualidade. 

Este raciocínio nos ocorreu logo após a notícia do falecimento de Ingvar Kamprad, há poucas semanas, o fundador e presidente da rede de lojas IKEA, espalhadas pelo mundo. A IKEA foi uma das precursoras da difusão do móvel popular  qualidade pelo mundo, iniciado no final dos anos 60, junto com a Habitat, esta de origem britânica, e que hoje faz parte da rede IKEA. Estes dois exemplos mudaram o paradigma do que é um móvel popular, de preço justo, mas com funcionalidade, design e qualidade, para atender a um publico diferenciado, nascido no pós-guerra. A IKEA nasceu em uma pequena cidade do interior da Suécia e se tornou a maior rede de venda de móveis e acessórios para a casa do mundo, com 400 lojas e presença em todos os continentes, menos na América do Sul. Kamprad foi o milionário europeu que frequentou o primeiro lugar do ranking por longos anos. Sua filosofia de vida foi que norteou a fundação da empresa e a feição de seus produtos, que tiveram sucesso quase que instantâneo. Ele percebeu a emergência de uma classe popular de consumidores com necessidade de mobiliário de qualidade, mas com preços populares.

O interessante é que nos anos 70 houve um interesse da IKEA e da Habitat (então ainda independente) em vir para o Brasil, como um inicio de uma possível operação em nosso continente. Estiveram aqui em missão exploratória mas desistiram após alguns estudos. Já operava em algumas cidades brasileiras uma cópia delas, a rede Tok&Stok, com produtos muito semelhantes mas a preços muito mais caros, comparativamente, aos praticados por eles em suas redes. A proibição de importar peças de mobiliário praticada na época foi um dos fatores que os impediram de ir a frente. Isso significaria produzir todo o seu catalogo aqui, e com nossos custos inflacionados, o que impediu a viabilidade do negócio. Isso também impediu que nos tornássemos fornecedores deles, mesmo havendo algumas iniciativas de empresas nacionais, o que detalharemos em outro post. Este é um dos exemplos internacionais a que nos referimos no início. Se estas tentativas tivessem se concretizado, poderíamos ter outro patamar de qualidade de mobiliário e acessório, atendendo ao nosso consumidor popular. Certamente estabeleceria um novo paradigma para o setor.

O que temos hoje é abaixo da critica. Um mobiliário popular construído com péssimo design, acabamento pífio, detalhamento abaixo de qualquer critério, que não suporta o uso diário, nem uma mudança sequer, sem possibilidade de manutenção, com materiais e acabamentos que não suportam um copo molhado, sobre um tampo de mesa. O resultado é que há uma invasão de produtos chineses de baixo custo competindo com o produto nacional, com sérios problemas para a indústria local. Uma indústria que sempre teimou em privilegiar custo sobre qualidade, nivelando assim seu mercado pelo menor nível possível, hoje sofre as consequências. Não criamos uma cultura da qualidade, o que dirá do design.

O design de nosso mobiliário peca por uso de placas de MDF com revestimento de péssima qualidade. Itens desmontáveis, mas com ferragens de baixa resistência e com acabamentos de parafusos aparentes, com capinhas que se desprendem e se perdem facilmente. Excesso de cromados e parafusos aparentes, no mobiliário metálico, com tubos de espessuras inadequadas, facilmente deformáveis ao se arrastar uma mesa. Cadeiras com acabamentos em chapa metálica sem o necessário desbaste, ocasionando bordas cortantes, além de estofamentos de baixa qualidade e conforto.

Quando os móveis são de madeira há exemplares de cadeiras pesadas demais, para um reles mortal, ou leve demais para se confiar em sentar nelas. Mesas de diversas alturas, com travessas que não permitem ao usuário sequer cruzar as pernas.  Quanto aos armários fazem o maior efeito enquanto vazios. Ao serem carregados temos logo o efeito das prateleiras vergando e das portas empenadas e sem fechar se faz sentir, fruto do mau dimensionamento das placas utilizadas e de sua resistência. No caso dos estofados as dimensões são tão estapafúrdias que dificilmente caberão numa sala de Minha Casa Minha Vida! 

Basta fazer uma turnê por uma rua de lojas de mobiliário popular, em qualquer cidade brasileira para se constatar estes fatos. A pergunta que fazemos é será que o consumidor popular tem que pagar este preço e ter um produto que já sai da loja com prazo de validade? Não há a possibilidade dos órgãos de normalização ou de defesa do consumidor fiscalizar estes produtos e dar-lhes uma classificação, que sirva para o consumidor saber o que está comprando? Como é realidade em outros países?

O suado dinheiro do consumidor popular deve ser protegido deste tsunami de baixa qualidade que lhe é oferecido. O nosso consumidor popular, merece ter um retorno de qualidade e o design tem um papel fundamental na geração de produtos que durem alguns anos a mais, além da duração das suadas prestações que ele paga.

