Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Sergio Rodrigues, a OCA e Brasília

A relação entre Sergio Rodrigues, a OCA e Brasília foi profícua e longa. Iniciou-se à época da construção da cidade, quando o mobiliário para o Catetinho foi escolhido, passando por inúmeros prédios e interiores, nos quais “exigia-se” a utilização exclusiva de mobiliário de autoria do Sergio, até os anos 90. A equipe de arquitetos da nova capital identificava-se com os projetos e com os produtos de Sergio e não viam uma alternativa na hora de mobiliar os novos ambientes criados. Podemos, inclusive, dizer que os pedidos de Brasília, nos anos 60, incentivaram o processo de crescimento da OCA, empresa emblemática fundada por Sergio. 

É o caso da UnB com Darcy Ribeiro, o reitor à época, como descrito nesse magnífico trabalho de José Airton Costa Junior. A poltrona Dois Candangos, sem dúvida, inspirou a poltrona de auditório PA-1, de grande sucesso posterior. Não podemos esquecer o caso dos Palácios da Alvorada e do Planalto, por exemplo, que até hoje possuem inúmeros exemplares de mobiliário da OCA em uso e em perfeito estado. Na época de sua fundação e nos anos seguintes, a OCA mobiliou muitos Ministérios e Autarquias, virando uma autêntica tradição o uso de seu mobiliário nesses espaços. Sergio era convidado a criar peças próprias e muitas vezes inéditas, para atender a este ou aquele projeto. Foi assim no Itamaraty, onde suas peças mobiliaram os principais gabinetes e salas do Palácio dos Arcos, que então passou a ser a verdadeira sala de visitas e recepções da República. 

Todo o mobiliário dos anos 60 era caracterizado pelo uso de madeiras nobres, como o Jacarandá, e por revestimentos de alto padrão, como o couro natural. Infelizmente, isso contribuiu para esgotar as reservas brasileiras daquela madeira, mas, por outro lado, equipou esses ambientes com peças quase indestrutíveis. A qualidade era representada não só pelo material, mas principalmente pelo design característico da época, com dimensões generosas e com largo uso de madeiras nobres. Nos dias de hoje, essas peças têm sido redescobertas e muitas, ao passar por restauro, foram revalorizadas.

 Mesmo depois do Sergio ter saído da OCA, essa tradição se manteve. Podemos afirmar isso com certeza, pois tive o privilégio de colaborar com a empresa após sua saída. Fui contratado pelos novos donos, em meados dos anos 70, para ser o designer, sucedendo a esse grande mestre. Era um momento em que a empresa não mais mantinha relações com Sergio. Ser o sucessor de Sergio era uma tarefa assustadora já que eu conhecia sua obra pregressa. Felizmente conseguimos contornar as adversidades ao reafirmar a importância de seu legado, ainda que ele não estivesse mais presente na OCA. Após algum tempo, pudemos reestabelecer o contato com Sergio, o que facilitou minha atividade na empresa, mas antes de tudo, criou-se uma amizade, da qual me orgulho em ter estabelecido. 

 Desde as modificações que fiz na KILIN, para exportação, passando pela coordenação na Linha TUPAN, até o projeto do estofado BINGEN, todos tiveram sua aprovação e consultoria. Esse último, por minha insistência, foi um projeto contratado diretamente com ele e que tive o prazer fazer o protótipo. 

Outro momento importante foi a parceria para a concorrência de criação das poltronas do Teatro Nacional. O projeto ganhador foi o do Sergio. Eu fui o responsável pela prototipagem, e a inspeção de montagem foi feita juntamente com ele. Foram anos de colaboração e de crescente amizade. 

O mercado de Brasília era importante para qualquer empresa e a OCA tinha a prerrogativa de já ter fornecido móveis largamente o que fez com que ela continuasse a prover mobiliário para lá, mesmo na época pós-Sergio. Muitos modelos da coleção OCAClássica, como a chamávamos à época, complementavam instalações e necessitaram de adaptações para atender a situações específicas. Era minha tarefa, em paralelo aos meus modelos, fazer e coordenar essas modificações. Lembro de uma cadeira CANTU especial com encosto altíssimo, que produzimos para uma sala de reuniões do Ministério do Planejamento. Mostrei as fotos, com a cadeira modificada, à Sergio e ele me declarou gentilmente que eu tinha feito melhor do que ele. 

Acho que um resultado de nosso bom relacionamento foi ele ter executado produtos, que batizou com os nomes dos novos donos da “sua” Oca e que estão mencionados em seu livro, as poltronas Osmar e Giulite. Mais uma pequena demonstração de que ele conseguia se sentir ainda fazendo parte de seu legado na OCA. Para mim, essas atitudes são uma mostra do grande coração que habitava no peito do nosso maior designer brasileiro. 

