Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.

Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Design, Cachaças e Caipirinhas

Todos reconhecem a qualidade que as cachaças brasileiras adquiriram nos últimos tempos. Nossa velha pinga tem se transformado em fenômeno de sucesso não só no país mas também no exterior. Para alguns só podemos tomar a cachaça pura, em cálices, ao estilo “cowboy”, de uma talagada só. Para outros o veiculo é a caipirinha, mistura de frutas maceradas com cachaça e gelo, sorvido aos poucos e na companhia de amigos ou de um bom prato de feijoada.

Para os puristas só é possível se utilizar cachaças de segunda categoria na caipirinha, já que ela não é uma forma “nobre” de degustar uma cachaça, é mais um drinque para estrangeiros ou para diletantes. A caipirinha “nobre” para o brasileiro é com vodka! Não passa pela cabeça deles que a popularização da cachaça deve acompanhar os novos tempos, onde drinques bem elaborados, acessórios, copos e garrafas bem desenhadas fazem parte da qualidade e da cultura do bem beber.

Eu, por exemplo, gosto de uma boa cachaça, bem gelada, o que é uma grande heresia para os puristas conservadores, o mesmo ocorre com uma pinga “on the rocks”. Recorro a um cálice de vidro fino, que coloco no freezer para ter sempre uma boa dose á mão e na temperatura certa, já que ela não congela! Gosto também de uma boa caipirinha e cheguei a desenvolver uma receita simples, para passar aos estrangeiros que se encantam e querem levar uma lembrança de sua estada: Dobrar a quantidade de fruta macerada, com uma boa cachaça e completar com gelo. Esta proporção sempre deu certo e não embriaga rápido.



Quando se trata de acessórios, tenho que admitir que nossos estrangeiros diletantes nos superam no design dos pilões para caipirinha, o que deveria ser privilegio nosso! No Brasil só encontramos pilões muito primários, de madeira e sem nenhum requinte de desenho, eles não acompanharam o crescimento de qualidade de nossas cachaças. Tenho mania de colecioná-los e devo admitir, constrangido, que os designs alemães da WMF e Roesle, em metal, e os austríacos da Leopold, em madeira, tem soluções sensivelmente melhores que as nossas.( Vejam as imagens em anexo). Eles consomem nossa caipirinha, hoje um drink internacional, e declaram seu apreço aperfeiçoando seus acessórios, que são encontrados em qualquer boa loja de departamentos pelo mundo afora. Designers renomados, como Gui Bonsiepe em editorial na revista Form, já declararam publicamente sua predileção pela caipirinha brasileira.


O que me surpreende é que continuamos a não valorizar o que é nosso, nem em termos de design como em nenhuma outra forma. As garrafas padrão para cachaça são uma lástima, as especiais para exportação são piegas e com rótulos ruins, nomes estranhos ou mesmo de duplo sentido. Algumas têm embalagens mais caprichadas mas o design passou longe. Deveríamos ser os melhores em garrafas de cachaça, em pilões para caipirinha, ou em coadores para café, ou mesmo em redes de franquias de venda de café, ao invés de estarmos nos rendendo às Starbucks da vida, afinal esses são produtos autenticamente brasileiros.
Entretanto, continuamos a ter atitudes de colonizado onde acreditamos que o mascate que vem de fora nos trás produtos de qualidade, ou nos dá lições de como devemos ser e nos comportar. Lembram da folclórica historia dos espelhos dados aos nossos primeiros indígenas?

“Em terra de cachaceiro o pilão tem que ser é de pau”!?!? E sempre mal feito????

sábado, 19 de setembro de 2009

O que significa Cultura do Design? 56 questões descompromissadas ao Deus do Design

