Design é qualidade, é conhecimento, é cultura.
Design serve para melhorar a vida, adicionando valor a nossa cultura material. Neste espaço queremos discutir alguns destes tópicos, especialmente em relação a realidade brasileira.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Goebel Weyne na visão de um amigo.

Foto: Noni Geiger 2001

Na cremação do Goebel, seu amigo, o arquiteto Jacó, colocou a mão no meu ombro e comentou inconsolável: “não vai haver outro igual”; constatação parecida à do Rodolfo, ao escrever que, apesar de toda pessoa ser insubstituível, Goebel é mais do que a maioria. E assim é pela combinação de características que conformavam uma personalidade absolutamente singular. Era generoso, desde a gorjeta extra para o garçom, até a disponibilidade para seus interlocutores. Era orgulhoso da amizade com o “Tom” (Jobim), o “Oscar” (Niemeyer), o “Rubem” (Braga) e muitos outros. Era também impulsivo, capaz de reações muitas vezes desproporcionais, mas nunca de todo infundadas. Era valentão. Cansou de xingar a mãe dos motoqueiros mais afoitos (e de peitá-los quando voltavam tirando satisfações). Alguns o achavam parecido com Walther Matthau. Talvez mais do que semelhança física, era o jeito gaiato de Goebel que sustentava essa comparação. Ele exercia a gaiatice com maestria. Se estivesse caminhando e conversando com alguém, e um grupo falastrão viesse logo atrás, era habitual relaxar o passo, deixando o grupo passar; praguejava então alguma coisa, e só depois retomava a conversa. Às vezes fazia isso, apontando para o céu, para “justificar” a parada repentina, fazendo com que os passantes olhassem todos para cima (desconfio que fazia essas coisas mesmo andando sozinho.). Desde quando o conheci, era rabugento e comicamente azarado (ou, o mais provável, fazia do azar algo cômico). Seu humor ia da fina ironia às histórias mais absurdamente escatológicas. Manifestava-se em causos, piadas, bordões (muitos!), caricaturas e apelidos, os mais hilários. Esses últimos, dava aos próximos, e não tão próximos, (muita gente até hoje não deve saber que teve um). 

Se em algumas situações me pareceu autoritário, intransigente, repetitivo, pernóstico, e até ingênuo; no mais das vezes, eu o considerava sábio, condição que hoje teria dificuldade em enxergar em outra pessoa. Não era só pelo conhecimento enciclopédico, pela memória privilegiada ou pela rapidez nas piadas, nas ideias e nas soluções; mas também pela presença de espírito gigantesca, pela capacidade de apreensão fora do comum e por um sagaz entendimento da natureza humana. Além disso, Goebel também era íntegro, reto e direto, como seus trabalhos. Normalmente, essas características se revelam em pessoas diferentes e em situações diferentes. No Goebel, se manifestavam em abundância e com autenticidade desde a primeira conversa mais demorada. 

Para os alunos que o aceitaram, foi um dedicado mestre. Certa vez ouvi (não sei de quem) que aprender com Goebel é como ter aula de guitarra com Jimi Hendrix. Também não sei o contexto exato desta afirmação, mas assim como seria difícil atinar Hendrix lecionando em uma situação formal de sala de aula, assim era com Goebel. Foi autodidata e se orgulhava de, por isso, ter escolhido seus próprios professores. Talvez por esta razão, seu didatismo fosse de natureza diferente da habitual. Não era um transmissor de matérias prontas ou um ‘ajeitador’ de layouts dos alunos, na base do “mais para cá, mais para lá”, como dizia. Com ele, não funcionava pedir comentários sobre um trabalho pronto ou resposta para uma pergunta pontual. Nada era pontual. Não estava interessado na pragmática imediatista e sim nas relações entre as coisas. Assim, o que funcionava, era ouvi-lo sem pressa. E para quem tivesse essa disponibilidade, além da aula de “guitarra”, aprendia sobre filmes, livros, músicas, por meio de uma sempre atordoante quantidade de referências. Aos seus alunos, interessava transmitir não a objetividade da resposta rápida (aprendida mais cedo ou mais tarde), mas aquela objetividade apoiada nas relações, nos paralelismos e nas conexões entre conceitos e coisas, base de qualquer conhecimento em design. Considerava que, no entendimento dessas relações, está a justificativa para um design menos camuflado na grandiloquência de estilos pessoais ou modismos e mais sustentado pelo conceito forte e pela inovação, ainda que sutil. Nesse sentido, suas “aulas” eram uma demonstração de como as coisas, sendo mais simples, seriam mais elegantes. Era-lhe importante atravessar a camada barulhenta das ideias prontas e clichês para revelar as estruturas subjacentes. Nesta escala elementar, na escala das coisas simples, estaria a verdadeira novidade do design. Não se tratava de mero conceito teórico, e sim de um princípio exercido com maestria na sua própria prática, ou melhor, proveniente dela. 