O presente estudo, mais uma vez valoriza seu trabalho e sua história, 

Viva Sergio Rodrigues!!! 

O presente texto faz parte do livro "Sergo Rodrigues e o mobiliário modrno de Brasília" de Jose Airton Costa Junior  Brasilia, DF Ed.Tiagore, 2021 - Pesquisa que resultou em publicação e exposição no MAB Museu de Art de Brasília, de 12/2021 a 01/2022. 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Projetos e projeções

Fala-se constantemente em inovação, nas escolas, na imprensa, nos seminários, nas “lives” tão comuns neste período de pandemia. Os filósofos e os gurus da economia e da administração, os jornalistas especializados, deles só ouvimos o mote que a inovação é a pedra de toque da sobrevivência. 

Em um país em desenvolvimento como o nosso há uma necessidade de novos projetos, de planejamento, do uso dos parcos recursos de que dispomos da forma mais racional e inovativa possível. Mas nós acreditamos verdadeiramente nisso??? 

Inovação pressupõe talento, estudo, pesquisa, risco, iniciativa. Mas pressupõe também capital, tempo, formação, mercado, fomento e credibilidade! 

Na área do design, podemos dizer, que tudo o que foi elencado na primeira parte dessa frase está presente em nossa realidade, até mesmo com sobra. Falta-nos é a segunda parte e sem ela não conseguiremos sobreviver. 

Fico impressionado com o desperdício de idéias, de projetos, de possibilidades já desenvolvidas e que desprezamos sem a menor cerimônia. Nas escolas e faculdades de design se pratica a disciplina de projeto, como espinha dorsal. Todos os graduados têm que apresentar um projeto de graduação, um TCC, como é conhecido. As prateleiras destas instituições estão lotadas destes projetos, muitos de excelente qualidade e que nunca tiveram a chance de chegar ao meio produtivo, ao mercado.  

Os concursos de design, que realizamos há décadas, apresentam, projetos, idéias, produtos da mais alta qualidade. Muitos são premiados, mas também tem vida curta, não chegam ao meio produtivo, ou quando chegam duram pouco, por razoes que desconhecemos. Assim com nas leis, no Brasil há projetos “que pegam” e outros que não pegam. Mesmo que sejam melhores. Há inclusive produtos de sucesso que somem, sem explicação. 


 Há alguns anos a revista “Industrial Design” americana elogiou uma de nossas embalagens, o saquinho de leite! Argumentou que era um exemplo de solução menos poluente, mais inteligente e mais racional que os “packs” utilizados no seu país. Considerou que isso demonstrava que um país jovem como o nosso, aprendia dos erros por eles cometidos. Hoje não temos mais o saquinho, exceto em alguns casos excepcionais e temos uma montanha de “packs” depositados em nossos lixões e no oceano. 

Parece que nós nos “cansamos” de ter uma boa idéia e depois de um tempo a descartamos, sem memória. Isso já aconteceu com produtos “brazucas” reconhecidos aqui e lá fora também. Dois produtos publicados e premiados fartamente e que nos orgulhavam como símbolos de nossa inteligência sumiram de nossas prateleiras, sem explicação. O filtro para água, uma versão moderna do celebrado filtro de barro, da Ceramica Stefani desenvolvido pela DAP Design do Roberto Brazil e do Oswaldo Solla, foi amplamente premiado aqui, tendo ainda recebido o IF Design Award na Alemanha, em 2004. Foi comercializado por um tempo e depois descartado pela empresa, sem nenhuma explicação. Outro exemplo é a jarra para água DUE, produzida pela Coza, que foi premiada em 2006 no MCB Premio Design do Museu da Casa Brasileira. Com design de Valter Bahchivanji, tem a característica de uma tampa, que abre e fecha, dependendo de sua colocação, mas seu formato é tão inteligente que cabe na geladeira de forma a desocupar espaço. Foi distribuída por algum tempo e depois sumiu do mercado. Não há disponíveis jarras com este formato e características, deste ou de outro fabricante, infelizmente O que se percebe é que não acreditamos no que nós mesmos produzimos.


Enquanto isso, há produtos que se tornam ícones e mesmo com o passar dos anos continuam a existir e a serem considerados ótimos. A poltrona Mole, do designer brasileiro Sergio Rodrigues de 1956 é um exemplo. Foi lançada e somente teve sucesso, depois de receber premio na Itália. Teve 16 copias produzidas por concorrentes, registradas pelo criador, foi quase descontinuada e ressurgiu com todo vigor, sendo um item obrigatório em projetos de decoração contemporâneos, mesmo 65 anos depois.

A nossa cultura material precisa de inovação. Mas precisamos, antes de mais nada, entender que inovação tem que ter quem acredite nela. As decisões sobre se um produto nasce ou morre são, na maioria das vezes tomadas por quem os produz, com critérios nem sempre adequados a cada caso, sem uma visão holística. 

