Estamos no final do ano de 2025, hora de fazer um resumo do ano e de refletir sobre o futuro. E como anda o design brasileiro? É uma pergunta que fazemos desde sua instituição a mais de 60 anos.
Todos sabem que este pais, com todas as maravilhas que possui, têm um processo de idas e vindas em tudo o que empreende. Assim é também com o design, uma ferramenta que programou na época, como auxiliar ao seu desenvolvimento. Tudo iniciou com o estabelecimento de uma entidade de ensino, seguiu na formação de uma classe profissional, e continuou com uma política de estado e de fomento ao seu uso por toda a economia. Mas ultimamente de se acomodou em um marasmo e um desalento inimaginável, para um país com o potencial que possui! Literalmente o design se acomodou no “status quo”, com os seus agentes simplesmente reduzidos a “pedalar o mínimo para a bicicleta não cair”.
O Design parou!!!
Vamos recordar alguns fatos emblemáticos: Comemoramos este ano 10 anos sem um programa de fomento nacional oficial. O ultimo resquício foi a Bienal Brasileira de Design realizada em 2015, em Florianópolis. Oficialmente tivemos estabelecido em 1996 o PBD Programa Brasileiro de Design, por entidades como o MDIC, BNDES, FINEP, CNPq, CAPES, PACTI, RHAE, com apoio do INPI, INMETRO e ABNT, além do SEBRAE, CNI e SENAI. Muita gente, não podia dar certo, como não deu. O objetivo “máximo” era “O Brasil mostra sua marca”. Mostrou??? Após a bienal de 2015 o programa se auto-extinguiu sem nenhuma explicação.
Inauguração da Desenho Industrial 68 -MAM Rio de Janeiro a 1ª Bienal de Design BrasileiraDevemos lembrar que o Brasil foi pioneiro em estabelecer bienais de design no mundo, com a realização da 1ª Bienal em 1968, no MAM do Rio de Janeiro. De lá para cá tivemos o estabelecimento de dezenas de Design Centers pelo país, com apoio dos estados e das federações e entidades de classe. Poucos sobraram ou se acomodaram em suas regiões ou áreas de interesse, sem expressão nacional e sem chegar ao publico, como um todo. Um dos poucos é o Centro Design do Paraná, hoje denominado Centro Brasil Design estabelecido em 1996, com boa abrangência local e regional mas, com relativa relevância nacional. O CBD é representante no Brasil do IF Design, o premio internacional mais importante, onde o design brasileiro brilha, ano após ano. Entretanto, com pouco reflexo interno, especialmente no nosso meio empresarial. Acaba se resumindo em uma festividade de designers para designers.
A participação
brasileira neste premio já teve outra faceta importante, quando era patrocinada
pelo meio empresarial, por intermédio do Design Excelence entre 2003 e 2009.
Foi onde o design brasileiro passou a brilhar no exterior. A pergunta é: além
de brilhar exportamos nosso design? Quais os resultados deste brilho
inegável???
Infelizmente não há dados sobre isso disponíveis. Ninguém fez ou faz levantamentos a respeito. O que sabemos é que estamos exportando designers, profissionais talentosos, bem formados e com alta demanda. Só na indústria automobilística temos alguns designers brasucas reinando em suas empresas lá fora. O mesmo acontece na indústria de linha branca, de mobiliário ou em estúdios de design internacionais fundados por nossos patrícios, dentre outros. Estes talentos procuram lá fora as oportunidades que não encontram aqui
Continuando no nosso cenário interno, carecemos de maior organização profissional. A par de alguns poucos exemplos regionais, temos muito pouca expressão profissional nacional. A única entidade funcionando efetivamente é a das empresas de design, a ABEDESIGN com sede em São Paulo. Mesmo sendo nacional sua atuação tem mais atuação regional. Promove eventos de interesse da classe com sucesso e um Prêmio Brasileiro de Design, bem organizado e efetivo, mas de pouca abrangência de publico. Mais uma festividade de designers para designers.
