Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Design parou!? Parou porque???

Estamos no final do ano de 2025, hora de fazer um resumo do ano e de refletir sobre o futuro. E como anda o design brasileiro? É uma pergunta que fazemos desde sua instituição a mais de 60 anos.

Todos sabem que este pais, com todas as maravilhas que possui, têm um processo de idas e vindas em tudo o que empreende. Assim é também com o design, uma ferramenta que programou na época, como auxiliar ao seu desenvolvimento. Tudo iniciou com o estabelecimento de uma entidade de ensino, seguiu na formação de uma classe profissional, e continuou com uma política de estado e de fomento ao seu uso por toda a economia. Mas ultimamente de se acomodou em um marasmo e um desalento inimaginável, para um país com o potencial que possui! Literalmente o design se acomodou no “status quo”, com os seus agentes simplesmente reduzidos a  “pedalar o mínimo para a bicicleta não cair”.                  

 O Design parou!!! 

Vamos recordar alguns fatos emblemáticos: Comemoramos este ano 10 anos sem um programa de fomento nacional oficial. O ultimo resquício foi a Bienal Brasileira de Design realizada em 2015, em Florianópolis.  Oficialmente tivemos estabelecido em 1996 o PBD Programa Brasileiro de Design, por entidades como o MDIC, BNDES, FINEP, CNPq, CAPES, PACTI, RHAE, com apoio do INPI, INMETRO e ABNT, além do SEBRAE, CNI e SENAI. Muita gente, não podia dar certo, como não deu. O objetivo “máximo” era “O Brasil mostra sua marca”. Mostrou??? Após a bienal de 2015 o programa se auto-extinguiu sem nenhuma explicação.

                          Inauguração da Desenho Industrial 68 -MAM Rio de Janeiro a 1ª Bienal de Design Brasileira  

Devemos lembrar que o Brasil foi pioneiro em estabelecer bienais de design no mundo, com a realização da 1ª Bienal em 1968, no MAM do Rio de Janeiro. De lá para cá tivemos o estabelecimento de dezenas de Design Centers pelo país, com apoio dos estados e das federações e entidades de classe. Poucos sobraram ou se acomodaram em suas regiões ou áreas de interesse, sem expressão nacional e sem chegar ao publico, como um todo. Um dos poucos é o Centro Design do Paraná, hoje denominado Centro Brasil Design estabelecido em 1996, com boa abrangência local e regional mas, com relativa relevância nacional. O CBD é representante no Brasil do IF Design, o premio internacional mais importante, onde o design brasileiro brilha, ano após ano. Entretanto, com pouco reflexo interno, especialmente no nosso meio empresarial. Acaba se resumindo em uma festividade de designers para designers.

A participação brasileira neste premio já teve outra faceta importante, quando era patrocinada pelo meio empresarial, por intermédio do Design Excelence entre 2003 e 2009. Foi onde o design brasileiro passou a brilhar no exterior. A pergunta é: além de brilhar exportamos nosso design? Quais os resultados deste brilho inegável???

Infelizmente não há dados sobre isso disponíveis. Ninguém fez ou faz levantamentos a respeito. O que sabemos é que estamos exportando designers, profissionais talentosos, bem formados e com alta demanda. Só na indústria automobilística temos alguns designers brasucas reinando em suas empresas lá fora.  O mesmo acontece na indústria de linha branca, de mobiliário ou em estúdios de design internacionais fundados por nossos patrícios, dentre outros. Estes talentos procuram lá fora as oportunidades que não encontram aqui 

Continuando no nosso cenário interno, carecemos de maior organização profissional. A par de alguns poucos exemplos regionais, temos muito pouca expressão profissional nacional. A única entidade funcionando efetivamente é a das empresas de design, a ABEDESIGN com sede em São Paulo. Mesmo sendo nacional sua atuação tem mais atuação regional. Promove eventos de interesse da classe com sucesso e um Prêmio Brasileiro de Design, bem organizado e efetivo, mas de pouca abrangência de publico. Mais uma festividade de designers para designers.