Mas sempre com um olho, ou os dois, no lucro! O único critério que serve para nossa classe produtora!!! Será que por isso descartamos tantas idéias com potencial??? Até quando desperdiçaremos projetos, por não termos claro qual a sua projeção? 

Até quando deixaremos de acreditar no que projetamos???

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Design Democrático ou Oligárquico???

Em uma entrevista dada à algum tempo, o economista e articulista Eduardo Giannetti da Fonseca definiu o paradigma da nossa economia entre Democrática ou Oligárquica. Ele defendia a primeira, mas alertava para a nossa opção, quase que inexorável, pela segunda. Em um raciocínio paralelo aplicado ao design, tenho que concordar que sofremos do mesmo mal. 

Com quase 60 anos de implementação no país, ainda não conseguimos que o design fosse reconhecido como um direito de nosso usuário. Em 2015 quando da realização de nossa última Bienal Brasileira de Design, em Florianópolis, SC, o tema da mostra era justamente "Design para Todos". Em 1997 ao participarmos do Congresso do ICSID (hoje WDO World Design Organization), em Toronto no Canadá, onde defendemos a candidatura brasileira para o Congresso de 2004, colocamos como nossa proposta de tema “Design and Social Debt" (O Design e a Divida Social). Mesmo sendo precursor e elogiado para a época, infelizmente perdemos a candidatura. Desde então, nós designers, já demonstrávamos nosso preocupação com a inserção do tópico em nossa sociedade, reapresentado em diversas reuniões profissionais ou estudantis realizadas no país. 

Apesar deste tempo todo de formação de recursos humanos competentes, com dezenas de iniciativas de difusão do design ente nos, com inúmeras demonstrações de qualidade do nosso design, vencedor de prêmios internacionais, o design ainda claudica como atividade de incremento de qualidade de nossa cultura material. Temos instituições que batalham pela difusão de nossa criatividade, tanto publicas, o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, SP, ou o Centro Brasil Design, em Curitiba, como privadas, a MovelSul em Bento Gonçalves, além de outras mais recentes. Entretanto não há praticamente nenhuma instituição governamental que apóie permanentemente a utilização do design, de forma estratégica em nível nacional. Nossas associações profissionais têm enormes altos e baixos na sua atuação. As entidades empresariais têm também um vai e vem, no apóio a atividade. O poder público, infelizmente enxerga apenas o fator econômico como fundamental, quando se vale do design, para fomentar algum setor. 

Com as crises que ciclicamente vivemos, temos agora, além da pandemia, a crescente desindustrialização de nossa economia. O design que, historicamente, vinha se "infiltrando" na indústria, no comercio, nos serviços, foi simplesmente dispensado com o argumento de economia. Isso significa que ele nunca foi considerado investimento, o que esperávamos ter acontecido. Oferecer algo melhor, nunca foi um fator de lucro, o que é o motor de nossa sociedade capitalista. Essa visão não é apenas de nossa classe empresarial de capital nacional. Muitas multinacionais instaladas aqui, que sempre se beneficiavam do competente design brasileiro, desmobilizaram sua equipes e enviaram os "brazucas" para suas matrizes, como forma de economia. Não se pode negar que a produção em escala, com criatividade nacional atendeu, atende e atenderá muito melhor as necessidades de nossa sociedade. Alem de economizar divisas com importações, que hoje são via de regra, dá e dará emprego e nos proporcionara autonomia e valor agregado a nossa produção. Na verdade é essa a verdadeira democratização do consumo, dada ao nosso usuário e a nossa sociedade. 

 O que sobrou então para nosso designer? Eles têm que "se virar" para sobreviver! Muitos agora desempregados abandonaram a profissão, outros foram para fora do país, tentar chances onde houvesse outras e melhores oportunidades. Muitos dos que aqui continuam a batalhar se dedicam a trabalham por valores aviltantes, ou fazendo auto produção, viraram empresários e em muitos casos terceirizam sua produção, que depois comercializam, de um jeito ou de outro, mas nem sempre com sucesso. 

O que se observa é que com o achatamento do poder aquisitivo do nosso consumidor, somente sobrou a classe superior, mais esclarecida, ou mais “design conscious” e com alguma "bala na agulha". Com isso o resultado da produção de design "autoral" passou a ser cada vez mais oligárquico e exclusivo. As previsões de custo estimadas, por alguns dos concorrentes de um concurso recente de design, para seus produtos/projetos concorrendo, eram simplesmente estratosféricos, comparados a produtos reais e de mercado. A maioria alegava em seu memorial que "ele se destina a um público esclarecido e com sensibilidade ao design". É a cultura do “life style” tomando conta do design?!?! Um design oligárquico??? Temos que ter consciência do que estamos assistindo. a uma verdadeira crise de propósito do design nacional. 