Com todas as contradições que isso acarreta, foi um designer moderno por excelência. Simples, objetivo, metódico, preciso, alemão, suíço, ulmiano, mas brasileiro e cearense. Aqueles que enxergam no design dito racional, uma relação necessária com o clima frio e uma suposta sisudez e introspecção europeias, reivindicando um contraponto “quente” para um design genuinamente brasileiro, o trabalho e a pessoa de Goebel podem confundir. Quem o conheceu sabe que estava longe de qualquer sisudez ou introspecção. Nascido no nordeste, era também grande conhecedor de sua rica cultura; mesmo assim, não baseou seu trabalho nas raízes nordestinas. Escolheu suas referências por convicções projetuais e não pela sua personalidade ou por ideais nacionalistas. Aprovado em Ulm, não conseguiu bolsa para a família e não cursou a escola alemã, mas, ainda assim, tornou-se mais ulmiano que seus egressos. Acreditava que, se houvesse algo como design nacional, não seria por uma derivação direta de simbolismos e trejeitos estereotipados e sim, mais provavelmente, pelo modo particular como alguns grupos interpretam certos princípios universais de projeto, daí sua admiração e identificação com a HfG Ulm. Além disso, para quem vê o design racional como mera replicação de modelos pré-existentes, novamente a produção de Goebel é um contraponto. Todo bom design se revela pela capacidade de invenção, e nisso Goebel foi excepcional. Não lhe interessava a auto-expressão, e sim revelar um aspecto crucial que comunicasse o espírito do problema com que estava lidando (um cartaz, uma revista, uma exposição...). Isso acontecia não só pelo reconhecido rigor no uso dos recursos formais, mas também pela cuidadosa escolha dos signos (como gostava de chamar os elementos com que trabalhava) e pela engenhosidade e simplicidade com que programava os critérios para a sua articulação. Resultando em algo visivelmente derivado de uma programação, mas de grande interesse estético, reservado sobretudo ao observador atento, a quem surpreendia pelas pequenas, mas eloquentes, partículas de invenção. Nisto, nunca foi modesto, “Sou um homem de ideias” repetia com frequência. De fato, ideias e ideais. Comunista, moderno, modernista. Acreditava no design, e na ideia da escola que ajudou a criar. Talvez por isso tenha sido seu crítico ferrenho. Suas convicções de certo o prejudicaram em várias ocasiões, mas não era do seu feitio fazer concessões. Foi sobretudo um homem corajoso. Talvez sua maior grandeza foi ter tido coragem para viver a vida de acordo com suas convicções. 

Apesar de cioso da correção nas informações sobre sua biografia (espumava com as frequentes referencias erradas) não se interessou em preservar seu passado, de modo que muitos dos trabalhos que o colocariam no lugar que lhe corresponde no Design, desapareceram em parte ou no todo. O que seria visto como displicência, na verdade, pode revelar uma profunda identificação com a ideia de projeto como antecipação do futuro (“pro.jeto”), distante assim de qualquer ideia de retorno ao passado. Infelizmente, o futuro lhe surpreendeu. A vitalidade de Goebel aos 79 anos nos fazia crer, que o inevitável destino de todo homem, mais do que “poderia”, “deveria” ter esperado mais um pouco. É duro quando uma personalidade assim, simplesmente, deixa de existir.

Texto de Luiz Arbex, ex-aluno e amigo, publicado no Facedbook em 20/12/2012 e no SINAL 466, por ocasião do falecimento de Goebel Weyne.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

50 anos de Design no Brasil





E
m dezembro de 2012 se comemoram os 50 anos de estabelecimento da primeira Escola Superior de Desenho Industrial da América Latina. No dia 5 daquele mês foi assinado o Decreto de criação da ESDI, hoje é filiada a UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e que viria a funcionar no inicio de 1963. Por volta desta mesma época era criada a sequência de disciplinas de design na FAU/USP, consolidando assim a formação sistemática de profissionais de Design neste país. Um longo percurso, para uma ideia que se mostrou adequada desde sua primeira hora, quando se planejava o desenvolvimento e a autonomia da realidade industrial da nação.

Mais do que contar a historia desta saga queremos apenas comentar e refletir sobre alguns fatos que marcaram esta trajetória e especialmente abordar o papel de alguns dos pioneiros deste processo, que em muitos casos foram pouco lembrados ou pouco estudados em sua atuação.

Há uma relação direta da ESDI com quatro participantes deste processo, que são Karl Heinz Bergmiller, Aloísio Magalhães, Alexandre Wollner e Goebel Weyne. Todos participantes, desde a primeira hora do grupo de trabalho que formatou a ESDI. Dois deles, Aloísio e Wollner tem extensa bibliografia publicada. São estudados e reestudados em diversos contextos, além de possuírem textos de próprio punho publicados, bem como uma extensa produção profissional reconhecida e registrada.

  No caso de Bergmiller e Goebel há em verdade uma escassez tanto de estudos como de publicações que tornem clara a sua participação neste processo, bem como do registro de sua produção profissional. Nunca entendi esta diferença e ainda me surpreendo com a falta de interesse de nossos acadêmicos por esses dois protagonistas desta história. Sem desmerecer a contribuição de Aloísio e Wollner considero que há uma injustiça histórica neste processo de reconhecimento quanto a Bergmiller e Goebel.