Porque não existe um Quarteto de Design? Porque não existe um fomento nacional ao design? Porque as pessoas são mais atingidas pelo cinema do que pelo design? Os designers querem apenas ganhar dinheiro, os cineastas não? Os designers são escravos da indústria? Porque não existe um imposto compulsório para os designers? Porque os simpósios de design são tão detestáveis? O design é mais comercio do que cultura? Como podemos fazer um frio produto da indústria nos falar ao coração? O design tem uma função educativa? É um diletantismo do consumo querer possuir coisas belas? O design serve à auto-afirmação? Coisas belas nos provêem com felicidade duradoura? Design precisa ser sempre bom? Um objeto pode ser uma expressão de nossa sociedade? Porque o design acredita não necessitar de uma teoria? Porque qualquer um pode se chamar de designer? A necessidade social do design é um romantismo social irrealista? O design pode ser político? O design tem que ser ético? O bom design é democrático? Pode se decidir democraticamente sobre o design? Precisamos de designers estrelas? Somente os projetos produzidos têm valor? Os melhores projetos acabam engavetados? O que faz um designer ter sucesso? A inteligência prejudica o sucesso do design? Um bom designer pode ser superficial? Os designers não sabem ler? Porque os designers querem sempre reinventar as coisas? Porque os designers não admitem ser inspirados por outros projetos? O sampling só existe na música? As citações só existem na literatura? Porque os designers lidam tão mal com o passado e a tradição? Os designers se interessam por sua própria história? Há designers no Congresso Nacional? São os designers advogados do consumidor ao invés de agentes da indústria? A economia impulsiona o design ou o design impulsiona a economia? Porque os designers se tornaram tão apolíticos? Os designers ouvem o marketing? Como conseguiram os publicitários se afirmar como criativos, quando eles servem mais ao comércio que os designers? Como os criadores de tendências se tornaram tão importantes? Devem os designers ser tão livres como os artistas? Porque os designers acreditam que devem argumentar com os termos do marketing? Porque o significado econômico do design deve ser mais importante do que o social? Porque a divulgação sobre design é tão ruim? Porque não há programas sobre design na televisão? Quem é a Maria Gabriela do design? Quando o design perdeu a sua relevância? Que idiota criou os termos Design Babys e Design Drugs? Porque as instituições do design fazem tão pouco pela imagem do design? Porque acreditamos que o design tenha que ser limitado em relação às fronteiras das outras disciplinas? O design pode ser uma tendência cultural autônoma? Como, em um grupo tão pequeno, não se consegue concordar com alguns ideais? Pode o design transformar a sociedade? Quando se inicia o século do design?

Texto publicado no newsletter "Sinal"
Markus Frenzl ©www.4gzl.de - Tradução: Freddy Van Camp, Abril 2007

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dicas para um Jovem Designer. Ou tudo o que você sempre quis perguntar, mas nunca lhe responderam.

Uma carreira e uma reputação se iniciam
Muito bem, você passou pelo rolo compressor do vestibular, depois de muitas dúvidas escolheu a carreira de design, e agora espera que a faculdade possa lhe dar uma formação que lhe garanta uma carreira promissora e de muito sucesso.

Será que vai dar certo? Bom, depende...de você, da faculdade e das circunstancias.
É necessário que você tenha consciência que sua carreira começou no momento em que você pisou na porta da faculdade. E mais importante ainda é saber que começou a se construir a sua reputação.

Sua responsabilidade e o destino
Bom e daí? Antes de mais nada é importante que você se identifique com o Design, qualquer que seja a qualidade do curso que você esteja fazendo. Também é muito importante que você saiba que não existe faculdade ou curso ideal, todos têm problemas, e em nosso país estes problemas podem ser crônicos. Ainda assim é o que você tem a mão. É nesta instituição que você vai aprender a base sobre a qual construirá a sua carreira. E quais são as suas responsabilidades em relação a isso?

A construção de uma carreira tem duas vertentes: a do que lhe é oferecido pela faculdade ou curso que você está frequentando e a sua pessoal com um envolvimento sério e decidido no aproveitamento dos seus anos de formação. Estas duas vertentes têm valor idêntico na construção de uma carreira e admitindo-se que uma delas não seja satisfatória a outra ainda terá valor suficiente para justificar um saldo profissional adequado. Você é responsável por, no mínimo, metade de sua carreira, metade da sua formação!

É bom lembrar que antes de existirem os cursos regulares de formação de designers os profissionais eram autodidatas, o que significa que cada um construía sua própria carreira e reputação. Mesmo assim muitos profissionais de qualidade foram forjados nesta época alguns dos quais foram os responsáveis pela implantação do design em nosso país. Com isto não estamos defendendo excluir a escola da formação do profissional, pois isso não seria possível nos dias de hoje. A escola serve como uma referência, como uma queima de etapas, como uma sistematização da formação do profissional, como uma importante fonte de informação para construção de uma carreira, agora e no futuro. No mínimo lhe dará um diploma.

O que é importante é saber que a carreira é sua. É sua a prerrogativa e responsabilidade de construí-la e não da escola. Ela é um veículo, um instrumento e só ajuda!

Uma formação consciente e contínua
Sua formação deve ser a mais consciente possível. Isto significa que depende de você quanto a escolha da faculdade ou escola, do seu envolvimento com ela, de seu aproveitamento, durante o curso e de tudo o mais que você empreendeu durante este período. Não se esqueça porém que sempre haverá algo mais a aprender e que sua formação não termina com o recebimento do diploma. Na verdade sua formação nunca termina, ela se prolonga por toda a sua vida e nestes dias de globalização a formação contínua é a única que pode nos garantir pleno emprego ou flexibilidade ante as mudanças que virão.