Temos que ter a noção que se não houver um retorno a democratização de seu uso vamos para um beco sem saída. O objetivo do design tem que levar em conta sua função abrangente, com máximo respeito a inclusão, por meio do valor social, da sustentabilidade, ergonômico, psicológico, comportamental, e de qualidade, que não pode ser apenas econômico ou de status,em qualquer mensagem ou produto produzido. 

Mais do que nunca devemos voltar a ver o design com um "direito" do usuário. 

"Design para viver melhor",é do que precisamos com urgência!

terça-feira, 23 de março de 2021

Falando de Design

Entrevista dada a jornalista Cláudia Ferraz em 2017, para uma matéria que resultou em um livro, publicado pela FIRJAN em 2019, que pretende dar um panorama da indústria de mobiliário no Rio de Janeiro. 

Quatro anos depois, verificamos que o “retrato” continua o mesmo, ou com a pandemia piorou muito. Uma pena!   Como você avalia o mercado do design brasileiro hoje? É um mercado que cresce, mas sempre acredito que poderia crescer mais, especialmente porque temos um mercado interno forte. Com a nova classe média, o poder de compra gera novas demandas e faz girar a economia. O Brasil inova muito em produtos. No entanto, o designer brasileiro ainda é pouco utilizado pela nossa indústria. 

Qual é, no contexto dessa indústria, o papel do designer? Ele é o profissional que vai olhar a empresa, fazer o que seja adequado a ela, mas que principalmente vai colocar uma nova possibilidade no mercado. É dessa forma, aos poucos, que o empresário vai entendendo que o design tem que fazer do dia a dia dele. 

E o lugar da indústria carioca nesse panorama? Pois é, a história da indústria no Rio de Janeiro é muito peculiar. É uma indústria que já foi a terceira do Brasil, e hoje está numa posição muito abaixo, em 17 ou 18º lugar. E em design ela já foi pioneira. Na época da Oca, por exemplo, os móveis de classe saíam do Rio de Janeiro. Brasília, quando foi construída, se abasteceu com móveis do Rio de Janeiro. Sergio Rodrigues, alias, ampliou sua empresa devido a essa demanda. E a Oca tinha showroom em São Paulo, em Belo Horizonte e em Brasília. É uma questão de valorização do design em todas as etapas, inclusive na comercialização, e não só vinculado ao desenho propriamente dito. Eu mesmo tive uma experiência muito rica na Oca, trabalhei quatro anos como empregado e mais quatro como consultor. O legal é que eu podia fazer tudo. Fiz mobiliário, embalagens, adesivos de exportação, cartazes de exposição dos artistas. Havia uma receptividade grande ao que se poderia criar. Mas, de forma geral, penso que a indústria do Rio vem perdendo força desde os anos 1960. 

A que você atribui esse declínio? Veja, é uma indústria que nasceu sendo também comercializadora dos seus produtos. Cada empresa tinha suas próprias lojas e vendia só através dessas lojas. Por muito tempo foi assim. Hoje o perfil mudou e a indústria não acompanhou. Porque a indústria evoluiu para a produção em alta escala e o Rio de Janeiro sempre se limitou a produzir para o mercado regional. E permaneceu dessa forma, me parece. 

A questão da mão de obra, considerada difícil atualmente, é um fator que impede o desenvolvimento da indústria? O problema da mão de obra é que se confunde indústria do mobiliário com marcenaria. E ela não é mais. Ela é de alta escala. Você não pode trabalhar apenas com um material, com a madeira e seus subprodutos. Trabalha-se hoje com metalúrgica, plástico, materiais alternativos, estofaria, papelão etc. Então a marcenaria já não é mais tão importante. Apesar de nos últimos anos ela ter retomado sua importância por meio de jovens designers, que estão produzindo com madeira certificada, reflorestada. Depois dos anos 1980, com o declínio do uso das madeiras nobres por questões ambientais, muita coisa mudou no cotidiano das empresas, aliás muitas empresas, as de médio porte principalmente, não acompanharam as mudanças. Por outro lado, algumas empresas estão utilizando também a madeira de reflorestamento. E nesse panorama todo, a formação da mão de obra praticamente não acompanhou a tendência do uso de materiais diferenciados e de tecnologias próprias. Eletrônica, produção digital etc. essas coisas ainda precisam ser exploradas, integradas na formação profissional, o que acaba refletindo na produção e na qualidade do produto. 