Como participante das primeiras turmas da ESDI, posso afirmar que a presença mais assídua dos dois e sua influencia no dia a dia da instituição foi marcante. Os dois sempre tiveram uma vida profissional em paralelo a sua atuação acadêmica, mas não com tanto envolvimento como no caso de Aloísio e Wollner, que comandavam, já na época, escritórios de algum porte, no Rio e em São Paulo. O acompanhamento das atividades didáticas na ESDI era prevalecente em Bergmiller e Goebel, especialmente quando o primeiro se instalou do modo definitivo no Rio de Janeiro em 1966, vindo de São Paulo. Pouco depois com a criação do IDI/MAM em 1968, um braço de pesquisa da ESDI por assim dizer, houve total integração da atividade didática com a profissional, o que se refletiu no envolvimento cada vez maior dos alunos da ESDI nas atividades deste instituto e em especial com Bergmiller e Goebel, seus fundadores.

Nas Bienais de 68, 70 e 72 a participação da ESDI e de seus alunos foi marcante bem como em outras atividades do IDI, como as exposições temáticas, os projetos do Manual de Embalagens e seus desdobramentos, o projeto do Mobiliário Escolar, somente para mencionar os principais. Estes projetos forneciam uma quantidade de estágios aos egressos da ESDI, coisa rara naqueles tempos especialmente em nossa cidade.

Talvez, pelo fato de não terem produção textual efetiva, a trajetória de Bergmiller e Goebel não tenha merecido estudo mais aprofundado. Sua obra é mais objetiva e pragmática, sob a forma de orientações, produtos, pesquisas, eventos e mensagens gráficas, o que resultou em registros, na publicação e numa repercussão mais fragmentada, mas nem por isso menos importante.

O trabalho de Bergmiller e Goebel urge ser melhor estudado, esmiuçado e registrado como uma parte fundamental da formação do design neste país. Seja em sua participação nos mais de 30 anos da ESDI, seja em sua contribuição para formação de centenas de profissionais que com eles conviveram, dentro ou fora dela, seja nos produtos e mensagens que criaram e que marcaram o design brasileiro de forma tão indelével.

São 50 anos de continua participação na formação do Design neste país, o que não é pouca coisa!!!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Design: tanto bate até que fura!


No Natal ganhei um belíssimo relógio Swatch de presente. Já tive diversos, sempre do mesmo modelo básico, em acabamentos e cores diferentes.  É uma peça clássica no pulso de um designer. Pois não é que ele foi “aperfeiçoado” e agora vem com especial coletor de suor na pulseira!
Detalhe da pulseira
Depois de um dia de uso, em nosso verão tropical, a pulseira passa a ter um cheiro insuportável ocasionado pelo suor acumulado juntando poeira e outras bactérias. Os designers acrescentaram umas nervuras na parte interna da pulseira plástica, sempre lisa nos modelos anteriores, que faz a poeira e suor se acumular nas mesmas de forma inexplicável. Agora temos que lavar o relógio dia sim e outro também para poder usá-lo de forma adequada, sem vexames ou repulsas.

Olha o calor saindo!
Sempre me perguntei por que nós designers temos que “contribuir” de forma errada para o aperfeiçoamento dos produtos que desenhamos ou redesenhamos.  Como exemplo, temos o novo porta-filtros de papel de café da Melitta. Ele sempre teve um design elegante e adequado, feito por designers brasileiros, que foram premiados há alguns anos atrás no Premio Design do MCB.  Esta nova versão tem uma “janela” na parte inferior que a publicidade declara ser para se “ver o café passando”! Ora sabemos que café deve manter-se o mais aquecido possível ao entrar na garrafa térmica. Com esta janela agora temos como ver, mas também como esfriar o café durante o processo de armazená-lo!!!  Na publicidade vê-se o calor indo, indo, indo!

Gol Geração VI
Mesmo em grandes montadoras há situações semelhantes. Foi lançado no ano passado um novo modelo, geração VI, do automóvel Gol da Volkswagen,  grande sucesso no mercado brasileiro.  Neste modelo redesenhado temos agora menor espaço no banco traseiro, um porta malas menor e um vidro traseiro também com menor visibilidade devido às colunas e sua inclinação. Sabemos que esses eram pontos fracos do Gol em todos modelos anteriores, mas precisava piorar??? 
Gol Geração V


Quando se observa outro modelo da empresa o Fox, fica evidente que eles sabem como resolver estes problemas. Então por que cargas d’água os designers, e também os executivos da empresa, não adotam o principio de que aquelas soluções de espaço e dimensionamento são universais?


Outro exemplo: a nova geração de caixas automáticos do Banco Itaú, um banco que prima por utilizar o design como característica de sua atuação no mercado.  São os modelos que estão sendo instalados nas antigas agencias do Unibanco, ao serem reformadas. A começar pela cor, que antes era uma combinação harmoniosa de cinzas e azuis, ela foi substituída por um tom de prata fosco e texturizado. Todos os terminais ficam engordurados com o uso e sujos quase que instantaneamente, pedindo uma manutenção diária impossível de ser feita. Além disso mudaram o ângulo das telas, agora maiores, que causam uma paralaxe, dificultando a leitura e a digitação por parte dos clientes. O ângulo anterior era dirigido aos olhos do usuário, os atuais são dirigidos ao peito do usuário, o que dificulta o “touch screen”. Os novos modelos não possuem mais uma superfície para apoio de documentos, cartões de credito ou recibos emitidos pela maquina. Além disso tiveram os locais de colocação de cartões e retirada de dinheiro totalmente alterados, em relação aos anteriores, o que sempre confunde os clientes, como pode ser observado, em cinco minutos de observação in loco!