A indústria e o comércio de mobiliário popular tem que tomar consciência urgente disso, para sobreviver e atingir patamares de maior valor agregado, fornecendo produtos melhores a população brasileira.

Texto não publicado

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um país sem Projeto???


Fatos recentes divulgados pela imprensa demonstram que caminhamos celeremente para ser um país sem projeto. Casas populares que se desintegram antes dos seus moradores as ocuparem, de forma injustificada; estádios que são interditados por falhas de projeto e de execução; carros de metrô que são encomendados com especificações inadequadas ás estações que devem servir; prédios para desabrigados que desmoronam fruto de chuvas fortes; sistemas de transporte que tem que ser refeitos logo depois de inaugurados; instalações esportivas que são inadequadas a padrões internacionais ou tem seu custo multiplicado durante a construção, além de uma perplexidade diante dos caminhos do planejamento da economia e da vocação da nação.

Somos o país do “jeitinho”, do “improviso”, da “gambiarra”, da informalidade, da criatividade! Depois da fase de desenvolvimento, iniciada com a siderurgia nos anos 50, da indústria automobilística, nos anos 60, do milagre econômico dos anos 70/80, da abertura nos anos 90, da globalização do inicio deste século já era tempo, de termos uma nova visão de como planejar e projetar nosso futuro. Já deveríamos ter modificado nossos hábitos, no sentido de tomarmos na mão nosso desenvolvimento de forma independente. Sempre fomos o país do futuro, como definiu Stefan Zweig nos anos 40, mas parece que este futuro chegou e não nos demos conta ainda. Nestes períodos mais recentes tivemos que acelerar certos passos e tomar atalhos para fazermos frente ao cenário mundial, especialmente nesta crise mundial que atravessamos, onde a tecnologia se tornou a referencia do momento.

Ultimamente temos ouvido a menção quase que constante ao termo inovação. Temos que inovar para podermos nos desenvolver, para sobreviver. Ora o que entendemos por inovação??? Há uma crença de que está aliada a tecnologia, ou a pesquisa ou ao conhecimento. Não é, porém compreendida como ligada a projeto! Temos muito pouca pratica de projeto e por isso não somos inovadores, essa é que é a realidade. 

Como ainda somos um país pobre, com poucos recursos financeiros, este passou a ser a nossa referencia de eficiência, inclusive no slogan oficial do governo. Tudo deve custar barato, tudo deve ser definido pelo preço mínimo. A Lei das Licitações, que rege as compras públicas, por exemplo, é clara neste ponto, preço mínimo acima de tudo. Só que preço mínimo significa custo mínimo, que redunda em economia de recursos para atingir sua meta, que é vencer a concorrência!

Nas compras públicas já se aboliu o projeto completo como exigência para a licitação da obra. Devido aos prazos curtos das concorrências nos utilizamos de anteprojetos para cálculos e licitações, admitindo-se que o projeto executivo seja feito pelo construtor, ou vencedor da concorrência, concomitante com a obra ou o serviço a ser executado. Acreditam que sem projeto se ganha tempo! Resultado: adiamentos, renegociações, revisões de orçamento, suspeições de superfaturamento e em muitos casos paralisações ou mesmo abandono de obras antes de sua conclusão. Os tribunais de contas não tem como comparar as especificações propostas para as obras com sua realização devido a essa promiscuidade sem solução. Podemos então imaginar o que vai acontecer com todas as obras atrasadas para os grandes eventos que se avizinham!

No setor privado se vê é um descompasso com a época em que vivemos. A rapidez necessária para responder às demandas do mercado não tem a eficiência desejada. É comum empresários nacionais serem alijados do mercado por produtos mais avançados ou mais baratos que são lançados pelos concorrentes estrangeiros. O ritmo e ciclo de vida de um produto no mercado hoje em dia é vertiginoso. Nossos industriais, pelo fato de não terem o habito de projetar seu próprio futuro são pegos de calças curtas! Para sobreviver resolvem copiar os lideres de mercado ou mesmo se transformarem em distribuidores de produtos asiáticos, deixando de lado sua produção, por ser mais custosa e sem eficiência ou rentabilidade. Um exemplo: na indústria automobilística, considerada a mais avançada do país e toda ela de capital multinacional, é comum serem produzidos modelos defasados da realidade mundial, já que não há projeto que faça frente vindo dos concorrentes. E a nossa competitividade como fica??? Temos perdido nossa capacidade em diversos ramos e lentamente retornamos a ser dependentes em nosso desenvolvimento.