Em que medida a Esdi contribui para alterar esse quadro? Como a primeira escola de nível superior na área de desenho industrial no país, a ESDI influenciou todas as outras. Mas foi muito limitada sua influência sobre a indústria do mobiliário. E no Rio poucas empresas utilizaram os profissionais de design, até pelo encolhimento do setor, que eu chamo de uma desindustrialização progressiva. O Rio de Janeiro, entretanto, continua a ser um grande formador de opinião e de designers de nome. Bernardo Senna, Guto Indio da Costa, Sérgio Rodrigues, Zanine e o filho Zanini de Zanine, entre outros. O que ocorre é que a indústria recente ainda não mordeu a isca do design. Eles poderiam se diferenciar. Mas ainda vêem o design como custo e não como investimento. Talvez a crise econômica venha contribuir para alterar esse quadro: o design sendo utilizado para melhorar a produtividade, o uso de recursos, o uso da mão de obra. 

Porque o preço não é mais o diferencial. Com a indústria utilizando os mesmos materiais dos mesmos fornecedores, o que sobra é o design. 

Publicado em “Retrato de um História Social – A indústria moveleira do Rio de Janeiro” (pag.134 a 137) SENAI/FIRJAN 2019 - CDD749-298153

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A Chapa Metálica no Design

 Não sei exatamente por que, mas sempre fui fascinado por chapa metálica. Acho um material com muitas possibilidades de uso, mas pouco valorizado pelos designers atuais. Acho que poderíamos ter um “retorno” a chapa metálica para evitar no futuro a piora no descarte de plástico que já enfrentamos nos dias de hoje.

Fogão industrial em chapa esmaltada


Aspirador de pó em chapa pintada

 


 

 

 

 

 A chapa metálica tem uso milenar. Os antigos, quando conseguiram laminar os metais, não poderiam supor que esta técnica pudesse ter tantos desdobramentos. Nos dias atuais a chapa metálica tem a possibilidade de ser utilizada em grandes ou pequenas produções. Da indústria automobilística à serralheria ela esta presente em diversas formas e aplicações. Dobrada, estampada, recortada, repuxada, laminada, perfilada, prensada, perfurada, pintada, cromada, galvanizada, revestida, inoxidável, anodizada, elas podem ter a forma, desde folhas finas de alumíno ate chapas reforçadas para uso naval.

Gabinete para equipamento em chapa pintada

A sua manufatura pode ser feita, com simples guilhotinas e dobradeiras manuais até em prensas automáticas poderosíssimas, com muitas toneladas de capacidade. Podem ser utilizadas para fabricação de simples arruelas, até partes inteiras de carrocerias de automóveis ou de cascos de navios. As chapas ainda podem resultar em perfilados estruturados ou tubos de qualquer formato tornando-se uma das matérias primas mais versáteis, disponível.

Desde os anos 50 os plásticos têm tido a predileção, pelos designers ao uso das chapas. Muitos produtos que eram produzidos em chapa metálica, não importando a matéria prima, foram redesenhados para sua produção em plástico. Especialmente os produtos de uso diário, ou de alto consumo. Os plásticos possuem a vantagem de já sair de produção com seu acabamento, que pode ser dos mais variados. Ao passo que os produtos de chapa pedem acabamento e proteção extra, pintura ou outros.

Sabemos bem no que este processo resultou. Oceanos de plástico espalhados pelo planeta, por descarte impróprio, busca por processos de reciclagem, cada vez mais específicos e caros, resultando em grandes problemas ambientais. O usuário nem sempre é consciente disso e na maioria das vezes contribui para um descarte não adequado, agravando o problema. No caso de produtos de chapa metálica, há um descarte muito mais fácil e adequado, como no caso do alumínio, por exemplo, onde a reciclagem e o reaproveitamento é de 100%, sem falar nas chapas ferrosas, que se desmancham sozinhas, pela corrosão, sem agredir o meio ambiente. Elas são ainda perfeitamente recicladas, desde que coletadas adequadamente. Devemos re-valorizar o uso de chapas metálicas no futuro, especialmente por se adaptar bem a pequenas, médias e grandes produções e pela alta possibilidade de reaproveitamento que elas possuem.

 Tanto na indústria eletrônica como na de aparelhos científicos há grande campo para o emprego de chapas metálicas, especialmente em produtos de baixa produção.  Nesta área são muito utilizados gabinetes padrão sem personalidade e não adequados. Nos anos 60 empresas eletrônicas utilizaram de chapas metálicas em seus gabinetes que estão sendo replicadas por empresa atuais. No primeiro caso a podemos citar a Braun e no segundo a Apple, como exemplo, e seus produtos. O mesmo acontece nos novos “smartphones”, cada vez mais apresentados com acabamentos em metal.

Gabinete Mac Pro

Produtos Apple em chapa metálica

Case metálico do iPhone 12

      

 

 

 

 

 No mobiliário vemos também um crescendo no uso de chapas metálicas, combinadas a madeira ou outros materiais. Por muito tempo isso foi evitado, especialmente em nosso país, onde a siderurgia era de péssima qualidade. Hoje em dia temos a produção de laminados de aço de qualidade, que rivalizam com os produzidos no exterior. Isso se deve, especialmente, por exigências da indústria automobilística e pelo fato de que nossos principais centros de consumo se situam a beira mar.