Ângulos de tela diferentes?
Para finalizar e como exemplo mor desta tendência, temos a linha de veículos Adventure fabricados pela Fiat no Brasil. Essa linha que se caracteriza por ter acabamentos mais rústicos nas extremidades da chapa, protegidos por elementos plásticos, vem se alterando de geração em geração. Como a base da carroceria é a mesma, o que se altera são os elementos plásticos na frente, traseira  e nas laterais junto aos para lamas. O aumento progressivo do volume destas peças passou a ser disforme, parece que vai tomar conta dele e pedem adaptações, como os recortes junto à tampa de combustível que beiram o grotesco! Em qualquer análise formal mais cuidadosa destes detalhe, eles seriam classificados como verdadeiros defeitos do design!!! Fica então a pergunta: será que os competentes designers da Fiat em Betim não notaram isso? Ou será que fizeram de propósito para chocar o observador, o usuário ou os concorrentes. Confesso que não entendo!


Bonito ou exagerado nos defeitos???
O design e seus praticantes, têm uma faceta um pouco questionável, onde as modificações tem que ser introduzidas por razões de “mercado” ou de “tendências”.  A necessidade de redesenho com o objetivo de dar sobrevida a modelos ou produtos, nos faz sacrificar o que se objetiva, que é o valor agregado intangível do design na nossa cultura material. Design “demais” pode na verdade, e em nome da “personalidade”, chegar ao ponto de retirar a qualidade e pecar pelo excesso, alterando forma e função, negando assim sua própria essência.
Em nossa sociedade industrial globalizada o design parece estar ressuscitando o velho Styling e sua rápida obsolescência, que aparentemente abandonamos nos anos 60 do século passado. Será essa a pedra de toque deste novo milênio?
Espero sinceramente que não!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Expertise de francês para o Metrô do Rio?


Na revista Railway Interiors deste mês anunciam que no próximo dia 15 de novembro, na Railway Interiors Expo em Colônia, Alemanha, vai ser apresentado o novo projeto dos carros do Metrô do Rio de Janeiro, pelo escritório francês MBDDesign. Trata-se de um escritório de design especializado em design de transportes, notadamente transportes ferroviários, que possui em seu currículo alguns projetos de trens e metrôs de cidades importantes como Marselha, Nanjing  e Singapura.

Ora a pergunta é porque afinal um escritório de design francês está desenhando os carros do Metrô do Rio?  Será que não temos nenhum escritório de design habilitado em nosso país que possa fazer este tipo de projeto? Que critérios foram utilizados para escolher o MBDDesign e não algum outro também habilitado a realizar este projeto. Foi realizada uma concorrência pública internacional? Foi o menor preço? Foi o notório saber? Quem decidiu pela contratação? Quanto isso está nos custando?

Frente Metrô Rio (V&V)
1º Interior - Metro Rio (V&V)
Os Metrôs do Rio e de São Paulo, bem como os de outras cidades do país foram implantados na década de 70, todos com tecnologia importada, já que não a tínhamos disponível, mas com design nacional e que se mostrou adequado, de muito boa qualidade e eficiência. Os projetos iniciais do Rio e de São Paulo foram executados pelo escritório Verschleisser / Visconti do Rio de Janeiro e a segunda fase pelo escritório GAPP de São Paulo, com soluções que estão presentes nos carros que circulam até os dias de hoje e que tem se mostrado muito eficientes.
1ª Frente - Metrô SP (V&V)
2ª frente - Metrô SP (GAPP)
Poderíamos dizer que há uma necessidade de renovação nestes projetos e que deveríamos optar por alguém mais sintonizado com os novos tempos ou com novas necessidades. Neste caso porque não procurar entre os inúmeros escritórios nacionais alguém que já tivesse uma “expertise” próxima ao problema? Podemos lembrar, dentre outros, de Guto índio da Costa, designer premiado que já apresentou um projeto de transporte revolucionário, ou mesmo de Bruno Batella, designer carioca responsável pelos interiores dos trens suburbanos do Rio, fornecidos pela Coreia. Além deles temos inúmeros profissionais com experiência em transportes rodoviários, com uma problemática muito próxima do transporte ferroviário, que poderiam executar um projeto deste porte sem nenhum problema, vide exemplos de empresas de atuação internacional como Marcopolo, Caio, Busscar, etc. Lembremos também que todas as montadoras multinacionais de veículos têm equipes eficientes de designers atuando no Brasil, exportando design com sucesso para outros mercados.

No caso de ainda assim necessitarmos de “expertise” internacional deveria se procurar encontrar alguém mais sintonizado com a realidade brasileira, já que um designer parisiense por mais internacional que fosse teria problemas em entender o “carioca way of life”. Podemos mencionar dois escritórios de designers experientíssimos e que conhecem muito bem nossa realidade: Alexander Neumeister da neumeister+partner que vive parte do ano em Munique e parte no Rio de Janeiro desde 2000, onde já possuiu sociedade no escritório NCS Design. É um dos maiores experts em trens do mundo e conhece como ninguém a realidade brasileira. Podemos ainda mencionar a escritório de Thomas Haslacher, nascido e educado no Brasil, do escritório haslacher+partner, também de Munique que à mais de 20 anos é um dos maiores especialistas no assunto. Thomas estudou por curto período na ESDI, no Rio tendo se formado em design na Alemanha, mas com profundas ligações com o país.