O importante é manter um vinculo permanente com sua faculdade, mesmo depois de formado. Fazer cursos complementares, de aperfeiçoamento, de extensão, de especialização de mestrado ou doutorado são opções que estarão sempre abertas. Entretanto não caia na falácia de que você vai consertar uma graduação deficiente com um mestrado ou outro curso posterior. Isto não existe!
A graduação é a pedra fundamental de sua formação, se ela não for sólida você poderá sofrer as conseqüências mais adiante, para as quais às vezes não há conserto. Você tem o direito a uma boa formação qualquer que seja a escola ou universidade em que estude, portanto cobre empenho e conhecimento de seus professores e mestres além de condições adequadas da instituição de ensino que você freqüenta.

Ser crítico é uma das atitudes mais úteis em Design e ser crítico durante a formação só pode ajudar.

É uma questão de currículo
No momento que você começa uma carreira você inicia o seu currículo (curriculum vitae), a sua história profissional. Esta história se expressa através de um documento que tem este nome e que lhe será exigido por toda a sua vida. Se você tiver uma boa carreira terá um bom currículo e isto lhe será muito útil e vantajoso no futuro.

Como você é que constrói sua carreira seu currículo refletirá isto. Na escolha de um curso ou faculdade de qualidade, nos cursos paralelos ou nos estágios que fez, nos projetos que executou durante o curso ou fora dele, os projetos free-lance que executou, etc. O currículo deve dar todas as informações sobre suas capacidades profissionais e sobre sua carreira, deve ser seu retrato verbal, mostrando seu melhor angulo.

É um bom exercício elaborar seu currículo, é uma forma de fazer uma revisão crítica sobre sua carreira, é um meio de avaliar seu acervo profissional além de auxiliar no planejamento dos futuros passos dela. Há varias formulas de se elaborar um currículo, o importante é lembrar que ele deve ser graficamente bem elaborado, afinal você é um designer ou um candidato a tal. Ele é seu primeiro cartão de visita. Você deve sempre ter cópias atualizadas de seu currículo disponíveis e ele deve conter seu endereço e telefone de contato. Uma entrevista pode surgir a qualquer momento e você deve estar preparado para isto!

E de portfólio
Outro item de sua apresentação profissional é seu portfólio. Nossa profissão é eminentemente visual e tudo o que projetamos tem uma expressão Bi ou tridimensional. O portfólio é seu “currículo” visual, contém todos os seus projetos em uma forma de documentação, sejam originais, reproduções, fotografias, prints, slides, vídeos, etc.

Todos os seus projetos ou exercícios feitos durante seu curso podem ser apresentados, desde que tenham qualidade. Se eles não tiverem a qualidade que deveriam ter você pode sempre refazer qualquer projeto de sua autoria. Os projetos em que participou durante seus estágios também podem ser mostrados, bem como os executados em equipe. Estes devem ser identificados claramente mencionando-se sempre os co-autores e devem ser dados os créditos devidos.

Há várias formas de se montar portfólios, em pastas próprias para receber pranchas grandes, em pastas A4, em formatos especiais, em um conjunto de prints, em copias xerox, em slides ou cromos montados, etc. A pasta deve sempre existir mesmo que tenha um portfólio digital, um blog ou um site seu. Evite ter apenas um portfólio digital, nem sempre será consultado ou não abre com a qualidade que você queria, quando você mais precisa. O critério básico deve ser sempre a qualidade do trabalho em si e da sua apresentação. Nem sempre é possível apresentar os trabalhos em sua versão original, neste caso devem ser reproduzidos fotograficamente, individualmente ou em montagens de conjuntos coerentes. Modelos e maquetes devem ser documentados fotograficamente assim que estiverem prontos, o mesmo deve ser feito com originais feitos a mão, que de outra forma se deterioram muito fácil ao ser manuseados. Guarde os originais e modelos de forma a protegê-los o quanto possível da deterioração, sabendo que nem sempre isto dará certo. A documentação reproduzível, seja fotográfica ou digital, é quase tão importante como o trabalho em si já que é ela que garante sua obra para a posteridade. Documente tudo com qualidade e em mais de uma mídia, em forma de foto analógica cor e p&b, vídeo, meio digital, o que estiver ao seu alcance. Dos originais digitais tenha sempre um “Backup” em alta resolução, fora do computador, em CDs, DVDs ou em pen-drives exclusivos, por segurança. Originais se perdem ou se deterioram e a gente só descobre isto quando já é tarde.