 Recentemente temos alguns exemplos que podem servir como referência, para uma revalorização do uso deste material. O uso maior de chapas metálicas tem ainda as facilidades de produção digital, com seus recortes a laser, ou dobradeiras digitais, por exemplo, que permitem produção em pequena escala ou mesmo personalizada, fato impossível com a maioria dos processos em plástico.Como temos grandes recursos minerais no país, em todos os metais disponíveis, precisamos redescobrir o valor e as vantagens do uso e da aplicação de chapas metálicas no design de produtos, de qualquer natureza.

Com isso o pais contribuirá de forma substancial para o meio ambiente e pela redução de resíduos plásticos, nos oceanos e nos lixões, dando uma lição aos que optaram pelo contrário.

A nossa nova realidade material merece isso! 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Manuel Leite Magalhães, sua trajetória e o Design - Uma Homenagem.


Tendo chegado ao Brasil em 1946, vindo de Portugal, Manuel Leite Magalhães logo se estabeleceu no Rio de Janeiro, e se dedicou a atividade de construir móveis, produtos e instalações em madeira. A partir de 1948 se tornou empresário do ramo tendo fundado, ao longo dos anos, as empresas FLAMA, Móveis Açolandia, Estofados ML Magalhães e Móbile Móveis de Escritório, todas, dedicadas a fabricação de móveis residenciais, de escritório e instalações de interiores, sempre de alto gabarito. Todas estas empresas foram iniciativa, de propriedade, ou constituídas com a participação de Magalhães e que se dedicavam a manufatura e a comercialização por meio de lojas próprias. Este processo se consolidou com a constituição em 1956, da ML Magalhães Indústria e Comércio de Móveis S/A que com esta razão social foi sucessora das empresas fundadas em anos anteriores.

 Um Histórico da ML Magalhães Ind. Com. de Móveis S/A

A nova razão social cristalizou um processo de procura por uma identidade própria, de uma nova organização e pela produção em série, com métodos altamente industriais. Foi adotada na mudança para novas instalações em 1965, e coincidiu com uma reorganização e expansão de seu parque fabril.  Mais tarde em 1974, com importação de novos equipamentos e sua especialização em móveis de escritório, a empresa adquiriu sua face mais conhecida, ou seja, a de ser líder no seu segmento no mercado do Rio de Janeiro e uma das dez maiores empresa no pais neste segmento, em sua época.

 Alguns dados sobre a empresa

A empresa teve sede em Olaria com 6.000 m2 de área fabril, e possuía um terreno de 17.000 m2 na Rodovia Washington Luiz ande construiu uma primeira etapa da nova unidade fabril com 2.000 m2, para um projeto total de 12.000 m2. Empregou em média um total de 230 funcionários e técnicos. A fábrica possuía os setores de marcenaria, estofaria, metalurgia, injeção de poliuretano,esta pioneira no Rio de Janeiro, e produziu móveis de escritório e sistemas de móveis, destinados a todos os níveis de hierarquia, assentos de todos os tipos, cadeiras, poltronas e estofados institucionais, além de divisórias piso teto. A comercialização era por meio de Show Room próprio, com equipe de vendas externas no Rio de Janeiro e por meio de representante em São Paulo, Minas Gerais e outros estados.

Magalhães teve sempre uma preocupação social e ambiental reconhecida por todos. No relacionamento com seus funcionários a empresa ofereceu assistência médica, cesta básica, vale transporte e outros benefícios, além de premiações por desempenho. Sua preocupação ambiental lhe rendeu reconhecimento e premiações de organismos internacionais.

Ao longo de sua existência a ML Magalhães foi distinguida como fornecedora de mobiliário institucional, para as maiores empresas brasileiras, sejam nacionais ou multinacionais, além de diversas instituições importantes. Dentre elas podemos citar: Petrobrás, IBM do Brasil, Gillete do Brasil, Banco Nacional, KLM Linhas Aéreas, United Airlines, Rede Globo, GloboSat,  Radio Globo, FIRJAN, FIOCRUZ, UERJ/NUSEG, CEFET/RJ, Papeis Pirahy, Consulado Americano do Rio de Janeiro, TELERJ/TELEMAR, Banco Icatú, Aeroflot Linhas Aéreas, João Fortes Engenharia, BANERJ, Casa da Ciência/ UFRJ, Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ, Revendedoras Autorizadas Volkswagen e Honda, GAFISA, Ministério do Exercito, Ministério da Justiça, Centro Cultural da Paraíba, etc. Em termos de divulgação de seus produtos a ML Magalhães teve ativa participação em feiras e exposições como a Brasil Export, Parceiros para o Progresso, Fenavem, Mostra do Móvel de Escritório, Office Solution, Rio Office, dentre outras.