Admitamos que por qualquer outro motivo justificável tivéssemos que trabalhar com o escritório parisiense. Neste caso não se deveria propor uma parceria com algum escritório brasileiro, no sentido de facilitar a transferência desta “expertise” ao país, adequando-se o projeto a nossas características e peculiaridades? Isso com certeza facilitaria a rápida absorção do projeto, prevendo-se novas aplicações futuras, adaptações, manutenção e expansões necessárias, com custos menores e maior agilidade na sua aplicação. Os chineses, que tem se utilizado largamente de design vindo do exterior, tem feito assim, no sentido de absorver “know how” de forma rápida e eficiente. Porque não fazemos o mesmo? Estamos perdendo mais uma oportunidade de formar nossa própria “expertise”!

A mim parece que este caso sinaliza simplesmente que continuamos com nosso velho pensamento colonizado, onde o futuro é, e continua sendo, feito na metrópole. Continuamos com a síndrome do “Yes Bwana”, onde tudo que vem de fora é sempre melhor do que as soluções nacionais que possam ser propostas.

Quando vamos aprender que o futuro se faz aqui e agora?!

Texto não publicado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Design é Cultura!

Desde outubro de 2009, faz dois anos, o Design passou a ser incluído no âmbito do Ministério da Cultura. Fomos incluídos por meio do Dec. No 6.973-2009 junto com outras áreas de interesse, como Moda e Arquitetura dentre outras. Já não era sem tempo que o design fosse valorizado como um aspecto importante de nossa cultura material, seguindo o novo paradigma denominado como Cultura Criativa. Esta valorização se sintoniza com os tempos atuais, especialmente da modernidade em diante, onde o design tem assumido papel preponderante em nossa sociedade.

Mas afinal qual é o papel do design neste contexto? Qual a motivação do MinC em incluir esta área dentro de seus interesses? Antes de tudo pretende-se valorizar a ligação do design com a chamada economia da cultura. O design é fator de desenvolvimento e de qualidade que permeia todos os aspectos da produção cultural. O que se pretende é que o design seja utilizado e aplicado, por exemplo, em todos os equipamentos culturais afeitos ao MinC e ao Sistema Nacional de Cultura. Ai estão incluídas às bibliotecas, os museus, os pontos de cultura, as exposições, os centros de pesquisa, o patrimônio, além da representação cultural no país e no exterior. O design também poderá contribuir em muito para o aumento da qualidade de todas as publicações do MinC, como livros, impressos, CDs/DVDs, web, eventos, sinalização, identidades, às adaptações para portadores de necessidades especiais, etc.

Mais abrangente é ainda a inserção do design no Plano Nacional de Cultura e no Sistema Nacional de Cultura, que se desdobra nos sistemas estaduais e municipais. Isto significa que todos os aspectos acima abordados podem ser replicados nestes dois níveis de nossa estrutura cultural. O SNC - Sistema Nacional de Cultura prevê que ao haver a sintonia no âmbito dos estados e municípios com ele, há a necessidade de replicar e aplicar estes mesmos níveis de interesse nestes ambientes. Prevê ainda que qualquer destas instâncias podem se utilizar de verbas federais, de Fundos Setoriais ou de outras origens para tender a estes objetivos. Há uma cartilha que esclarece estes aspectos, à disposição dos interessados, no site do MinC e impressa, que poderá ser solicitada.

De forma simplificada podemos dizer que o design passa a ser inserido nas secretarias de cultura dos estados e municípios, com os mesmos desdobramentos do âmbito federal. O design passa a ser do interesse e utilizado como ferramenta para valorizar a produção cultural no país inteiro, já que está amparado por decreto federal, que o inseriu no SNC.
Em parte isso já era uma realidade em grandes centros, onde o design está presente de forma indelével nas instituições culturais, mas é pouco comum em centros menores, nos rincões mais isolados do país, onde a produção cultural não é valorizada e deixa de ser divulgada e utilizada como expressão de uma comunidade, somente pela forma de sua apresentação. Onde isso for adequado poderemos ter representantes do design em conselhos de secretarias de cultura e em instituições culturais que sejam referencias no setor. O novo paradigma da economia da cultura pode se beneficiar enormemente da contribuição do design para sua afirmação e consolidação, beneficiando a todos.

E o nosso setor, como fica no âmbito do MinC? Temos um representante eleito, que atua junto ao Conselho Nacional de Política Cultural, desde abril de 2010, com participação ativa nas reuniões deste conselho. Está em andamento a constituição, por meio de um grupo de trabalho, de um Colegiado do Design, que terá 15 membros e igual numero de suplentes e que será responsável a elaborar um plano setorial do design, além de eleger o próximo representante junto ao CNPC, ao termino do mandato do atual. Estes membros serão escolhidos em uma reunião maior com representantes de todos os setores e das regiões do país.

Este colegiado poderá propor ações de interesse do design junto à cultura e ao MinC, como por exemplo, incentivos para o uso do design na cultura; ações de preservação da história do design brasileiro como elemento de nossa cultura material; da utilização do design como símbolo da cultura brasileira, especialmente em mostras no exterior, normatizar e incentivar a criação de núcleos de design junto a equipamentos culturais sejam federais, estaduais ou municipais além de incentivar ações educacionais junto a todas as camadas da população no sentido de valorizar a cultura material do país, especialmente com vistas ao patrimônio cultural brasileiro.