Há ainda as associações profissionais setoriais ou regionais, mas cada uma com seus interesses próprios e quase sem expressão, ou ação efetiva perante o poder publico. A classe dos designers tem muito pouca coesão profissional, por isso mesmo com mais de 50 anos de luta continua desregulamentada. Há pouca luta para se atingir os direitos que outras profissões já possuem e que por isso são mais respeitadas. Não conseguimos compreender que o país é corporativista e pagamos um preço alto por isso. Temos projeto de regulamentação em tramitação no Congresso, sem o mínimo lobby e apoio para sua sanção por parte da classe.

Neste aspecto já fomos mais bem representados no passado, alem do PBD tocado pelo MDIC, houve a inclusão do design nas prioridades do MInC, os financiamentos do MCT que hoje se resumem em manter um núcleo de design no INT, que felizmente sobrevive a 50 anos com sua competência. Fora isso pouco temos acontecendo na área federal.

As iniciativas estaduais quase todas minguaram e temos pouca noticia. Acabamos de ter fechado a principal entidade de preservação de nossa cultura material. O eficiente MCB Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, foi desativado sem explicação e sem protestos a sua altura. Com mais de 30 anos de uma premiação inédita, com um acervo que não sabemos o destino, foi simplesmente degolado pelo estado mais rico do pais. É pouco respeito com nossa historia. Temos ainda outra exceção no sul, onde no setor mobiliário, a MOVELSUL realiza concurso e eventos e promovendo o design, mas mesmo assim ainda delimitados a região.

Na atuação profissional estamos nos resumindo a certas “tendências”. O nosso velho design gráfico, ou comunicação visual passou a se resumir ao “branding”. Passamos a ser simples executores de políticas de vendas e sempre a reboque da publicidade. Pouco se fala em comunicação, e há muita procura por atenção na balburdia das redes sociais. Onde o efêmero se sobrepõe ao permanente.

O tal “posicionamento de marca” é a coisa mais transitória que existe. Tudo muda de marca a toda hora, colocando em cheque a tal “consistência da marca” que aprendemos se estabelece com o tempo. Em vez de nos comunicar estamos nos trumbicando, com a ajuda dos nossos designers. Na área da sinalização estamos cada vez mais vendo o “fashion” como constante, nos esquecendo que ainda temos uma população iletrada e com aumento expressivo da terceira idade.

No design de produtos temos setores se rendendo ao “life style” e ao “fashion” transformando o design em um fator oligárquico: só para entendidos, para os de bom gosto, para os que entendem de design. Isso é em parte, fruto da desindustrialização acelerada que vivemos, onde há poucas oportunidades para profissionais no setor produtivo. O que sobrou foi a auto produção, os “makers” que com seus custos mais altos e produtos exclusivos, tende a se dirigir a uma faixa mais exclusiva de usuários e a um informalismo individual. Uma ”uberização” do profissional? 

Há inclusive um flerte expressivo com a arte, onde design tangencia a exclusividade e a expressão individual. Isso pode ser constatado nas publicações e nas mostras que ainda sobrevivem, misturadas a decoração e outros setores e sempre visando “likes” nas redes sociais.

O design não se livrou de virar evento ao invés de um ativo com importância estratégica para nossa economia. A nossa criatividade virou vitrine e não patrimônio, muito desconectada da realidade social do pais. O design como parte de nossa cultura é visto como gasto residual, sem levar em conta sua contribuição para o PIB nacional.

Nos últimos tempos é raro se ver referencia ao design nos planos de reindustrialização, de incentivo a cultura, ou de apoio a ciência e a tecnologia, formulados como políticas publicas, ignorando completamente que ele é o ativo mais barato disponível. Infelizmente não absorvemos o fato de que design é para todos. A qualidade que o design pode atribuir a nossa cultura material deveria almejar ser um direito de todos.

Mesmo com todas as iniciativas pontuais o design nacional caminha para uma estagnação interna. É necessário um grande esforço conjunto de todos os “stakeholders” ligados ao design para que ele vença o desalento e o clima atual. Nosso design precisa recuperar sua posição como estratégia de qualidade, de valor agregado, qualquer que ele seja. 