O Design na ML

O empresário Manuel Leite Magalhães sempre se relacionou com arquitetos, designers, artistas e o meio artístico, sendo inclusive um grande colecionador de arte. Na fabricação de móveis, teve uma preocupação com Design, sempre manifestada em declarações públicas ou em entrevistas à imprensa. Tendo ele próprio, no início, se aventurado nesta área, procurou sempre que possível contratar para a empresa, profissionais com formação e competência adequadas às necessidades do seu desenvolvimento.

Desde 1974 a ML passou a investir sistematicamente em Design e obtendo com isto uma sensível elevação de seu percentual de participação no mercado, além de ter se perfilado entre as empresas de melhor padrão do país.  Fato bastante raro em empresas de capital nacional, na época. Aplicou uma política de valorização estratégica do Design, não só nos seus produtos e imagem, mas como fator efetivo de diferenciação, que incluía a prestação de serviços. No ano de 1996 houve expressivo reconhecimento do investimento dessa política de Design. A ML Magalhães foi contemplada com dois prêmios em um só ano! O primeiro, para a linha GAMA de cadeiras que poltronas recebeu o primeiro lugar em sua categoria no Salão DESIGN Móvelsul 96, Bento Gonçalves - RS, considerada a mais importante feira de mobiliário brasileira. O segundo, quando foi premiada com o Selo RioComDesign, conferido pela Prefeitura do Rio de Janeiro e CentroESDI às empresas que mais investiram em Design na cidade. Recebeu ainda o Prêmio CNI Gestão do Design 1970 de reconhecimento nacional.  Design era parte integrante do sucesso da empresa e se refletia desde a manufatura até a comercialização, dentro de um processo de qualidade total a ser perseguido e mantido, de forma coerente e constante. A ML foi a primeira e única empresa brasileira a ser admitida no ICSID, International Council of Societies of Industrial Design, (hoje WDO) como produtora reconhecida de design de qualidade..

Alguns fatos sobre Manuel Leite Magalhães

Como empresário Manuel Leite Magalhães tinha o melhor conceito, tanto entre os seus concorrentes, clientes ou funcionários. Nos 50 anos de atividade empresarial, não foram poucos os funcionários que iniciaram suas carreiras e se aposentaram exercendo suas atividades na empresa. Houve inúmeras situações de cooperação entre a empresa ML Magalhães e seus concorrentes em situações de força maior ou de dificuldades, o que consolidou o nome de Magalhães entre seus pares.

Além disso, sempre procurou manter contato com outras realidades, tendo participado constantemente de caravanas empresariais e visitas a feiras internacionais, se utilizando disto para atualizar a empresa tecnologicamente e em termos de informação. Manuel Magalhães teve também ativa participação no meio empresarial, onde foi fundador e presidente da AFAM  Associação dos Fabricantes de Mobiliário, órgão de abrangência nacional onde defendeu ideias bem definidas e de representatividade do setor e que deu origem a ABIMÓVEL.

Ao longo dos seus anos de atuação Magalhães participou de projetos importantes como, por exemplo, a fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro além de ter patrocinado diversos eventos culturais e profissionais. Em conjunto com a FIRJAN e a General Motors do Brasil patrocinou a exposição “ESDI 30 - Conseqüências de uma Ideia”, patrocinou diversas peças teatrais e o mobiliário para a Casa da Gávea, promoveu concurso de Design para estudantes do Rio de Janeiro, além de ter doado móveis para programas culturais na TV Educativa. Magalhães se afastou das atividades de sua empresa em 2000, e ela encerrou suas atividades por volta de 2015.

Um empresário de visão, atuação e competência, como Manuel Leite Magalhães fará muita falta ao cenário econômico do Rio de Janeiro!

 Manuel Leite Magalhães faleceu em 21.10.2020. 

Nossas homenagens a ele!

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

A APPLE e o Brasil – Ontem e hoje

Esta semana a INFOMONEY publicou a noticia de que o valor da empresa APPLE passou a ser de US$ 1,88 trilhão, superior ao PIB brasileiro de US$ 1,84 trilhão, de 2019. Isso demonstra mais uma vez o fato, já mencionado aqui, de sermos um país sem projeto. O Brasil é a nona economia do mundo, mas ainda não consegue entender em que época está. Esse número nos fez lembrar alguns fatos dos anos 80/90, onde tivemos por momentos uma certa supremacia sobre esta empresa, pelo menos em termos tecnológicos.