Estágios em profusão
Os estágios são a forma mais comum de complementar sua formação e de por a prova o que você tem aprendido. A escolha de um bom estágio é tão importante quanto à escolha de uma faculdade. Devemos fazer o máximo de estágios possíveis durante nosso período de formação. Esta é uma oportunidade de aprender com quem tem mais experiência e de verificar a quantas anda o seu nível de instrumentação e conhecimento.

Mas cuidado, o estágio não substitui a formação nem a faculdade, por mais importante que ele nos pareça. O estágio deverá ser remunerado, mas não pense nele como uma forma de ganhar dinheiro, ele deverá lhe dar conhecimento e experiência. O estágio deverá sempre ser em tempo parcial e complementar à formação. Deve durar seis meses a no máximo um ano!

Ele deve ser feito somente a partir do 4º período ou do 2º ano de formação. Somente nesta fase você estará maduro e instrumentado o suficiente para tirar partido desta experiência. Você poderá aprender novas técnicas e poderá adquirir vivência profissional. Mas cuidado novamente, há estágios que são empregos disfarçados, fuja deles como puder já que não são nunca a seu favor! Eles são, na maioria das vezes, busca de mão de obra barata e qualificada, sem compromissos legais. A qualidade do estágio é fundamental. Avalie com cuidado o que está lhe sendo oferecido, não hesite em perguntar qual será sua função e que tipo de trabalho você irá executar. Você tem este direito. Um estágio de qualidade lhe será útil no currículo, e um sem qualidade apenas uma perda de tempo e de oportunidade, lembre-se disto.

Ser instrumentado, ter utilidade
Não adianta procurar um estágio em um escritório de design se você não tiver condições de contribuir para o trabalho que está sendo desenvolvido. Se você não estiver devidamente instrumentado você vai atrapalhar mais do que aprender. Um posto de trabalho em um escritório é caro e não esta disponível a quem não puder contribuir com qualidade. Procure saber antes de qualquer coisa, o que esperam de você como estagiário. O que é preciso saber para poder ser útil e contribuir efetivamente para os projetos e tarefas em que estiver envolvido.

Se você não estiver ainda instrumentado poderá fazer outros estágios de formação. Poderá passar um tempo em uma fábrica de plásticos ou em uma oficina mecânica ajudando na produção, por exemplo. Poderá se engajar em um setor que lhe interessa, em uma gráfica, em um fotolito, em um escritório de desenho aprendendo a desenhar ou ainda ajudando em uma pesquisa ergonômica. Podemos chamar a este de um estágio de instrumentação. Ele pode lhe dar muitos conhecimentos práticos, sobre materiais ou sobre produção, o que pode ser muito útil em sua vida profissional.

Concursos e mais concursos
Participar de concursos é uma ótima forma de desenvolver capacidades profissionais, de demonstrar do que você é capaz. Com a vantagem de que você pode ser até premiado, o que será uma ótima adição ao seu currículo. Além disso, sempre pode pintar uma grana ou um prêmio o que não faz mal a ninguém.

Fique atento aos quadros de avisos de sua faculdade ou às páginas das revistas especializadas ou de sites da Internet. Há sempre ótimos concursos sendo divulgados, tanto nacionais como internacionais, com bons prêmios e temáticas, tanto para estudantes como para profissionais. Além da premiação, certos concursos têm prevista uma exposição dos concorrentes e ás vezes há publicação dos resultados na imprensa ou em catálogos, o que multiplica a divulgação de quem participa. O importante é estar atento às datas e prazos, bem como ler com atenção aos regulamentos para saber se o concurso vale ou não a pena. Os concursos que estiverem de acordo com as recomendações do ICSID ou do ICOGRADA, ou recomendados pela ADG ou ADP são os mais recomendados, já que permitem aos concorrentes o recurso a estas entidades, caso haja alguma irregularidade.