Precisamos “pedalar muito” para que o design seja definitivamente um fator importante, para que o brasileiro viva melhor, contribuindo para o desenvolvimento econômico e se orgulhe de sua cultura material. 

O talento do design brasileiro merece!!! 

 

 

 

 

 

 

 

  

quinta-feira, 3 de julho de 2025

A hora da virada?

Estamos em um verdadeiro ponto de virada. A era do design global, "culturalmente neutro", alimentada pelo sonho da homogeneização mundial através da integração econômica, está chegando ao fim. Este sonho, apoiado por um modelo de pensamento neoliberal, em parte neo-imperialista, ameaça falhar devido às suas próprias contradições.

Permanece a percepção: o design é novamente levado fortemente para sua origem, em contextos sociais, culturais e industriais. Observamos um retorno ao design como um ato cultural, ou melhor: como uma expressão de uma cultura industrial caracterizada por valores sociais, responsabilidade ecológica e conhecimento local.

O design atual muitas vezes tende a um “mainstream” visualmente suavizado e orientado pela marca, que perde a relação com a realidade da vida do usuário, como Don Norman já criticou. mas agora o design está começando a se orientar novamente para o contexto, para o lugar, para a comunidade, para a função social.

A Alemanha lembra de sua própria história de design: Werkbund, hfg ulm, Bauhaus, Dieter Rams. Uma tradição que se concentra na função, na responsabilidade social e ecológica e na justiça material. A Escandinávia, por outro lado, desenvolverá ainda mais sua identidade de design já forte e historicamente crescida: clara, reservada, centrada nas pessoas. O Japão está novamente aprofundando sua própria lógica cultural da forma, da escolha do material e do significado.

Resta saber se esse desenvolvimento deve ser avaliado positiva ou negativamente. Uma coisa é certa: o design que ignora as condições locais, sociais e culturais não faz jus à sua responsabilidade.

Este campo recém-formado também requer pesquisa, reflexão e compromisso. Devemos acompanhá-lo cientificamente, permeá-lo metodicamente e desenvolvê-lo em termos de design. A relação entre design e cultura, que há muito é marginal, em favor da competitividade global, deve ser movida de volta ao centro.

Está na hora!


Fritz Frenkler

06 de Maio de 2025

Fritz Frenkler é designer graduado pela HfG Ulm.Tem larga experiencia como titular da F/P Design Co com sedes em Berlin e Kyoto. Foi designer da Wilkahan, do Deutsche Bahn eda Frog Design Asia. E professor de design industrial na TU Municch.

Este texto foi publicado no LinkedIn e reproduzido dor gentilesa do autor. Destaques feitos pelo tradutor.

sábado, 7 de junho de 2025

Ressaca pós Milão

18 de Abril de 2025

Quase tudo já foi dito sobre a MDW Milano Design Week, e surpreendentemente (ou não) os brasileiros que lá estiveram gostaram praticamente das mesmas coisas. Brasileiros em Milão visitando o stand brasileiro nos Saloni. Brasileiros em Milão visitando a exposição do design brasileiro na Universitá degli Studi. Brasileiros em Milão percorrendo loucamente Via Durini, Brera e Zona Tortona a fim de gerar selfies e stories vazios. Brasileiros em Milão com microfone para gravar vídeos de conteúdo óbvio com análises rasas. Brasileiros em Milão alardeando o lançamento de produtos que existem desde a década de 1970 (vergonha alheia). Brasileiros que olham tudo mas não vêem nada. Felizmente há exceções: são raras mas existem.

 Mas vamos ao que interessa: a Semana do Design em Milão é inegavelmente espetacular, mas em 2025 não foi sobre Design .Quem acompanha os Saloni e Fuori Saloni anualmente vem notando o caráter cada vez mais comercial da feira, que há muito deixou de ser um point para quem caça tendências. Neste ano, dentro e fora de Rho vimos pouquíssimos lançamentos de produto inédito e muitíssimo esforço para requentar o que já existe há 3, 5, 10 ou mais anos. E está tudo bem, faz parte do jogo! Com um investimento milionário em Euro as indústrias italianas e suas marcas (sim, porque uma indústria fabrica dezenas de marcas) querem vender o que já está no catálogo e por isso o acesso a alguns stands é cada vez mais restrito a compradores (como é o caso da Minotti por exemplo). Enfim, o empresário brasileiro que vai aos Saloni esperando ver lançamentos todos os anos não entendeu nada, e tem muita gente que não entendeu.