Vivíamos uma época de ditadura e de fechamento de nossa economia. A computação pessoal estava se implantando no mundo inteiro e nós decidimos como política “reinventar a roda”. Não podíamos importar equipamentos de informática, no sentido de pretender fortalecer a indústria local. As indústrias nacionais se juntaram as universidades e centros de pesquisa para reinventar o computador pessoal. Ora isso não seria fácil, e por falta de tecnologia instalada anteriormente o recurso de que se lançou mão foi a cópia.

Foi a tônica do momento também em outros países, em meados dos anos 80. Especialmente nos tigres asiáticos, como muitos devem lembrar. Diferentemente dos primeiros PCs, desenvolvidos pela IBM, com patente aberta, os produtos da Apple eram difíceis de copiar, pois tinham características próprias, pensadas para tal. O Macintosh era alegadamente impossível de copiar ou clonar, entretanto uma empresa brasileira o copiou, por meio de engenharia reversa, de forma magistral, a UNITRON. Eles já tinham experiência em copiar produtos da primeira geração da APPLE, assim como a DISMAC, a MILMAR, a CCE e a MICRODIGITAL com o seu famoso TK 2000, todas empresas locais. Estas empresas se desenvolveram sob o guarda chuva da Lei de Informática, que fechava o mercado nacional de forma irracional.

 

O projeto do UNITRON Mac 512 exigiu porem um esforço muito maior, pois envolvia a inclusão de HDs especiais, acionadores de disquete, desenvolvimento de ROM, que resultou ser maior do que o original da APPLE, dentre outros itens, proibidos de importar. Todos estes componentes foram desenvolvidos aqui, com tecnologia de micro mecânica muito precisa, além dos insumos eletrônicos, os CIs, importados ou contrabandeados por alto preço. O desenvolvimento deste parque de fabricantes trouxe, inclusive, fabricantes de microprocessadores, para o país, que com o tempo e o mercado promissor, alimentavam esta demanda da indústria.

Com o governo Collor, estabeleceu-se a abertura do mercado brasileiro em geral. A Lei de Informática foi reformulada em 1991, abriu o mercado para as multinacionais do setor e permitiu a importação direta. Com isso esperava-se que houvesse a modernização do parque industrial pela cooperação das empresas de fora. Não foi o que aconteceu pois as empresas nacionais foram adquiridas, pelas "multis" e muitas foram fechadas sumariamente. Outras, viraram importadoras ou subsidiárias de fornecedores de produtos prontos. O parque industrial da informática brasileiro deixou de existir e com isso nossa capacidade de projeto, se esvaiu. Viramos meros montadores, utilizando os incentivos da Zona Franca de Manaus.

Antes disso, em 1988, tivemos um episódio bizarro, onde executivos da APPLE se mobilizaram, junto com o governo americano e poderosos advogados, para punir a UNITRON, pela sua ousadia em ter copiado, com sucesso, o Macintosh. O clima da época era o de demonizar as cópias, que o governo tinha incentivado, anteriormente. Isso, somado a ameaças de retaliação pelo governo americano, fez com que a UNITRON não pudesse continuar com o projeto. Esse episódio também originou em uma nova Lei do Software, na mesma época.

Tomando-se o exemplo dos chineses, que tem como política obrigatória, a junção de interesses de empresas, constituindo ”jointventures” entre empresas deles e multis, o nosso governo não tomou nenhuma medida semelhante. Se tivesse feito, poderíamos hoje ter o domínio tecnológico que os chineses têm e ainda ser fornecedores a essas empresas, como é a realidade deles. Os chineses foram grandes copiadores no passado, mas com as “jointventures” passaram de copiadores a desenvolvedores de sua própria tecnologia, dominando-a em muitos setores.

Temos, já de muito tempo, por falta de uma política governamental efetiva, deixado a indústria á míngua. Não utilizamos nossas capacidades, nossas possibilidades nem nossa inteligência plenamente. Persistimos em uma política limitada de commodities obtusa e unilateral. Se considerarmos que o valor de um iPhone é equivalente a oito toneladas de minério de ferro, podemos perceber o que estamos perdendo em valor agregado a nossa produção e em especial em domínio do projeto.

Temos perdido pesquisas, projetos realizados com sucesso, pessoal especializado, temos fechado centros de pesquisa e facilidades industriais já estabelecidas. Neste setor tivemos o CPQD Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás fechado, o CTI Centro de Tecnologia da Informática esvaziado, ambos em Campinas, SP, sem falar nas indústrias de CIs/Chips que deixaram o país, já nos anos 90 e nunca retornaram.

 Imagine o que estaríamos ganhando caso houvesse um desenrolar diferente, dessa história e tivéssemos aqui o parque industrial da APPLE, ou parte dele. O valor que mencionamos acima poderia estar em parte, incorporado ao nosso PIB. Além do que eles não teriam as ameaças que estão tendo de retirar suas facilidades fabris da China, com estão tendo agora.

 “..quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

 

Texto não publicado.

 

 

 

 

 

 

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Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009