Visitas e Viagens
Fazer visitas é outra forma de criar experiência e de se informar sobre seu campo profissional. Tente fazer quantas visitas puder enquanto for estudante. As portas estão sempre abertas quando a gente é estudante, todo mundo e simpático com a gente e isto é uma vantagem única. Vá a escritórios, empresas, instituições, fábricas, feiras, exposições e colete informações que lhe poderão ser úteis agora ou no futuro. Em feiras e exposições especializadas você terá a oportunidade de ver, em um único recinto, vários fornecedores ou expositores de um mesmo setor e fazer comparações de forma fácil e rápida além de coletar informações diretamente com quem as divulga. Obter informações técnicas relevantes em um país como o nosso não é fácil, portanto não desperdice as oportunidades que tiver ao seu alcance. Feiras e exposições são ótimas oportunidades de obtê-las, e informação, como veremos adiante é fundamental para trabalhar com competência nos dias de hoje. Comece a fazer um arquivo do que for coletando, ele lhe servirá de referencia no futuro. Se puder, e se houver motivo, fotografe e documente o que for possível, esta informação pode não estar disponível em outra circunstancia.

Viajar é também uma forma de ampliar sua formação e seu conhecimento. Tanto faz se a viagem é pelo país ou para o estrangeiro. Estamos falando é lógico daquela viagem que não se resume em mero turismo ou em compras. Você pode utilizar o design como motivo de seus contatos. Estabeleça contato por E-mail com uma associação profissional, uma escola, ou algum profissional no local para onde você pretende viajar e faça um roteiro. Isto lhe servirá de referencia e que pode gerar novas referencias em outros locais por onde você passar. Contatos feitos nesta fase de estudante poderão ser úteis para o resto da vida. Há sites, nacionais ou internacionais, com links valiosos ou simplesmente pesquise no Google. Em viagem visite design centers, escolas de design, escritórios, lojas de empresas com bom design, exposições de arte, arquitetura ou design ou qualquer outro evento ou instituição que tenha haver com o assunto. Faça um livro de notas, uma agenda ou um diário durante sua viagem, anote tudo de forma a poder resgatar esta informação sempre que for necessário. Você verá um novo mundo se abrindo, se sentirá mais informado, verá quantas oportunidades existem de atuação como profissional e poderá fazer sua opção mais fácil e conscientemente

Buscar informações
Como parte de sua formação a busca por informações deve ser uma constante. Navegar na internet é sempre útil e faça uma lista de “Favoritos” no seu computador. Faça o download de textos interessantes, criando um arquivo organizado que lhe permita recupera-los depois, quando necessário. Quando pesquisar não esqueça de registrar a fonte de origem. Sempre que possível contra-cheque estas informações. Na internet há muita coisa não confiável, lembre-se disto. Com a fonte citada a responsabilidade está dada.

Nestes tempos de Internet há uma tendência se achar que só esta forma é atualizada. Entretanto devemos nos valer de todos os meios possíveis para manter nosso nível de informação alto. A frequência a Bibliotecas é ainda de vital importância. A visita a outras escolas como forma de comparar sua formação pode ser muito útil. Fazer cursos paralelos de curta duração também é uma formula muito utilizada para complementar uma formação menos estruturada ou para obter informações de outra forma não disponíveis. A assinatura de revistas especializadas ou a compra de livros poderá contribuir para a formação de uma biblioteca particular e sempre necessária. A visita a exposições industriais ou de qualquer outro tipo poderá resultar em um acervo de catálogos e folhetos que sempre serão úteis em projetos ou estudos futuros. Freqüentar congressos, reuniões ou seminários pode revelar novos pontos de vista e resultar em uma coleção de textos e papers que por sua qualidade reflexiva lhe abrirão novas perspectivas nunca dantes vislumbradas.

Ser profissional
Ser profissional significa que você fará parte de um corpo de indivíduos que se dedica a uma atividade em prol da sociedade. Significa ter uma postura adequada à sua formação perante seus clientes, empregadores, perante a sociedade e seus colegas profissionais.

Filie-se a uma associação profissional, ou a mais de uma se achar conveniente. Participe desta associação tentando elevar o nível de exercício da profissão. Discuta formação de preços, de outros profissionais, da política do exercício da profissão, da regulamentação e de todos os assuntos que são e serão de seu interesse como profissional. Custa muito pouco, especialmente para estudantes, se todos tiverem o mesmo objetivo a profissão só tem a ganhar e você pode contribuir para isso, decisivamente.

Uma carreira com prazer
Se você se identificar com o Design e tiver tido uma boa formação, poderá desenvolver uma carreira que lhe dê sucesso, reconhecimento e principalmente prazer. O designer tem uma atuação flexível, pode resolver problemas diferentes a cada vez, pode ter a satisfação de ver seus produtos e mensagens em uso pela população, pode contribuir para aumentar a informação, a comunicação e o conforto do usuário em geral.

Isto não é pouco, nos dias de hoje.

Texto atualizado em 2009, publicado originalmente na Revista Designe Nº1 em 08/1999.

Design e a miopia estratégica


O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009