Nestes novos tempos temos o fator ambiental a ser considerado, além da sustentabilidade.
O fazer mais com menos, com o mais adequado, com o menos danoso, com o mais natural. A nossa sociedade exige a adoção destes princípios, pois ela percebe as conseqüências na própria pele. A nossa elite empresarial, no entanto só o fará se forçada, já que considera que ainda há muito que poluir ou degradar, antes de tomar medidas conservacionistas em seu projeto de desenvolvimento. Se é que essa elite tem projeto de desenvolvimento!?!?

E o design como fica neste contexto? Neste cenário de descaso, tanto por parte das autoridades como de nossa elite industrial quanto ao projeto, aonde vamos empurrando com a barriga nosso desenvolvimento, é cada vez menor a chance de termos bons resultados em curto prazo. Antevemos um cenário cada vez mais defasado e prejudicial ao nosso futuro. Sem um programa de indução, de incentivo, de valorização do design e do projeto pouco poderá ser acrescentado de criativo a essa realidade, de forma mais ampla e eficaz. Não nos adianta ter uma profissão que lida eminentemente com inovação se não houver um terreno fértil para que ela seja aplicada. O valor agregado que o design pode adicionar a nossa economia, por um custo irrisório, deixará de existir em curto espaço de tempo, devido a ignorância sobre significado do projeto de design, bem como sua importância em nossa época.

Caso venhamos a perder a nossa capacidade de projeto, com a perda do “know how”, a sua retomada e restauração será dolorosa, custosa e demorada. Não se prepara mão de obra de projeto em curto espaço de tempo e essa mão de obra se perde sem a prática, bem como sem a experiência. Se perdermos nossa capacidade de projeto sofreremos um revés que poderá se tornar um assunto de verdadeira “Segurança Nacional”, termo comum na época da Ditadura.

Nossa experiência acumulada, que já é pouca, ficará perdida e será nenhuma em breve, se não adotarmos como principio que temos que formular e implantar um projeto para este país onde o design será parte fundamental.

É isso o que projetamos!!!!

Texto não publicado

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Design é Cultura!

Desde outubro de 2009, faz dois anos, o Design passou a ser incluído no âmbito do Ministério da Cultura. Fomos incluídos por meio do Dec. No 6.973-2009 junto com outras áreas de interesse, como Moda e Arquitetura dentre outras. Já não era sem tempo que o design fosse valorizado como um aspecto importante de nossa cultura material, seguindo o novo paradigma denominado como Cultura Criativa. Esta valorização se sintoniza com os tempos atuais, especialmente da modernidade em diante, onde o design tem assumido papel preponderante em nossa sociedade.

Mas afinal qual é o papel do design neste contexto? Qual a motivação do MinC em incluir esta área dentro de seus interesses? Antes de tudo pretende-se valorizar a ligação do design com a chamada economia da cultura. O design é fator de desenvolvimento e de qualidade que permeia todos os aspectos da produção cultural. O que se pretende é que o design seja utilizado e aplicado, por exemplo, em todos os equipamentos culturais afeitos ao MinC e ao Sistema Nacional de Cultura. Ai estão incluídas às bibliotecas, os museus, os pontos de cultura, as exposições, os centros de pesquisa, o patrimônio, além da representação cultural no país e no exterior. O design também poderá contribuir em muito para o aumento da qualidade de todas as publicações do MinC, como livros, impressos, CDs/DVDs, web, eventos, sinalização, identidades, às adaptações para portadores de necessidades especiais, etc.

Mais abrangente é ainda a inserção do design no Plano Nacional de Cultura e no Sistema Nacional de Cultura, que se desdobra nos sistemas estaduais e municipais. Isto significa que todos os aspectos acima abordados podem ser replicados nestes dois níveis de nossa estrutura cultural. O SNC - Sistema Nacional de Cultura prevê que ao haver a sintonia no âmbito dos estados e municípios com ele, há a necessidade de replicar e aplicar estes mesmos níveis de interesse nestes ambientes. Prevê ainda que qualquer destas instâncias podem se utilizar de verbas federais, de Fundos Setoriais ou de outras origens para tender a estes objetivos. Há uma cartilha que esclarece estes aspectos, à disposição dos interessados, no site do MinC e impressa, que poderá ser solicitada.

De forma simplificada podemos dizer que o design passa a ser inserido nas secretarias de cultura dos estados e municípios, com os mesmos desdobramentos do âmbito federal. O design passa a ser do interesse e utilizado como ferramenta para valorizar a produção cultural no país inteiro, já que está amparado por decreto federal, que o inseriu no SNC.
Em parte isso já era uma realidade em grandes centros, onde o design está presente de forma indelével nas instituições culturais, mas é pouco comum em centros menores, nos rincões mais isolados do país, onde a produção cultural não é valorizada e deixa de ser divulgada e utilizada como expressão de uma comunidade, somente pela forma de sua apresentação. Onde isso for adequado poderemos ter representantes do design em conselhos de secretarias de cultura e em instituições culturais que sejam referencias no setor. O novo paradigma da economia da cultura pode se beneficiar enormemente da contribuição do design para sua afirmação e consolidação, beneficiando a todos.