O tema central e onipresente nos principais eventos da MDW é sobre protecionismo. Apostando na desglobalização a primeira ministra da Italia, Giorgia Meloni, vem trabalhando forte na desconstrução do processo de integração européia dominado por França e Alemanha. Segundo a premier é preciso proteger a economia italiana e os interesses dos empresários. A restrição aos pedidos de cidadania e as ações de revalorização do selo Made in Italy (enfraquecido quando muitos produtos passaram a ser fabricados na China) são exemplos da política protecionista de Meloni que ecoaram pelos corredores do Saloni e Fuori Saloni.

A maioria das marcas de design italiano investiu em instalações espetaculares e exposições imersivas a fim de celebrar sua evolução, legado e assinatura. Marcas consagradas da moda e do décor destacaram a excelência dos materiais utilizados e o 'capolavoro', num movimento sincronizado e muito bem pensado que colocou até mesmo os designers badalados em segundo plano. Em editorial a revista Elle Decor Italia propôs transformar a capital do design em "capital do pensamento, da responsabilidade e da imaginação" para criar um futuro mais justo e consciente (indireta pra China?).

Na capital mundial do Luxo até este tema foi tratado politicamente. De repente, marcas e profissionais passaram a refletir sobre o perigo do termo "exclusivo", que perigosamente indica algo "excludente". Fato é que agora o Luxo deve ser invisível (ou visível apenas para quem sabe apreciar) e assim o design ganha novos contornos.

Falando especificamente sobre móveis e decoração, Saloni e Fuori Saloni 2025 estiveram bem parecidos com o que vimos em 2023-24, com pouquíssimos lançamentos de ponta, menos festa e mais pé no chão. Por exemplo, uma das marcas queridinhas dos brasileiros (e sem showroom por aqui), a Moooi, saiu da tradicional locação no Salone dei Tessuti direto para a feira e para uma nova e permanente loja em Milão. A marca tcheca de iluminação Lasvit, que no ano passado apresentou uma instalação arrebatadora no Fuori Saloni, este ano levou seus produtos para a Euroluce, assim como a concorrente e não menos espetacular Sans Souci. Business, business, business.

Visitar a Milano Design Week sempre vale a pena, apesar  das longas filas e dos preços exorbitantes porque os italianos sabem montar o show como ninguém, seja requentando os clássicos, seja reinventando a roda, seja propondo novos conceitos. Já está mais do que provado que copiar produtos é um tiro no pé, e copiar as estratégias das marcas italianas, sem o devido ajuste para o nosso mercado é um grande equívoco. Então, o que sobra para os empresários brasileiros que vão aos Saloni é observar, renovar seus repertórios e ler nas entrelinhas que tudo ali é pensado para um mercado global e não local.

 

Num mundo perfeito e idealizado por influenciadores e assessorias pagas, o Design Brasileiro está bombando no Exterior e o stand de produtos brasileiros na feira de Milão é um sucesso. Mas quando olhamos para os reais números da exportação brasileira de móveis a realidade é bem outra. O Design Brasileiro Modernista e os Vintages dos anos 1950-60 fazem de fato muito sucesso na Europa e EUA, onde são comercializados por galerias e antiquários, mas como vai o design feito e fabricado hoje? Primeiramente precisamos entender o que é considerado produto de exportação: há anos a indústria moveleira nacional exporta majoritariamente e não para a Europa móveis de metal para escritórios, móveis de plástico, assentos giratórios, assentos em diversos materiais, suportes para camas e colchões. Muito pouco do que se vende lá fora é design contemporâneo assinado por brasileiros, sejam famosos ou não. E então, quem se dispõe a investir de verdade no nosso design, assumindo riscos, como fazem os italianos? Quem se dispõe a tirar as lentes cor-de-rosa e construir esse cenário idealizado com autenticidade, para além das panelinhas?