A criação, no âmbito do MinC, de uma Secretaria da Cultura Criativa é também um instrumento de valorização da possível contribuição do Design, ao desenvolvimento das ações afetas a estes aspectos de nossa cultura. Cultura é um setor que gera renda e com design terá maior valor, beneficiando a todos os interessados.

O design também agrega valor à cultura. Finalmente design é cultura!
Texto não publicado.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

15 Historinhas de Regulamentação do Designer



Os argumentos em favor da Regulamentação da Profissão de Designer são inúmeros e já explicitados em outros textos. Reproduzimos aqui algumas das historinhas reais que conhecemos e que exemplificam algumas das agruras que os profissionais de Design tem sofrido ao exercer a sua opção profissional com qualidade.
Vol.1 - Um designer formado na primeira turma da ESDI se tornou funcionário concursado de uma empresa estatal, estadual de gerenciamento de terminais rodoviários, exercendo a função de programador visual, por toda a sua carreira. Ao se aposentar foi surpreendido por ter sido classificado como “técnico especializado” ao invés de “desenhista industrial”. Explicaram que a carreira por não ser regulamentada não permitia a classificação correta.
Vol.2- Empresa estatal realizou concorrência de compra de cadeiras de escritório. Exigiu do fabricante vencedor, empresa tradicional do Rio, que fornecesse o certificado, a ART, Anotação de Responsabilidade Técnica, assinada pelo responsável. Os produtos, todos desenvolvidos por designer premiado tiveram que ter a ART assinada por engenheiro mecânico de fora da empresa e que não teve nenhuma participação no projeto, apenas se responsabilizando por ele.
Vol.3 - Uma profissional de design gráfico, de um estado do sul do país, especialista em bulas de medicamentos, tem que submeter seus projetos a ANVISA do Ministério da Saúde assinados por outro profissional regulamentado, já que está impedida devido à falta da Regulamentação.

Vol.4  - Um conhecido designer especialista em Ergonomia presta serviços de layout e de arranjos de salas de controle, de grandes siderúrgicas, de refinarias ou de complexos petrolíferos, tornando-se assim um especialista no assunto, no qual trabalha a mais de 30 anos. Nunca pode assinar um projeto tendo se valido de engenheiros ou arquitetos amigos que assinam a ART de seus projetos.

Vol.5 - Profissional nordestino, especializado em design de interiores, tendo sido preterido seguidamente de fazer projetos para entidades públicas, entrou com recurso junto ao STJ e que ganhou direito de se registrar como membro do CREA por meio de mandato judicial. Caso único não se conhecendo jurisprudência a respeito!

Vol.6 - Um designer formado no Rio de Janeiro, em uma das mais tradicionais escolas de design trabalha para empresa de produtos aeronáuticos e não pode assinar os projetos que realiza. Designers estrangeiros, pertencentes a empresas terceirizadas multinacionais fornecedoras dessa empresa assinam seus projetos aeronáuticos, sem nenhuma restrição ou necessidade de registro.

Vol.7 - Em disputa judicial entre empresas por Registro de Desenho Industrial junto ao INPI, solicitou-se impugnação de designer reconhecido, como perito judicial, por falta de registro profissional. A impugnação é baseada no Código do Processo Civil pela exigência de registro profissional ao exercer a função de perito. Foi preciso estabelecer excepcionalidade para designer ser perito do juízo em casos de disputa relativa exatamente a desenho industrial!

Vol.8 - Laboratório de teste de mobiliário, pertencente à reconhecida universidade pública, homologado pelo INMETRO, foi concebido e constituído por designers. Tem que ter os seus laudos assinados por profissional de fora de seus quadros, engenheiros que não contribuíram para o projeto ou os testes, já que os designers estão proibidos de fazê-lo por falta de registro.

Vol.9 - Tradicional empresa estatal do setor elétrico tem a necessidade de contratar designers por meio de concurso público, dentre outros profissionais. Nos editais exige que todos apresentem seu Registro Profissional, o que no caso dos designers não é possível, por falta de Regulamentação. Os designers entram com recurso, suportado por declaração fornecida pela sua instituição de ensino, de que a profissão não regulamentada prescinde de registro.

Vol.10 - Uma grande estatal, apesar de possuir designers no seu corpo profissional, necessita contratar serviços extras de design de profissionais de fora. Este departamento os seleciona por meio de concorrência pública para tarefas especificas. Todas as concorrências têm como objetivo serviços gerais de design e engenharia. Exige-se que haja um engenheiro na equipe de design que assinará os projetos, tenha participado deles ou não.

Vol.11 - Candidata classificada em concurso público para Designer Gráfico foi preterida ao assumir o cargo por ser graduada em universidade federal em Programação Visual, por falta de legislação que esclareça estas designações. Iniciou procedimento de reivindicar a posse por meio judicial, baseada em declarações de docentes da área com notório saber!

Vol.12 - Designer ao registrar sua empresa de Design Gráfico na Receita Federal no interior do país, para obter seu CNPJ, foi aconselhado por funcionário a se caracterizar como agência de publicidade, a fim de facilitar o enquadramento no registro da atividade básica, de acordo com classificação existente na época, por falta de Regulamentação.  