E o nosso setor, como fica no âmbito do MinC? Temos um representante eleito, que atua junto ao Conselho Nacional de Política Cultural, desde abril de 2010, com participação ativa nas reuniões deste conselho. Está em andamento a constituição, por meio de um grupo de trabalho, de um Colegiado do Design, que terá 15 membros e igual numero de suplentes e que será responsável a elaborar um plano setorial do design, além de eleger o próximo representante junto ao CNPC, ao termino do mandato do atual. Estes membros serão escolhidos em uma reunião maior com representantes de todos os setores e das regiões do país.

Este colegiado poderá propor ações de interesse do design junto à cultura e ao MinC, como por exemplo, incentivos para o uso do design na cultura; ações de preservação da história do design brasileiro como elemento de nossa cultura material; da utilização do design como símbolo da cultura brasileira, especialmente em mostras no exterior, normatizar e incentivar a criação de núcleos de design junto a equipamentos culturais sejam federais, estaduais ou municipais além de incentivar ações educacionais junto a todas as camadas da população no sentido de valorizar a cultura material do país, especialmente com vistas ao patrimônio cultural brasileiro.

A criação, no âmbito do MinC, de uma Secretaria da Cultura Criativa é também um instrumento de valorização da possível contribuição do Design, ao desenvolvimento das ações afetas a estes aspectos de nossa cultura. Cultura é um setor que gera renda e com design terá maior valor, beneficiando a todos os interessados.

O design também agrega valor à cultura. Finalmente design é cultura!
Texto não publicado.

sábado, 19 de setembro de 2009

O que significa Cultura do Design? 56 questões descompromissadas ao Deus do Design

Porque não existe um Quarteto de Design? Porque não existe um fomento nacional ao design? Porque as pessoas são mais atingidas pelo cinema do que pelo design? Os designers querem apenas ganhar dinheiro, os cineastas não? Os designers são escravos da indústria? Porque não existe um imposto compulsório para os designers? Porque os simpósios de design são tão detestáveis? O design é mais comercio do que cultura? Como podemos fazer um frio produto da indústria nos falar ao coração? O design tem uma função educativa? É um diletantismo do consumo querer possuir coisas belas? O design serve à auto-afirmação? Coisas belas nos provêem com felicidade duradoura? Design precisa ser sempre bom? Um objeto pode ser uma expressão de nossa sociedade? Porque o design acredita não necessitar de uma teoria? Porque qualquer um pode se chamar de designer? A necessidade social do design é um romantismo social irrealista? O design pode ser político? O design tem que ser ético? O bom design é democrático? Pode se decidir democraticamente sobre o design? Precisamos de designers estrelas? Somente os projetos produzidos têm valor? Os melhores projetos acabam engavetados? O que faz um designer ter sucesso? A inteligência prejudica o sucesso do design? Um bom designer pode ser superficial? Os designers não sabem ler? Porque os designers querem sempre reinventar as coisas? Porque os designers não admitem ser inspirados por outros projetos? O sampling só existe na música? As citações só existem na literatura? Porque os designers lidam tão mal com o passado e a tradição? Os designers se interessam por sua própria história? Há designers no Congresso Nacional? São os designers advogados do consumidor ao invés de agentes da indústria? A economia impulsiona o design ou o design impulsiona a economia? Porque os designers se tornaram tão apolíticos? Os designers ouvem o marketing? Como conseguiram os publicitários se afirmar como criativos, quando eles servem mais ao comércio que os designers? Como os criadores de tendências se tornaram tão importantes? Devem os designers ser tão livres como os artistas? Porque os designers acreditam que devem argumentar com os termos do marketing? Porque o significado econômico do design deve ser mais importante do que o social? Porque a divulgação sobre design é tão ruim? Porque não há programas sobre design na televisão? Quem é a Maria Gabriela do design? Quando o design perdeu a sua relevância? Que idiota criou os termos Design Babys e Design Drugs? Porque as instituições do design fazem tão pouco pela imagem do design? Porque acreditamos que o design tenha que ser limitado em relação às fronteiras das outras disciplinas? O design pode ser uma tendência cultural autônoma? Como, em um grupo tão pequeno, não se consegue concordar com alguns ideais? Pode o design transformar a sociedade? Quando se inicia o século do design?

Texto publicado no newsletter "Sinal"
Markus Frenzl ©www.4gzl.de - Tradução: Freddy Van Camp, Abril 2007

Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009