Há ainda as associações profissionais setoriais ou regionais, mas cada uma com seus interesses próprios e quase sem expressão, ou ação efetiva perante o poder publico. A classe dos designers tem muito pouca coesão profissional, por isso mesmo com mais de 50 anos de luta continua desregulamentada. Há pouca luta para se atingir os direitos que outras profissões já possuem e que por isso são mais respeitadas. Não conseguimos compreender que o país é corporativista e pagamos um preço alto por isso. Temos projeto de regulamentação em tramitação no Congresso, sem o mínimo lobby e apoio para sua sanção por parte da classe.
Neste aspecto já fomos mais bem representados no passado, alem do PBD tocado pelo MDIC, houve a inclusão do design nas prioridades do MInC, os financiamentos do MCT que hoje se resumem em manter um núcleo de design no INT, que felizmente sobrevive a 50 anos com sua competência. Fora isso pouco temos acontecendo na área federal.
As iniciativas estaduais quase todas minguaram e temos pouca noticia. Acabamos de ter fechado a principal entidade de preservação de nossa cultura material. O eficiente MCB Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, foi desativado sem explicação e sem protestos a sua altura. Com mais de 30 anos de uma premiação inédita, com um acervo que não sabemos o destino, foi simplesmente degolado pelo estado mais rico do pais. É pouco respeito com nossa historia. Temos ainda outra exceção no sul, onde no setor mobiliário, a MOVELSUL realiza concurso e eventos e promovendo o design, mas mesmo assim ainda delimitados a região.
Na atuação profissional estamos nos resumindo a certas “tendências”. O nosso velho design gráfico, ou comunicação visual passou a se resumir ao “branding”. Passamos a ser simples executores de políticas de vendas e sempre a reboque da publicidade. Pouco se fala em comunicação, e há muita procura por atenção na balburdia das redes sociais. Onde o efêmero se sobrepõe ao permanente.
O tal “posicionamento de marca” é a coisa mais transitória que existe. Tudo muda de marca a toda hora, colocando em cheque a tal “consistência da marca” que aprendemos se estabelece com o tempo. Em vez de nos comunicar estamos nos trumbicando, com a ajuda dos nossos designers. Na área da sinalização estamos cada vez mais vendo o “fashion” como constante, nos esquecendo que ainda temos uma população iletrada e com aumento expressivo da terceira idade.
No design de produtos temos setores se rendendo ao “life style” e ao “fashion” transformando o design em um fator oligárquico: só para entendidos, para os de bom gosto, para os que entendem de design. Isso é em parte, fruto da desindustrialização acelerada que vivemos, onde há poucas oportunidades para profissionais no setor produtivo. O que sobrou foi a auto produção, os “makers” que com seus custos mais altos e produtos exclusivos, tende a se dirigir a uma faixa mais exclusiva de usuários e a um informalismo individual. Uma ”uberização” do profissional?
Há inclusive um flerte expressivo com a arte, onde design tangencia a exclusividade e a expressão individual. Isso pode ser constatado nas publicações e nas mostras que ainda sobrevivem, misturadas a decoração e outros setores e sempre visando “likes” nas redes sociais.
O design não se livrou
de virar evento ao invés de um ativo com importância estratégica para nossa
economia. A nossa criatividade virou vitrine e não patrimônio, muito
desconectada da realidade social do pais. O design como parte de nossa cultura
é visto como gasto residual, sem levar em conta sua contribuição para o PIB
nacional.
Nos últimos tempos é raro se ver referencia ao design nos planos de reindustrialização, de incentivo a cultura, ou de apoio a ciência e a tecnologia, formulados como políticas publicas, ignorando completamente que ele é o ativo mais barato disponível. Infelizmente não absorvemos o fato de que design é para todos. A qualidade que o design pode atribuir a nossa cultura material deveria almejar ser um direito de todos.
Mesmo com todas as iniciativas pontuais o design nacional caminha para uma estagnação interna. É necessário um grande esforço conjunto de todos os “stakeholders” ligados ao design para que ele vença o desalento e o clima atual. Nosso design precisa recuperar sua posição como estratégia de qualidade, de valor agregado, qualquer que ele seja.
Precisamos “pedalar muito” para que o design seja definitivamente um fator importante, para que o brasileiro viva melhor, contribuindo para o desenvolvimento econômico e se orgulhe de sua cultura material.
O talento do design brasileiro
merece!!!