Vol.13 - Entidade representativa de profissão próxima ao design instituiu concurso de design de luminárias e contratou conhecido designer para organizá-lo. Na comissão julgadora não admitiu designers, mas somente profissionais da entidade, alegando regulamentação e proibição no estatuto de convidar outros profissionais de fora da entidade.

Vol.14 - Numa entrevista de emprego, a entrevistadora do RH disse que o profissional não servia para o cargo, porque tinha mestrado em Design e formação em Desenho Industrial, segundo o seu currículo. Ele deveria ter formação em “Design” também para poder concorrer à vaga. "Só o Mestrado não serve".

Vol.15 - Uma prefeitura de uma das capitais do país instituiu licitação pública para projetos de mobiliário e equipamento urbano para bairros da cidade. Na concorrência exigiu a presença de arquitetos e designers nas equipes. Somente os primeiros assinaram os projetos e comandaram as equipes.

Textos publicados na pagina do Facebook “Regulamentem o Designer Já”, em 08/2011

Design e a miopia estratégica

O pais vive nesta virada do ano uma época de euforia, a economia estabilizada, a oferta de empregos, as exportações, as descobertas de petróleo, o IDH, as vendas de natal, estão fazendo todos enxergarem um futuro cor de rosa.

Simultaneamente continua havendo uma visão truncada quanto a nosso desenvolvimento industrial, especificamente no que se refere ao design. Quando foi criado o Programa de Qualidade e Produtividade esqueceram de incluir o design, o que não aconteceu em qualquer outro pais do mundo. Mais tarde criaram o Programa Brasileiro do Design para concertar o erro, uma iniciativa claudicante de governos passados e que mesmo no governo atual nunca conseguiu dizer a que veio. Mais recentemente na divulgação do PAC da Inovação novamente esqueceram do assunto já que no seu texto não há uma palavra sobre design. Falou-se de patentes, de inovação mas o design foi solenemente ignorado, como se ele não fosse parte da tecnologia e da inovação.

O descaso com o design por parte das federações de indústria e do comércio e de nossa classe política beira o absurdo, e nas raras ocasiões onde se manifestam sobre o assunto parecem estar fazendo favor ao design e aos designers. Nossa classe dirigente ignora solenemente o potencial de valor agregado que o design pode trazer para nossa produção, em todos os níveis.

Por outro lado o Design Excellence, uma iniciativa da Apex, que organiza nossa participação no If da Feira de Hannover continua premiando o design brasileiro no exterior, além de outros 30 concursos regulares de design, dão visibilidade de inegável qualidade ao design nacional. Apenas as indústrias multinacionais e algumas empresas nacionais mais iluminadas tem se beneficiado da qualidade do design nacional, o que também atesta nossa capacidade na área. Apesar disso não encaramos o design como um fator estratégico do desenvolvimento industrial, como o fazem Coréia, a China, e o Japão mais recentemente e a Alemanha, Itália, o Reino Unido e os paises escandinavos na metade do século passado.

Até quando o governo vai ignorar o design como estratégia? Até quando o pais vai teimar sistematicamente em não utilizar deste instrumento de desenvolvimento? Até quando vamos dispensar o fator de geração de valor agregado mais barato e eficiente que existe? Até quando vamos deixar de nos beneficiar de utilizar o design como fator de melhoraria de nossa produção e de nossa qualidade de vida?

A maioria do empresariado de capital nacional precisa corrigir sua miopia crônica em relação ao design. Necessitamos com urgência de uma verdadeira cirurgia para eliminar a miopia estratégica a respeito do design em nossa classe dirigente e em nosso meio produtivo. Não há óculos que dê mais jeito!!

Texto publicado no Site http://www.abedesign.com.br/
05.2008



O legado de José Carlos Bornancini (1923-2008)

Quem não tem ou teve um produto desenhado por Bornancini em casa? Uma tesoura Ponto Vermelho, uma faca Corte Laser, uma garrafa térmica Termolar ou quem sabe foi alimentado pelos pais com o Talher Criança.? Quem valida seu Cartão nos ônibus do Rio de Janeiro e de outras cidades, não deve saber que diariamente entra em contato, até por mais de uma vez, com um produto desenhado por este pioneiro do design brasileiro.

Este engenheiro por formação, professor e designer por opção conseguiu nos demonstrar que o design brasileiro tem qualidades, respeitadas inclusive no exterior, muito antes de termos profissionais aqui formados e antes ainda da atual fase de reconhecimento pela qual, afinal, estamos passando. Sozinho, com seu sócio ou liderando equipes, desde os anos 50, conseguiu superar as resistências atávicas do industrial de capital nacional (e multinacional) a melhorar seu produto com um projeto coerente, racional, ergonômico e também belo quando era necessário, isso sempre sem cópia. Ao contrario demonstrou que o nosso produto por ser bom, pode ser copiado, já que teve inúmeros casos de contra-facção de seus projetos inclusive na Alemanha, berço histórico do bom design.

Bornancini e Nelson Petzhold estiveram na ESDI em maio de 2003 e proferiram a aula inaugural onde falaram de seu trabalho, enfatizando o uso da percepção visual, o foco na inovação e na coragem de inovar, como forma de contribuir para um mundo melhor.