    

Mas falemos sobre beleza, e aqui caio na armadilha de mencionar o que eu gostei. Primeiro, a instalação Library of Light, na Pinacoteca de Brera, que trouxe uma reflexão sobre a importância dos livros para a construção de uma visão crítica sobre o mundo. Também gostei da mostra Gucci Bambu Encounters, que celebrou o legado do bambu na maison e reinterpretou a aplicação deste material através da colaboração de designers contemporâneos. A instalação de Tokujin Yoshioka para Grand Seiko e o evento Google foram outros pontos de destaque, provocantes e fora da caixinha.

Verdade seja dita? O pós Milão vem acompanhado de uma tremenda ressaca.

Silvia Grilli - Desenvolvimento de produtos e de Novos negócios

Texto publicado no LinkedIn e reproduzido por gentileza da autora.

  


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Em memória de Renina Katz (1925-2025)

 

Professora da ESDI de 1968 a 1972 Renina tinha formação de artista, e lecionou Meios e Métodos de Representação na Esdi. Era uma matéria similar, em vários aspectos, tanto ao curso fundamental da Bauhaus (o Vorkurs) quanto a uma disciplina do currículo atual da escola, “Introdução aos Elementos da Comunicação” . Sua prática pedagógica era marcada por uma densidade intelectual invulgar no trato das questões da linguagem visual. E era com empatia e generosidade (e um bom humor afiado) que ela partilhava seu conhecimento e sabedoria.

Nasceu em 1925, em Niterói. Filha de judeus poloneses iniciou sua trajetória artística nos anos1940. Aprendeu xilogravura em 1946 com o artista austríaco Axl Leskoschek. E entre 1947 e 1950 cursou a Escola Nacional de Belas Artes. Como também teve aulas com o gravador Carlos Oswald, e concluiu a licenciatura em desenho na
Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil

 Em 1951 mudou-se para São Paulo. Lecionou no MASP Museu de Arte de São Paulo e, posteriormente, na FAAP Fundação Armando Álvares Penteado. Em 1956, publicou seu primeiro álbum de gravuras. Intitulado ‘Favela’, abordava o universo dos trabalhadores urbanos e das pessoas marginalizados, exprimindo suas preocupações sociais. A partir da segunda metade da década de 1950 começou a desenvolver em seu trabalho artístico uma poética não figurativa. E na década de 1970 iniciou sua prática com litografia, usando várias matrizes e cores para obter transparência e luminosidade. Bem mais tarde Renina abandonou a gravura, devido ao esforço que sua produção exigia. E a partir do ano 2000 abriu um novo front, realizando uma série surpreendente de aquarelas. 

 Em paralelo ao seu trabalho artístico ela concretizou práticas pedagógicas na área do projeto. Além do seu curso na Esdi, em 1965 ela tornou-se professora da FAU/USP Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Trabalhou durante 28 anos, e foi lá que ela conquistou seus títulos de mestre e doutora. “Sua dissertação de mestrado – ”Matrizes Modificadoras do Campo Plástico”, defendida em 1979 – teve o pioneirismo de demonstrar um raciocínio visual com uma série de serigrafias. E sua tese de doutorado –“Lugares”, defendida em 1982 – paradoxalmente foi um trabalho não-verbal. Era composta por 13 litografias sobre o tema ‘A Cidade’. E em um texto de apenas oito páginas apresentava o poema “Paisagem: Como se Faz?”, de Carlos Drummond de Andrade. A USP aprovou a tese com louvor! 

 Em 21 de janeiro de 2025, aos 99 anos faleceu a grande Renina Katz. Que deixa, tanto na arte brasileira quanto no ensino da arte, da arquitetura e do design no Brasil, as marcas do seu talento e do seu trabalho. Como artista e professora ela ensinou a perguntar, para fazer surgir a criação.

Washington Dias Lessa com a colaboração de Silvia Steinberg, ex-alunos da Esdi e amigos de Renina. 

Os dois, já como professores da escola, ministraram a mesma disciplina que ela ministrou (Silvia primeiro, depois Washington). E na reforma curricular de 2019 a disciplina foi reformatada e rebatizada como ‘Introdução aos elementos de comunicação I



Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009