Bornancini nos deixou, no dia 24 de janeiro. Com ele se foram muitas boas idéias, muitos ensinamentos, a companhia sempre agradável de uma verdadeira unanimidade, e algumas das mais divertidas tiradas sobre nós mesmos e nossa sociedade.
Bornancini nos deixou a crença que, se tudo que ele realizou em sua época foi possível, será possível levarmos o design brasileiro no futuro ao respeito que ele merece, mas sem nunca perder o humor!

Foi uma honra e um privilegio enorme termos convivido com Jose Carlos Bornancini.

Texto publicado no newsletter "Sinal" http://www.esdi.uerj.br/sinal - Janeiro 2008

Um Design Onírico?


Em uma segunda feira de sol radiante eu me preparava para subir no avião com destino a São Paulo e me perguntava porque estávamos ali na pista, quando todos os “fingers” do Santos Dumont, recém reformado, estavam ociosos. Perdoei o fato pelo sol de outono que tínhamos a nosso dispor, sabendo o tempo que iria encontrar na capital paulista. Me ajeitei na poltrona do corredor que sempre utilizo quando um senhor, elegante e bem vestido, me pede licença para sentar na poltrona da janela destinada a ele.

O avião levanta vôo e admiramos a paisagem esplendida do Rio em sobrevôo matinal, que sempre deixa qualquer um de boca aberta. O senhor me da um sorriso e faz um comentário sobre o design da cidade, o que me apresso a concordar pois este é meu terreno. O design e o Rio. Faço alguns comentários sobre a qualidade do nosso design, ele me pergunta o que faço e relato brevemente minha atuação de meio designer e meio professor. Ele me diz que a sua empresa se utiliza muito do design e se apresenta como Manuel, de sobrenome indecifrável, presidente da GM do Brasil.

Admirado me animo com a conversa, já que conheço o departamento de design da empresa, onde por coincidência, trabalha um ex-aluno nosso e com os quais tivemos vários contatos. Até desenvolvemos no passado projetos em conjunto com nossos alunos, com suporte da empresa , como um interessante projeto de interior de automóvel destinado ao publico feminino. Somos interrompidos pelo serviço do micro lanche do serviço de bordo e comento que já tivemos dias melhores na Ponte Aérea. Ele ri e menciona que sabíamos administrar e contornar melhor a escassez típica de um país em desenvolvimento.

A conversa continua animada e pergunto por projetos atuais, nestes tempos de crise, de escassez de recursos, de excesso de cautela, de paralização de idéias. Ele me responde que estamos numa época de expectativas, enrola um pouco o papo e percebo que não pode revelar idéias corporativas. Para enfatizar meus argumentos, e dar uma de cara informado, relembro a ele que o departamento de design da empresa dele já teve atuação destacada em projetos de sucesso, como o Celta e o Prisma, por exemplo, que são projetos inteiramente nacionais e que até geraram um novo modelo de produção. Relembro a frente do projeto Sabiá, uma “pickup” conceitual apresentada em salões do automóvel internacionais e que foi aplicada em toda a linha Opel, da época. Falo das sucessivas remodelações da linha Corsa e Astra bem como de outros projetos pontuais que sustentam a imagem da empresa no Brasil e no exterior além do excelente estúdio de realidade virtual que possui atualmente.

Animado, faço ainda algumas considerações sobre designers brasileiros de empresas concorrentes, como a Volkswagen e da Fiat que atuam com sucesso no exterior e de novos players no mercado brasileiro, como os franceses que recentemente estabeleceram centros de design no Brasil. Ele se mostra impressionado com o meu entendimento do assunto e concorda com a nossa eficiência em termos de design automobilístico. Eu, meio bobo com meu desempenho, começo a extrapolar e coloco em questão o fato de não entender porque não temos uma montadora de capital verdadeiramente nacional, onde o design brasileiro fosse reconhecido, plenamente. Ele então, não se contendo, se aproxima de mim, por sobre a poltrona do meio vazia, e me confidencia em voz baixa que talvez estivéssemos próximos disso naquele exato momento. Dá a entender que a filial nacional da GM esta para ser vendida a um forte grupo nacional, neste processo de concordata que a GM americana está vivendo. Sem ser muito explicito dá a entender que está indo negociar o fato naquele dia. Eu o encaro meio atônito por ter me revelado este segredo e fico cheio de esperança, imaginando que nosso design automobilístico finalmente poderá ter o reconhecimento que os japoneses, os coreanos ou mesmo os recém chegados indianos e chineses, tem, mesmo tendo começado muito depois de nós.

Nos aproximamos de São Paulo e o aviso dos cintos e dos aparelhos eletrônicos proibidos ecoa pelo avião. Trocamos cartões e finalmente vou decifrar aquele nome inaudível lá do começo. Quando fixo meus olhos míopes no cartão, percebo estar sem óculos e começo a ouvir um ruído estranho e persistente.

Me assusto muito pois parece um ruído de emergência e a repercussão de uma tragédia aérea recente ainda está presente na memória. Descubro ao mesmo tempo aliviado e decepcionado que é o meu celular me despertando para um novo dia de trabalho onde vou encarar mais uma turma de alunos, tendo que convencê-los que fazer design no Brasil vale a pena. Será um sonho? Coloco os óculos e me levanto, como faço todas as amanhãs.

Texto não publicado - Junho 2009